nos sapatos dos outros
Todos os jornalistas deviam, pelo menos uma vez, ser alvo de mau jornalismo -- ou, melhor dizendo, da grosseira manipulação da realidade que passa por jornalismo por ser publicada, sob a forma de notícia, em jornais. Conhecermo-nos do outro lado faz diferença? Faz. Dizer o contrário é mentir. Não sei quem foi o jornalista, americano ou inglês creio, que disse: olho sempre para o objecto da notícia como se fosse a minha mãe e tento ser o mais justo possível. É talvez pedir um pouco de mais que vejamos em todos os objectos de notícia a nossa rica mãezinha. Mas não será exigir de mais que se não faça, por exemplo, o que foi feito aqui. Logo no primeiro parágrafo da notícia contradita-se aquilo que se diz no pós-título (sobre o qual haveria, de resto, muito mais a dizer). Vejamos: eu, madrinha da marcha gay do Porto, fui 'a grande ausência da marcha gay do Porto' -- mas afinal havia cinco madrinhas e só uma apareceu. Se isto não é uma grosseiríssima manipulação, o que será uma grosseiríssima manipulação? Dir-me-ão que não é importante. Não, não é muito importante. Se fosse, provavelmente nem falaria disto aqui. É apenas irritante. Note-se que quem fez esta 'notícia', para além de nem sequer nomear as três outras madrinhas que não estiveram na marcha, não se deu ao trabalho de tentar esclarecer comigo os motivos da minha ausência. Ou, já agora, se a minha aceitação do convite -- que muito me honra, de resto -- de 'amadrinhar' a marcha não teve como condição não estar presente, já que me era impossível ir ao Porto no sábado. Que este tipo de 'jornalismo' se faça diária e descontraidamente em tudo quanto é sítio, do papel à televisão, e que tanto jornalista -- incluindo bons e verdadeiros jornalistas -- pactue com isto como se fosse aceitável, é deprimente. Que uma jornalista se veja objecto disto é uma bela ironia. E muito instrutiva. Para mim e, espera-se, para outros jornalistas -- a não ser que tenham perdido a mais fundamental capacidade que se exige aos jornalistas, a de serem capazes de se projectar nos sapatos dos outros. (ok, eu calço o 35 e gosto de saltos muito altos, mas perceberam a ideia?)

