Todos no mesmo barco
Vítor Bento recomenda o artigo de Martin Wolf no FT de hoje sobre a situação dos países do euro com mais preocupantes desequilíbrios financeiros e suspira: "Pode ser que, quando os profetas são de fora, as suas profecias sejam melhor aceites".
Quer dizer:
1. Vítor Bento acredita que só ele, Medina Carreira e mais alguns profetas estão a par dos problemas financeiros do país.
2. Vítor Bento insinua que Martin Wolf partilha o seu diagnóstico sobre os nossos problemas.
Duplo engano. Sobre o primeiro não acrescentarei nada. Acerca do segundo, repetirei a citação de Wolf que o Galamba já hoje aqui reproduziu:
"The crisis in the eurozone’s periphery is not an accident: it is inherent in the system. The weaker members have to find an escape from the trap they are in. They will receive little help: the zone has no willing spender of last resort; and the euro itself is also very strong. But they must succeed. When the eurozone was created, a huge literature emerged on whether it was an optimal currency union. We know now it was not. We are about to find out whether this matters."
Como sabe toda a gente que tenha lido o interessantíssimo livro de Vítor Bento, isto é tudo o contrário do que ele defende. Bento explica logo nas primeiras páginas que os portugueses degeneraram a partir de meados da década de 90, trocando o esforço da formiguinha pelo vício do consumo e do endividamento. Por outras palavras prescinde da análise económica para se comprazer na prédica moralista. Como seria de esperar, não tem verdadeira solução a propor que não a reforma dos costumes.
Pelo contrário, eu acho que as nossas dificuldades não resultam de qualquer deficiência da raça, mas do modo despreocupado e irresponsável como fomos levados a entrar no euro.
Como diz Wolf - e eu concordo - a falha é inerente ao sistema, razão pela qual hoje afecta entre 1/3 a 1/2 da população europeia que usa o euro. Portugal está acompanhado de vários outros países, incluindo a Grécia, a Irlanda, a Espanha e a Itália. O Reino Unido não estará melhor, mas não integra a zona euro.
Daí decorre outra consequência importante. Nós temos que fazer a nossa parte, mas, no essencial, o problema do euro tem que ser resolvido pela UE, quem a chanceler Angela Merkel e Vítor Bento concordem ou não. E isso pela simples razão de que as dificuldades dos devedores não podem deixar, mais tarde ou mais cedo, de afectar os credores.
Não, caro Vítor Bento, o que nos distingue não é o conhecimento das estatísticas. É o diagnóstico da situação e o que propomos para superá-la.

