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Campanhas meritórias e os pica na merda

De vez em quando, aparecem campanhas em defesa de boas causas. Boas campanhas. Bem feitas. Campanhas às quais, muitas vezes, pessoas com visibilidade, se associam, com generosidade.

Já aconteceu em diversas ocasiões, como no combate à violência doméstica, na luta contra o cancro da mama ou, recentemente, na luta contra a discriminação dos seropositivos

Nesta última, políticos de todas as correntes surgem a dar a cara com frases como as seguintes: "se eu fosse seropositivo será que me ouvia?" (Francisco Louçã); "se eu fosse seropositivo, mudaria a sua opinião sobre mim como político?" (Paulo Portas); e "se eu fosse seropositivo, votaria em mim?" (Jerónimo de Sousa).

Qualquer pessoa que, com capacidade para se centrar no essencial e, sobretudo, com sensibilidade, quiser dizer alguma coisa sobre uma campanha como esta, terá de reconhecer, pelo menos se sabe alguma coisa sobre a discriminação a que os seropositivos ainda são sujeitos, o impacto fortíssimo que a imagem de cada um destes políticos associados às frases citadas pode ter na mentalização das pessoas.

Há quem prefira, no entanto, construir os chamados textos sobre textos. São os analistas de sofá, os pica na merda, que nada de inovador têm para dizer ao mundo.  Vivem de esperar que os textos alheios lhes caiam em cima para poderem fazer um exercício gramatical com palavras giras, às vezes com estrangeirismos que dão um toque chic à coisa. Então, em vez de dizerem o óbvio sobre qualquer coisa que é positivo, como esta campanha, referem-se apenas à pergunta de Jerónimo de Sousa, explicando que continuariam a não votar nele, claro, e que por isso a pergunta está mal feita. O génio tem, prontamente, uma pergunta alternativa a propôr. E isto dá-lhe um um post. Todo um texto de humorzinho e crítica a explicar que há perguntas que "aborrecem", estas que visam minorar o sofrimento de milhares de pessoas.

De resto, parece que o mesmo sa passa com a pergunta da tão falada campanha da ILGA. "Se a tua mãe fosse lésbica mudaria alguma coisa?". Tanta gente já falou sobre isto, mas há sempre os pica na merda que têm de dizer mais qualquer coisinha. Não o que toda a gente disse, a favor e contra, mas que a pergunta, a pergunta, pois, estava mal feita, seus mal pensantes, eu é que sei, porque claro que mudava muita coisa, então não mudava? O pica na merda, por definição, quando analisa o feito alheio acha estranho não ter sido consultado e pensa sempre que o outro não teve em conta o óbvio, o evidente. Ora, é difícil, por definição, não se ter em conta o evidente.

Aqui, o evidente é que o que se quer incutir com a campanha é, também, que o afecto não mudaria, em nada "se a tua mãe fosse lésbica". O pica na merda acha que para isso a pergunta tinha de ser outra, esquecendo-se que a pergunta que lá está vai acompanhada de uma imagem de, espera lá, espera lá. como é que se chama? Afecto, é isso. Pois é, os pica na merda esquecem-se de que os destinatários das campanhas não são acéfalos e que sabem interpretar uma frase acompanhada de uma imagem.

Mas enfim, há quem perca o tempo, perante campanhas meritórias, a explicar, nos meandros dos pormenores que não interessam a ninguém, que as faria melhor.

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