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IPCC inundado

Em Setembro de 2008, altura em que todo o mundo tinha sido devidamente alertado para os perigos do aquecimento global, Rajendra Pachauri, o coordenador do Painel Intergovernmental para as Alterações Climáticas (IPCC), devotou-se a uma nova cruzada subordinada ao título da conferência que a lançou: «Global Warning: the impact of meat production and consumption on climate change».

 

Desde essa altura que o economista, que, como não podia deixar de ser, é vegetariano, nos exorta, em termos muito veementes, para comer menos carne elaborando sobre as catástrofes que se abaterão sobre a Terra se não nos convertermos à sua dieta.

 

Pachauri arregimentou uma série de vegetarianos para este cruzada, e pouco depois o Worldwatch Institute avisou os apreciadores de um bom bife de que afinal eram eles os culpados de virtualmente todos os males do mundo, das injustiças sociais à perda de biodiversidade:

 

«The human appetite for animal flesh is a driving force behind virtually every major category of environmental damage now threatening the human future: deforestation, erosion, fresh water scarcity, air and water pollution, climate change, biodiversity loss, social injustice, the destabilisation of communities and the spread of disease».


O mais recente cruzado nesta guerra à carne é Paul Mccartney que com Pachauri mimoseou em Dezembro o Parlamento Europeu com a audiência «Aquecimento Global e Directivas Alimentares: Menos Carne= Menor Aquecimento» para sensibilizar (carta em formato pdf) os eurodeputados para a necessidade de diminuir drasticamente o consumo de carne a penas de se concretizarem mais depressa os augúrios negros do último relatório do IPCC.

 

Mas ontem, a Nature revelou-nos que o perito da ONU - e o IPCC - estão inundados de críticas não só pelo alarmismo infundamentado em relação aos glaciares do Himalaia, que o último relatório do IPCC avisava irem derreter completamente nos próximos 25 anos como em relação às ligações de Pachauri com empresas que beneficiam das políticas que Pachauri urge nos governos mundiais.

 

Como é óbvio, não tenho dúvidas de que a pecuária, assim como todas as actividades humanas, é responsável pela libertação de gases de efeito de estufa (GEEs)*. Mas maça-me sobremaneira que se tente vender uma qualquer ideologia pessoal, neste caso o vegetarianismo, com avisos apocalíticos que contam apenas uma parte, a conveniente, da história.

 

De acordo com um relatório da FAO de finais de 2006, as emissões provenientes da pecuária geram cerca de 18% mais efeito de estufa que o sector dos transportes, produzindo, na altura, cerca de 65% do N2O e 37% do metano antropogénicos. O N2O é o gás hilariante na base do aviso de Paul Crutzen sobre a possibilidade de os biocombustíveis poderem agravar o efeito de estufa já que o óxido nitroso é formado na degradação bacteriana dos nitratos utilizados como fertilizantes.

 

Ou seja, a agricultura é igualmente responsável por emissões não despiciendas não só de N2O como de metano. Nomeadamente,  não é o gado mas a cultura de arroz uma das principais fontes antropogénicas de metano. Actualmente são libertados entre 300 a 400 mil milhões de toneladas de metano com origem antropogénica que correspondem a uma contribuição para o aquecimento global equivalente a cerca de 1/3 da correspondente ao CO2. Entre 50 a 100 mil milhões de toneladas têm origem no cultivo de arroz.

 

De acordo com o Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), em 2020 serão necessários mais 350 milhões de toneladas de arroz anualmente para alimentar uma população crescente, ou seja, ver-se-à um aumento de mais de 50% da produção actual e, consequentemente, um aumento equivalente nas emissões de metano.

 

Ou seja, mesmo que fosse proibido o consumo de carne e a utilização de combustíveis fósseis, o aumento da população implica que as emissões de GEEs aumentarão sempre.

 

*O potencial de aquecimento global - Global warming potential (GWP)- de um GEE é uma medida relativa que compara o gás em questão com a mesma quantidade de dióxido de carbono (cujo potencial é definido como 1). O potencial de aquecimento global tem em conta não só a «eficácia» na absorção de radiação IV de um determinado GEE como o seu tempo de vida na atmosfera. Assim, para efeitos de comparação é necessário indicar qual o intervalo de tempo em questão caso contrário a comparação não faz sentido. Por exemplo, o metano tem um tempo de vida de 12 anos (degradando-se em CO2 e água) pelo que apresenta um GWP a 25 anos de 72, valor que diminui para 25 se o período considerado for um século, o intervalo de tempo normalmente associado aos GWPs. Na tabela seguinte são indicados os gases listados actualmente pelo IPCC como os principais GEEs (embora não só a lista não contemple a água, responsável por entre 60-90% do efeito de estufa, como  parece provável que a lista esteja incompleta...).
 

Gas
Fórmula
GWP (100 anos)
Dióxido de carbono
CO2

 

1
Metano
CH4

 

25
Óxido nitroso
N2O

 

298
Perfluorocarbonetos
CnF2n+2

 

7400 a 12200
Hidrofluorocarbonetos
CnHmF(2n+2-m)

 

120 a 14800
Hexafluoreto de enxofre
SF6

 

22800
Fonte IPCC, 2007

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