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A origem de outras espécies

Imagem: Courtesy of the Wheaton College Special Collections

Já por aqui escrevi uma série de posts sobre o bicentenário do nascimento de  Charles Darwin e os 150 anos da publicação da obra que mudou o mundo, A Origem das Espécies. Mas este ano assinala-se também outro centenário que, embora cada vez na ordem do dia, passou despercebido a muitos. 1909 foi o ano em que dois magnatas do petróleo, Lyman e Milton Stewart, contrataram o teólogo  A.C. Dixon para editar uma série de livros intitulada The Fundamentals: A Testimony To The Truth.

 

Os livros foram publicados pelo Instituto Bíblico de Los Angeles (Biola University), fundado por um dos irmãos,  Lyman Stewart, presidente e fundador da Union Oil Company of California (agora a Unocal/Chevron).  The Fundamentals, uma colecção de 90 ensaios de proeminentes clérigos britânicos e americanos coligidos em 12 volumes publicados entre 1910 e 1915, foram concebidas como uma reacção a Darwin e às vozes do modernismo. Continuam a base intelectual (?) do fundamentalismo cristão moderno.

 

De facto, os movimentos religiosos que se apoiaram nestes documentos passaram a defender a doutrina do literalismo bíblico. Ou seja, segundo eles, como a Bíblia teria sido escrita supostamente por inspiração divina seria infalível em todas as questões. Por outro lado, estes movimentos protestantes norte-americanos assumiriam uma postura política que viria a ser muito característica dos movimentos fundamentalistas. Os fundamentalistas, que se caracterizam pela oposição (muito veemente) a tudo o que possa, de alguma forma, colocar em causa a autenticidade e literalidade do seu livro sagrado, combatem a laicidade, nomeadamente a existência de leis e ensino «seculares». E combatem igualmente a ciência «secular» em particular a teoria da evolução.

 

Em finais do século XIX, umas escassas décadas após a publicação d’«A Origem das espécies» de Charles Darwin, em 1859, a teoria da evolução, aceite pelos cientistas no mundo inteiro, começou a difundir-se entre a população em geral, mesmo nas comunidades cristãs de todas as variantes. Os líderes religiosos aceitavam não só a evolução das espécies como a ideia de uma Terra que o avanço da Ciência comprovava cada vez mais antiga. No entanto, defendiam uma «criação especial» do Homem e a literalidade da Queda, causadora do pecado original que por sua vez justificava a necessidade de um Salvador.

 

Muitos pensaram então que as inúmeras evidências da evolução do Homem, especialmente as fósseis, ditariam o fim até da crença da «criação especial», já que apenas subsistia um pequeno número de cristãos norte-americanos que conservavam uma leitura literal do Génesis. Mas o virar do século, que viu logo no seu alvor descobertas científicas que revolucionaram o mundo, viu nascer igualmente os movimentos que culminaram no atavismo que o vice-presidente da agência italiana de ciência publicou recentemente. Assim, 1909 foi não só o centenário do nascimento de Darwin como o ano do nascimento do fundamentalismo que ainda hoje combate a árvore que o naturalista britânico pantara 50 anos antes.

 

Um pouco antes, Ellen Gould White (1827-1915), uma americana semi-iletrada, tinha sido agraciada com mais uma de muitas «visões proféticas» - provavelmente originadas por uma lesão causada pela pedrada na cabeça em criança que a deixou em coma durante 3 semanas.

 

Este «transe» em especial é a pedra basilar de todos os criacionismos actuais já que foi uma «visão» da «Criação». White afirmava ter «testemunhado» que a Criação ocorreu em apenas 7 dias e que foi o Dilúvio de Noé que esculpiu a Terra tal como a conhecemos e simultaneamente enterrou animais e plantas no registo fóssil que enganou os cientistas- e, segundo os criacionistas da Terra jovem como o vice-presidente do CNR e presidente da Fundação Lepanto, engana ainda hoje.

 

Um jovem sem formação científica pelo nome de George McCready Price (1870-1963) juntou-se no final do século ao grupo liderado por White e resolveu dedicar a sua vida a uma defesa «científica» do «transe» da líder religiosa.

 

A cruzada de Price contra a evolução consistiu principalmente numa guerra «geológica» inicialmente sem disseminação fora da pequena comunidade dos Adventistas do 7º Dia. Mas após a publicação dos Fundamentals, a sua prosa absurda começou a ser distribuida entre os fanáticos norte-americanos de outras confissões evangélicas, que apreciavam o empenho anti-evolução do auto-didacta.

 

Embora não acreditassem na «geologia do dilúvio» defendida por Price nem vissem necessidade de uma Terra jovem, os fundamentalistas usavam todas as armas na guerra pela proibição do ensino da evolução nos Estados Unidos. Assim, depois de o ensino da evolução ser declarado crime no Tennessee, Mississippi e Arkansas - e proibido em Oklahoma e na Flórida (que o declarou impróprio e subversivo) - durante o Scopes Monkey Trial, em 1925, o advogado de acusação do criminoso professor evolucionista citou em defesa do criacionismo o trabalho do «cientista» Price.

 

As visões de White foram traduzidas por Price em 1923 num jargão menos analfabeto e publicadas num amontoado de disparates que dá pelo nome The New Geology. O New Geology foi ridicularizado pelos geólogos do mundo inteiro devido à enormidade dos erros e inanidades que continha. Nele Price defendia que as características geológicas actuais - incluindo a deriva dos continentes - são o resultado do Dilúvio Universal de Noé e não dos lentos processos geológicos descritos pelos cientistas. Price afirmava que a «coluna geológica» era constituída pelos sedimentos depositados pelo Dilúvio, enquanto que a totalidade dos fósseis eram simplesmente os corpos mortos dos organismos que não tinham tido a sorte de uma boleia na Arca. A geologia convencional, ululava Price, era uma fraude, promovida entre um público crédulo por cientistas ao serviço do Demónio e não passava de um conjunto de «métodos enganosos» inspirados «pelo Grande Impostor» já que «A Bíblia não pode conter informações falsas, e assim, se as suas declarações indubitavelmente entram em conflito com os pontos de vista dos geólogos, então estes últimos estão errados».

 

Muito da «geologia do dilúvio» de Price pode ser encontrada, quase intacta, nos textos dos criacionistas modernos, nomeadamente é a base dos textos dos inventores do «criacionismo científico», Henry Morris, e John C. Whitcomb. E, pelo que li dos desvarios do criacionista italiano que Berlusconi colocou na vice-presidência do CNR, parece ser igualmente a base «geológica» do monte de lixo que De Mattei publicou com dinheiros públicos.

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