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Os véus do perfeccionismo -II

«A individualidade existe com ou sem desenvolvimento... [só que] apenas a ‘boa’ cultura da individualidade poderá (e deverá) produzir seres humanos evoluídos... o que mais podemos dizer sobre as ‘boas’ actividades humanas, senão que estas conduzem cada Homem à sua melhor realização pessoal e individual?... e o que de pior podemos dizer das obstruções à ‘boa’ cultura individual, senão que frustram esta realização?»  On Liberty, Stuart Mill.

 

No post anterior, foi referido que «Em filosofia política, o perfeccionismo é a ideia de que o estado deve promover o que é tido como objectivamente bom para todas as pessoas. Tanto se pode defender que o estado deve fazê-lo coercivamente, como se pode defender que o estado deve apenas estimular, mas não coagir.» O problema da concepção do que é objectivamente bom para as pessoas, que o Estado deve impor ou estimular, fora já apontado, no século XVIII, no contratualismo Kantiano, «uma sociedade, sendo composta por uma pluralidade de pessoas, cada qual com as suas expectativas, interesses e concepções do ‘Bem’ e do ‘Mal’, será melhor orientada se for governada por princípios que não pressuponham qualquer concepção particular sobre o ‘Bem’ e o ‘Mal’».

 

Por outras palavras, quem e como se determina o que deve ser objectivamente bom para todas as pessoas numa sociedade democrática, com tudo o que o termo democracia implica? A maioria por referendo? Mas isso não é democracia, é ditadura da maioria...


Embora o que esteja em causa no debate dos últimos dias seja o modelo de «perfeição» feminina exportado pelos talibans (mesmo no Afeganistão, onde houve uma moda da burqa iniciada quando o rei Habibullah, que governou de 1901 a 1919, ordenou que as suas 200 mulheres usassem a burqa fora do palácio, o seu uso apenas se tornou obrigatório quando os talibans tomaram Cabul em 1996), as injunções para que as mulheres cubram o corpo e sejam modestas na realidade são omnipresentes na maioria das religiões e não são apanágio apenas do Islão.

 

Mas estes códigos de vestuário são apenas um sintoma de uma maleita pior e é a raiz do mal que deve ser atacada, não os seus sintomas, a penas de a «cura» agravar a doença ou induzir sintomas francamente mais nocivos. Em particular quando falamos em religiões, que se alimentam da vitimização e de «mártires» que inventam a propósito de tudo e mais umas botas. Aliás, mesmo por cá os resultados da «cura» francesa já tiveram repercussões nas carpiduras do cardeal patriarca de que há uma preocupante guerra laicista na Europa à religião, uma «hegemonia totalitária» que deve ser combatida desde os bancos da escola que, segundo ele, «não pode ser laica».

 

Ou seja, é contraproducente tentar suprimir os sintomas quando essa supressão dá mais força à doença. Em particular quando esses sintomas nem sequer são os mais graves nem a sua erradicação garante que não sejam substituidos por outros mais danosos.

 

Por exemplo, a Igreja católica já não impõe, directa ou indirectamente, os códigos de vestuário da minha infância, e é raro, por exemplo, ver em Portugal os véus sem os quais então não se podia entrar na igreja ou o luto integral que deveria cobrir todo o corpo e cabeça de uma viúva que se prezasse e não quisesse ser «falada» pela comunidade beata. Mas isso não implica que não tente impor modelos de perfeição cristã que me merecem um repúdio ainda maior que estes absoletos códigos de «modéstia».

 

Por exemplo, em 24 de Abril de 1994, quando já se podia entrar nas igrejas de cabeça e pernas ao léu, «tomando a estas duas mulheres como modelos de perfeição cristã» João Paulo II* santificou a violência conjugal com a beatificação de  Isabella Canori Mora, uma mulher que suportou estoicamente a violência de um marido abusivo e que  «respondeu sempre com absoluta fidelidade» e sem nunca «violar a santidade do matrimónio», à «violência física e psicológica de seu esposo». O segundo modelo feminino de perfeição cristão é Gianna Beretta Molla (posteriormente canonizada com o título Mãe de Família), que preferiu morrer a interromper uma gravidez.

 

O ideal de mulher para o Vaticano, como expresso na famosa carta aos Bispos do então cardeal Ratzinger ou no «Mulieris Dignitatem» de João Paulo II é assim uma mulher completamente subjugada ao marido e aos filhos,  sem valor intrínseco  fora da Igreja ou de um matrimónio, sem dignidade que não a conferida pela virgindade ou pela maternidade. Por outras palavras,  a mulher católica ideal, sem véus nem burqas, é uma mulher completamente anulada como pessoa, devotada à sua «capacidade para o outro», que rejeita sem pestanejar «um certo discurso feminista» que «reivindica exigências ‘para ela mesma’».

 

No entanto, penso que poucas mulheres católicas, pelo menos nas sociedades ocidentais,  sigam este modelo da mulher perfeita, exactamente porque a misoginia dos modelos de perfeição feminina impostos por religiões sortidas foi ultrapassada não por repressão mas cultivando a «boa cultura da individualidade» de que falava Mill.

 

* Para ser justa, o ideal de perfeição cristã de João Paulo II não era distorcido apenas em relação às mulheres. Perché è santo. Il vero Giovanni Paolo II raccontato dal postulatore della causa di beatificazione (Porque é santo. João Paulo II contado pelo postulador da causa de beatificação) foi apresentado na 4ª feira em Roma na presença de José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, que destacou a ligação entre santidade e humanismo na vida de Karol Wojtyla, «uma santidade visível, tangível, que se podia tocar com a mão». Essa santidade foi conseguida, entre outras coisas, por «instrumentos de perfeição cristã» como o cinto com que o Papa se açoitava,  como explicou o autor do livro, Monsenhor Slawomir Oder.

 

A confirmação da prática da mortificação da carne pelo falecido papa, curiosamente, coincidiu com um documentário do History Channelque examinava  esta prática medieval e bárbara num documentário intitulado "A Praga". Numa das cenas é possível ver monges andando em círculos de costas ao léu enquanto se fustigavam com chicotes. Os monges estavam convictos de que esta demonstração de «perfeição cristã» aplacaria a zanga do seu deus com a humanidade e acabaria com a peste negra que dizimou cerca de metade da população europeia.  Ou seja, JPII, assim como os monges medievais, acreditava piamente que as suas práticas de auto-flagelação promoviam algo «objectivamente bom para todas as pessoas». Embora defenda o seu direito individual a elas, não considero que, pelo menos neste capítulo, o Papa seja um émulo a seguir. Mas essa é a minha «concepção particular sobre o ‘Bem’ e o ‘Mal’ » e, embora não abdique do meu direito de criticar, veementemente se preciso, outras concepções não considero que a possa impor aos restantes...

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