Totalitarismos, vitimização e enviesamento de confirmação
Bernard Shaw descreveu o Sermão da Montanha, onde abundam avisos das «perseguições» de que seriam alvos os seguidores da nova religião, como «uma explosão impraticável de anarquismo e de sentimentalismo». Já Nietzsche, na Geneologia da Moral, afirmava que «o cristianismo (ou a moralidade dos escravos) necessita um ambiente hostil para funcionar, a sua acção é fundamentalmente reacção».
Quiçá pela influência judaico-cristã na nossa cultura, esta necessidade de vitimização, de invenção de perseguições sortidas e de mártires pela causa, não se restringe aos crentes que satisfazem a ilusão de serem automaticamente abençoados e merecedores do reino dos céus, como preconizado em Mateus 5:10-12, quando carpem como insulto, por exemplo, qualquer texto sobre religião. Assim como explica a inacção de tantos que apenas vemos em reacção vigorosa a perseguições efabuladas. De facto, o clima que se vive actualmente no país denota esta influência cultural perniciosa assim como ilustra os ingredientes necessários à eclosão de totalitarismos sortidos, que assentam em três pilares:
1) A detenção de uma verdade «absoluta», à qual todos se devem submeter, mesmo os descrentes nesta suposta verdade;
2) A certeza num destino glorioso para os justos/eleitos;
3) Um grande inimigo que é necessário diabolizar, sendo a suposta perseguição por este inimigo o nexus da angariação e fidelização de seguidores.
De facto, um inimigo sob o qual estão sob ataque constante os «justos» ou eleitos é indispensável a qualquer totalitarismo, seja ele religioso ou ideológico/político, um inimigo que pode ser responsabilizado por todos os males da sociedade e cujo combate exige a mobilização permanente dos eleitos. Para completar o quadro, é necessário convencer o rebanho de conformistas que este inimigo está sempre a postos para os perseguir, pois domina a cena financeira/política e controla os meios de comunicação. Este último ponto aposta no enviesamento de confirmação* e é indispensável na era da comunicação para imunizar os mais incautos em relação a qualquer crítica. Assim, importa atribuir tudo o que é dito de negativo sobre as respectivas doutrinas - e de positivo sobre o inimigo - a manobras manipuladoras desse inimigo omnipresente.
Assim, todos os totalitarismos, religiosos ou políticos, dividem a humanidade entre nós e eles, «justos» e malvados, consoante a obediência ou não a estas verdades «absolutas», invocam calamidades sortidas, na Terra ou no Céu, se as suas verdades não forem acatadas e consideram a sua a forma suprema de justiça. Para todos os totalitarismos, o destino do homem livre e racional, o seu grande inimigo, é a perdição. Ou seja, pervertem o conceito de liberdade como pervertem o conceito de justiça ao pregarem que só a obediência cega, a Deus ou a outra qualquer invenção totalitária, ou a desconfiança, cega também, dos outros, conduz à liberdade. E apelidam de democracia amordaçada ou ditadura, do relativismo ou afins, a verdadeira liberdade!
*O Enviesamento de confirmação (confirmatory ou confirmation bias) é o tipo de pensamento selectivo que caracteriza aqueles que têm tendência para procurar informação que confirme a sua opinião já formada e ignoram tudo o que contradiga essa opinião. Esta tendência, já descrita no século XVII por Francis Bacon, o «pai» do método científico moderno, é alternativamente designada por Demónio de Morton, um «demónio que é melhor que uns óculos de lentes cor de rosa» e faz as pessoas por ele possuídas «sentirem-se moralmente superiores».

