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O naufrágio da direita liberal

Nas últimas décadas fomos brindados com uma direita moderna, que se considera culta porque frequenta a cinemateca e lê revistas americanas.

Tal como outras antes dela, esta geração encontra muitos defeitos no país, segundo ela afectado por graves maleitas desde tempos imemoriais.

Foi assim que esses jovens, entretanto amadurecidos e entrados na vida activa, vieram anunciar-nos a boa nova da regeneração da grei pela liberdade individual que no passado não soubemos merecer, emancipando-nos de vez das grilhetas de um Estado que nos tutela e amarfanha.

Tudo muito bem, até um dia. Mais precisamente, até ao dia em que saltaram para a agenda política temas que, precisamente, têm antes de mais que ver com a defesa dos direitos do indivíduo perante preconceitos culturais apoiados em leis abusivas ou discriminatórias.

Estou a falar, como se adivinha, de coisas como a interrupção voluntária da gravidez e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, teste que a direita liberal falhou redondamente.

Como se isso não bastasse, porém, as prédicas cuidadosamente traduzidas da cartilha entraram também em choque - de modo para mim surpreendente - com os princípios do Estado de Direito que qualquer liberal preza.

Ficámos assim a saber que a protecção da esfera privada, o ónus da prova de quem acusa, a limitação da actuação das polícias e a defesa do bom nome não os aquece nem arrefece. Do que eles gostam mesmo é de escutas e impunes campanhas de calúnias, de preferência transmitidas em programas de larga audiência para gáudio do povinho. Muito, muito estranho.

A nossa direita liberal arranjou um emprego jeitoso, constituíu família, habituou-se a ir à missa e deixou crescer barriga, revelando-se tão ou mais medíocre que as outras e variadas direitas que a precederam.

Precocemente envelhecida, podemos constatar que a única liberdade que de verdade a mobiliza é a da raposa à solta no galinheiro, ou seja, aquela peculiar forma de liberdade que aumenta o poder daqueles que já o têm para mais à vontade poderem espezinhar os que dele carecem.

Em resumo, estes pândegos são de facto muito de direita mas nunca por nunca liberais. Houve e há notáveis excepções, eu sei, mas quantitativamente tão insignificantes que chega a ser um preciosismo mencioná-las.

A esses, eu atrever-me-ei a sugerir que tirem lições do sucedido e procurem melhores companhias.

4 comentários

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    Ricardo G. Francisco 20.01.2010

    Liberais sempre lutaram contra a tirania. Quando o poder instituído tem a impunidade garantida pela justiça que lhe é dependente dificilmente verão gente de bem, liberais ou não a clamar pelo direito à privacidade do roubo e da violência. 


    É uma pena que jornalistas prezem menos a liberdade de expressão do que o direito à privacidade para dar um exemplo. Que achem normal e não criticavel que sejam utilizados meios do Estado, de todos, para "orientar" as linhas editoriais. 


    E ainda falam da "queda" da direita liberal....dá que pensar. 


    Temas como o aborto e como o casamento entre pessoas do mesmo sexo são caros à esaquerda que ama a engenharia social. Que sabe o que é melhor para os outros. ´


    Na direita liberal há muitas dúvidas sobre estes assuntos. Quando começa a vida? Ao contrário dos Iluminados socialistas que o sabem com toda a certeza, conheço poucos liberais que tenham certezas sobre este assunto. Mas têm a certeza que onde quer que a vida comece, ninguém tem o direito de a tirar. Bem sei que para a "esquerda humanista", os fins justificam os meios...e vidas humanas devem ser sacrificadas pelo progresso. Quando começa a vida humana? Eu não tenho certezas.


    Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo...claramente o que foi discutido não foi uma questão de direitos. Conheço poucos dessa direita liberal que não estivessem firmemente convencidos que a lei era injusta e não dava os mesmos direitos a indivíduos homossexuais do que a indivíduos heterossexuais. O que estava em questão não eram direitos, mas sim a alteração da sociedade através da lei. A A iluminação da maioria pela minoria elitista e progressista.


    Estes assuntos ou o resultado em si pouco impacto têm na vida dos directamente interessados. A diferença prática entre as soluções que a "direita liberal" advogou e que vingou apenas tem como diferença o seu significado. Foi a vitória da engenharia social. Parabens.


    Agora....não se engane. Enquanto a esquerda "humanista" e "cultural" continuar a ser representada pelos "idiotas úteis" que Mao tanto gostava de acarinhar, vamos continuar a ver essas elites a esconderem-se debaixo de pedras mal o "amado líder" do momento tiver sido enviado ou para a prisão ou para  o exílio. Viva o PS, viva Sócrates. Viva!


