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A década 2000 - o retorno anacrónico da religião à arena política

Nos Ladrões de Bicicletas, o André Freire apresenta as suas reflexões sobre a nova doxa na ciência política europeia que confirma o regresso da religião à arena política donde tinha estado arredada durante muito tempo.  Fiquei um pouco desiludida com a 2ª parte que, certamente devido à ditadura dos caracteres no artigo original no Público, é um pouco o anti-climax do excelente início.

 

Mas já que estamos na altura em que abundam as reflexões sobre o ano ou sobre décadas é tentador retomar o tema que não faz mais que levantar o véu sobre um truísmo da primeira década do século XXI: neste novo século a religião entrou de rompante e em pleno na arena política.

 

De facto, logo no início da década a pior forma de religião explodiu num mundo desatento. O 11 de Setembro trouxe a religião para a frente das discussões públicas, na internet, nas televisões, nos blogs, nas conversas de café e até mesmo nos Parlamentos onde deputados se viram subitamente confrontados com a necessidade de debater religiões ( e onde em alguns descalçaram a bota da pior forma possível).

 

Mas na realidade este truísmo que clama que o regresso da religião à arena política se deu em 2001 é enganador. Assim como é enganador considerar que foi Samuel Huntington quem despertou o mundo para esta possibilidade no livro «O Choque de Civilizações» em que advertia que após o chamado «fim das ideologias» seriam questões étnico-religiosas a reger os novos conflitos. Embora a sua tese de que as principais fontes de conflitos, após a guerra fria, seriam as tensões religiosas e não ideológicas tenha sido muito criticada na altura em que o livro foi publicado, 1996, hoje em dia nem o André Feire a contesta.

 

Na realidade, este retorno da religião à arena política teve lugar uma geração antes. A data singular para se discutir este anacronismo é 1979 e não 2001 e este retorno tem que ser analisado globalmente e não apenas em relação  ao islamismo.

 

Assim, foi em 1979 que o movimento revolucionário no Irão deu o poder ao Ayatollah Khomeini. Foi em 1979 que Jerry Falwell fundou a Maioria Moral (Moral Majority) nos Estados Unidos e os religious right começaram a sua batalha para o fundamentalismo cristão que teve o seu início há 100 anos regressar à arena política - e foram os grandes responsáveis pela vitória da agenda neo-conservadora de Ronald Reagan, um ensaio que teve o seu epílogo com a tomada de posse, no ano de todos os males fundamentalistas, de George W. Bush.  Curiosamente, foi também em 1979 que Indira Ghandi, depois de ter governado ditatorialmente entre 1975 e 1977, tomou posse no governo de um país de contrastes que viu explodir as tensões religiosas entre hindus e sikhs que culminaram, após a Operação Estrela Azul, no seu assassinato por dois extremistas sikh. A forte oposição a este último governo de Indira Ghandi fez nascer o Bharatiya Janata Party ou BJP, o partido nacionalista hindu, e deu força ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS, Corpo nacional dos voluntários) que opera sob o slogan «uma nação, uma cultura, uma religião».

 

Foi igualmente em 1979 que João Paulo I morreu inesperadamente após um breve pontificado na linha do Vaticano II e foi, igualmente inesperadamente, substituído por João Paulo II, o primeiro papa não italiano desde meados do século XVI. João Paulo II  conseguiu disfarçar as suas atitudes teológicas reaccionárias com o seu apelo carismático e mediático mas é certo que a sua actuação confirmou as previsões do padre francês Louis Bouyer que, em 1968, previa o advento do integrismo católico como reacção ao «laicismo» provocado pelas reformas do Concílio Vaticano II, expresso no livro polémico «A decomposição do catolicismo». De facto, a face mais vísivel do fundamentalismo católico é o Integrismo Católico, com principal mentor no Arcebispo Marcel Lefebvre,  cuja SSPX, sem grande surpresa para os mais atentos, foi recentemente reintegrada no seio da ICAR. 

 

Todos estes acontecimentos foram notados muito antes do livro emblemático de Huntington. De facto, alguns estudiosos do fenómeno religioso, em particular   Bruce Lawrence ( autor, por exemplo, de Defenders of God: The fundamentalist revolt against the modern age), e Mark Juergensmeyer (que se dedica em especial ao terrorismo no Punjab mas escreveu The New Cold War? Religious Nationalism Confronts the Secular State), começaram a escrever no início dos anos 80 sobre a emergência de um novo fenómeno global religioso, um nacionalismo ou  identitarismo religioso que se afirmava pelo anti-modernismo e integrismo. 

 

(continua)

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