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jugular

para a f., com amor -- a resposta de joão miguel tavares

(escrevi aqui ontem um texto sobre/para o joão miguel e disse-lhe de que teria direito de resposta se assim o entendesse. ele assim o entendeu -- e aqui está)

 

Ah, como a minha vida seria mais aborrecida se eu não tivesse discussões com a Fernanda Câncio. Então é assim:

 


1.       Neste primeiro ponto ficavam bem uns elogios à tua pessoa. Fernandinha, e tal, como gosto de ti, e blá blá blá. Tu sabes isso muito bem, conheces os meus sentimentos, só que infelizmente eu já sou casado e tu nem sequer aprecias instituições conservadoras. Tragicamente, nunca poderemos ficar juntos. Passemos à frente.

 

2.       A discussão da tese “um colunista pode acusar sem consubstanciar acusações porque a consubstanciação é uma obrigação dos jornalistas” é a parte realmente gira para discutir no teu texto, e por isso vou deixá-la para o fim, se não te importas. Só não queria era discutir a coisa na base da “consubstanciação”, que é uma palavra com muitas vogais e conotações católicas. Chamemos-lhe antes “provar”. Eu não acho, de facto, que um colunista tenha de “provar” acusações, críticas ou innuendos que faça nos seus textos. Explicarei porquê já a seguir.

 

3.       Gostei muita da expressão “mártir da liberdade de expressão em Portugal”. Suponho que sim, que alguns tenham tentado fazer de mim tal coisa. Mas há dois detalhes que são públicos em relação ao processo que o senhor primeiro-ministro me colocou. A) Nunca coloquei em causa a sua legitimidade para me processar nem a sinceridade da sua indignação quanto ao meu texto (não sou dos que acham que Sócrates apenas me processou por razões “estratégicas”, utilizando o “peixe miúdo” para silenciar os colunistas “graúdos”). Acho, evidentemente, um absurdo que alguém possa considerar aquele meu texto difamatório, mas é para avaliar isso que existem os tribunais. B) Sempre agradeci a atenção de que fui alvo por parte do primeiro-ministro, que em termos práticos efectivamente aumentou a minha “cotação no mercado”, como tu e tantos não se cansam de dizer, até a um nível que duvido ser merecedor.

 

4.       Nunca disse que vivíamos num “país amordaçado”. Digo, isso sim, que vivemos num país com pouca cultura de liberdade, de transparência, e um excessivo respeitinho pelo senhor doutor.

 

5.       Concordo com tudo o que dizes sobre as “barricadas”, mas não concordo nada com a tua defesa do Pedro Marques Lopes. É evidente que a sua opinião pode ser “generalizada”. Mas ainda é mais evidente que aquele texto nasce de toda a polémica em torno de Sócrates. Nem ele nunca o desmentiu. Eu sei que generalizar, neste caso, te dá jeito, mas simplesmente não corresponde à realidade. Tu podes falar em princípios abstractos, mas esses princípios abstractos só estão a ser discutidos por causa de um caso muito concreto.

 

6.       Quanto ao Fernando Lima, só mesmo por esquecimento teu e das posições que na altura tomei é que podes achar que subitamente o decidi defender. Mas lá está: eu dispenso que me empurres para a tua barricada. O que escrevi no DN foi isto: “o DN sempre foi, para mim, um espaço exemplar de liberdade”. E acrescentei: “muitos não têm a mesma sorte”. Eu não escrevi: “o DN sempre foi um espaço exemplar de liberdade.” Não escrevi “todos têm a mesma sorte”. O DN foi exemplar “para mim”. Tive essa sorte. Nunca ninguém me chateou por causa de um texto de opinião, Fernando Lima incluído. A ti, pelos vistos, sim.

 

7.       E bom, voltemos à discussão filosófica da “prova” das acusações. Esta é uma das boas discussões para ter, porque quando em Portugal se quer calar opiniões contrárias em casos envolvendo questões judiciais, e em geral gente importante do poder político, é habitual surgir aquilo a que já chamei a “brigada do então prove”. Você está a dizer isto? Então prove. Alguém diz que o poder municipal é muito permeável à corrupção? Então prove. Ora, convém não confundir o espaço público com uma sala de tribunal. A ocorrer essa confusão, estaríamos condenados a apenas falar sobre o que quer que fosse após uma sentença ter transitado em julgado. Até lá, todos os colunistas teriam de se abster de comentar processos judiciais ou suspeitas de crimes, com o argumento de que toda a gente é “presumível inocente”. Pegue-se no caso concreto do meu texto sobre Sócrates onde existe uma frase onde falo da casa comprada a metade do preço. O que me dizem é: que provas tem você de que a casa foi comprada a metade do preço? Eu respondo: não tenho nenhumas provas. Li uma investigação do jornal Público onde se dava conta do preço que era pedido pelas casas e do preço a que ela foi comprada por José Sócrates, a investigação pareceu-me bem fundamentada, o jornal merece-me credibilidade, escrevi a partir daí. Parece-me evidente que eu tenho o direito de fazer isso, sem necessidade de ter de “provar” a veracidade daquela investigação. Isso implicaria quer cada colunista tivesse uma equipa completa de fact checkers atrás de si ou, ainda melhor, um departamento da PJ ao seu serviço para averiguar se aquilo que foi escrito numa investigação de um jornal de referência é mesmo verdade. Tu podes dizer-me: a investigação estava mal fundamentada. Em última análise (vamos supor) até se pode vir a descobrir que havia ali um tremendo erro. Mas eu, quando escrevi, escrevi de boa fé, acreditando que aqueles factos correspondem a uma suspeita “consubstanciada” (toma lá). Tu dir-me-ás: então és parvo, não sabes ler, não tens olhos. Admitamos que sim. Que sou parvo e não tenho olhos. Mas ainda que eu tivesse sido parvo, ser parvo não é um crime. O ponto é este: um colunista não pode ser gratuito e fazer acusações malucas que só saíram da sua cabeça; não pode ser caixa de ressonância de boatos sem sentido; e sobretudo não pode ter má-fé, ou seja, não pode propositadamente estar a propagar uma informação que ele sabe em consciência que não é verdadeira. Mas, tirando isso, pode perfeitamente criticar “sem provas”, no sentido jornalístico ou jurídico do termo, porque são essas as regras do espaço público. Imagina que José Sócrates é um anjo tipo “Highway to Heaven”, e que realmente foi vítima de 348 cabalas. A ser verdade, eu teria sido altamente injusto para com ele. Mas eu, como colunista, tenho direito a ser injusto, desde que a priori não tenha consciência de que esteja a cometer uma injustiça. Porque eu, tu, o Pedro Marques Lopes, todos os colunistas, não escrevem beyond any reasonable doubt. Nós escrevemos quando ainda há dúvidas. Quando as coisas não são claras. É a nossa profissão – e é assim que enriquecemos o debate no espaço público. Já fui injusto? Com certeza que sim. E tu certamente também. Mas jamais escrevi uma mentira deliberada, uma “acusação” da qual não estivesse convencido.

 

Ora, ora, muito mais havia a dizer, mas nem a minha mãezinha teria paciência de me acompanhar até aqui. Fica para a próxima. Certamente que tu me darás outra oportunidade e só tenho de pedir desculpas por estas opiniões reaccionárias num blogue onde há tanta gente que me gostava de ir ao lombo.

Beijinhos, minha cara, e quando passares a valorizar o santo matrimónio já sabes onde me encontrar,

João Miguel Tavares

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