    PS: Não é por repetir até à exaustão que liberalismo está caduco que a realidade muda. As palavras não alteram a realidade, apenas a percepção da realidade de quem vive em função das palavras. A=A.
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    Nuno Palha 21.01.2010

    O problema de alguma direita são estas expressões que significam pouco: "engenharia social", "luminação da maioria", esquerda que "sabe o que é melhor para os outros".

    "Engenharia social" é um equívoco porque pressupõe que alguém pretende impor uma mudança à sociedade. Falso. Só se falou de aborto, casamento gay e outras coisas que tais porque a opinião pública mudou e há cada vez mais pessoas a questionar a organização jurídica vigente. A tal ponto que num referendo, o o aborto acabou por ser aprovado. Isto foi a esquerda a impor a sua visão? Foi engenharia social? Não, foi apenas uma opinião que prevaleceu sobre a outra. A questão quanto muito põe-se no facto de serem assuntos que dividem a sociedade. A opinião de uma parte da sociedade acaba por prevalecer sobre a outra quanto à forma como esta sociedade pode ser estruturada  e pensada.



    Não é um pormenor irrelevante algumas das maiores conquistas civilizacionais se enquadrarem na chamada "engenharia social": o fim da escravatura, o fim da pena de morte (esta última ainda a dar polémica nos EUA), o fim legal do rebaixamento de metade da população (as mulheres), o fim legal do racismo e da discriminação racial. Todas estas coisas foram impostas por leis novas. Foi "engenharia social", como lhe chamaria alguma direita. A sociedade mudou para melhor também (mas não só claro) porque mudaram a lei.

    A questão "do sabe o que é melhor para os outros". Não. Apenas sabe que há grupos sociais que lutam pelo fim de discriminações na lei. Algumas esquerdas e direitas começaram a concordar em que estas discriminações são um problema. Primeiro umas esquerdas e depois outras concordaram que a lei devia ser mudada. Mudança de lei essa que nada impõe a ninguém. Apenas remove obstáculos colocados pela lei à felicidade de alguns dos seus cidadãos. Sem prejudicar os restantes e em consonância com o espírito da sua actual constituição, que proíbe a discriminação com base na orientação sexual.

    A direita em Portugal é liberal uma m***a! Liberal parece para muita gente na direita significar sobretudo liberdade absoluta no domínio económico. Muito pouco liberal tem sido a direita com os homossexuais. Gostava mesmo muito de saber quanta direita votou a favor do fim da criminalização da homossexualidade em 1982. Quantos liberais de direita terão participado nessa peça legislativa de engenharia social?

    E olhe criticar a esquerda por Mao ou Estaline é tão estúpido como criticar a direita por Hitler, Mussolini ou Pinochet. Não leva a lado nenhum e é uma perda de tempo.
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    Ricardo G. Francisco 21.01.2010

    Caro Nuno Palha,


    Essas expressões são eufemismos. Resumem-se em autoritarismo encapotado e encapotado de boas intenções.


    Sobre o aborto, em blogs dessa direita liberal, e não confunda com conservadores, a discussão passava por "onde começa a vida". Não concorda que o direito a viver está acima do direito a dispor do próprio corpo? Eu ainda não estou convencido de qual o melhor momento para a legalização. Sei que crentes na religião católica estão convencidos que é o momento da concepção e são consequentes. Também encontrará outro consenso, a não aceitação do financiamento do aborto. Isto tem a ver com dar-se o direito a quem não concorda não ser obrigado a colaborar. O financiamento ao dar um direito criou tambem uma obrigação. Um direito "positivo".


    Sobre o casamento entre Homossexuais ficou demonstrado que o que estava em causa não eram os direitos a que casais homossexuais tinham ou não acesso. Isso seria facilmente resolvido com o contrato de união civil, que se quer que lhe diga, devia ser o único disponibilizado pelo Estado. A questão em cima da mesa era a aceitação social da homossexualidade promovida pela lei, conseguida pelo carimbo de uma instituição, que se goste ou não, está em Portugal intimamente ligada à Igreja. É isto o progressismo, o usar a lei para orientar os costumes. 


    Eu não critiquei a esquerda recorrendo a Mao. Critiquei intelectuais que se deslumbram com o poder que um Estado centralizador tem. Que se iludem a pensar que, assumindo-se como elites culturais, influenciam o pensamento do partido e portanto  os destinos da nação. Mao a esses chamava idiotas úteis. São para serem usados enquanto são úteis e colocados de parte mal a utilidade seja esgotada. São úteis enquanto participam na doutrinação de acordo com as linhas do partido. São úteis enquanto não colocam em questão as malfeitorias do partido. Enquanto preferem não ver o óbvio.
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