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Sono da razão: o lado negro das redes sociais

O debate da Almedina sobre o diálogo impossível entre evolucionismo e criacionismo permitiu-me confirmar o que trata um artigo que recomendo de um dos editores do jornal Frontiers in Neuroscience,  o lado negro da web e os «kooks and nutcases» que encoraja.

 

De facto, após Artur Villares ter criticado a «caricaturização» que eu supostamente fiz do criacionismo quando expliquei as razões porque o criacionismo, como o moderador tinha constatado, estava hoje em dia no centro da atenção da ciência em alguns países, caiu em todas essas caricaturas e apresentou-as como factos consumados que uma grande (e efabulada) conspiração a nível mundial impedia serem do conhecimento geral. Todas essas caricaturas são perpetuadas e copiadas ad nauseam pelas boas graças de alguns criacionistas, como o pastor Ken Ham, que mantêm sites como o Respostas no Génesis. Ou seja, os pseudo argumentos esgrimidos por criacionistas de todos os flavours e em todos os locais do mundo são iguaizinhos e assentam, a menos de traduções deficientes, em teorias da conspiração, mentiras puras e duras e coisas bizarras debitadas nesses sites.

 

Quer eu quer o teólogo luterano concordámos que não há qualquer possibilidade de diálogo entre evolucionismo e criacionismo e até concordámos que o último é algo que pertence exclusivamente à fé, ou seja, é uma crença injustificada sem qualquer razão ou facto que estabeleça a sua verdade. Mas esses foram os únicos pontos  de consenso num debate que por vezes tocou as raias do surrealismo, em particular quando Villares falou, sempre sem qualquer consubstanciação, prova ou afim, da existência actual de tribos Neandertais (?!), de fósseis «fora do sítio» (?) ou, à laia do Expelled,  da «ciência» perseguida feita pelos oxímoros cientistas criacionistas.  Ou quando carpiu os nossos manuais escolares «marxistas» que se recusam a aceitar a veracidade literal da Bíblia, o único manual que deveria ser preciso e seguido por todos.

 

De facto, toda a argumentação do criacionista era-me completamente familiar, decalcada à letra de sites dos nutcases norte-americanos envolvidos pela propagação da maleita pelo mundo. Nomeadamente a  atribuição de todos os males do mundo moderno a Darwin e ao evolucionismo, uma ideologia maléfica e não uma teoria científica, como clama o documentário Darwin's Deadly Legacy: The Chilling Impact of Darwin's Theory of Evolution, produzido pelo tele-evangelista do Coral Ridge Ministries, James Kennedy, em colaboração com apóstolos do Discovery Institute, nomeadamente Philip Johnson e Michael Behe. O documentário pretende mostrar que «a evolução é uma má ideia que devia ser descartada no caixote de lixo da História» porque Hitler era, supostamente, um evolucionista e a «crença» na evolução a causa última do Holocausto, um disparate ad nazium que já desmistifiquei aqui na jugular, ao mesmo tempo que desmistifiquei outro espantalho criacionista, o argumento ad stalinum a que, como seria de esperar, o teólogo luterano também recorreu. 

 

Na realidade, não há calamidade desde o século XIX que os criacionistas não adscrevam ao evolucionismo, com o mesmo à-vontade na distorção das evidências históricas (Hitler era na realidade um criacionista convicto) que exibem em relação às evidências científicas. Mas tenho a certeza de que muitos, como Artur Villares, de quem, tirando as ideias totalmente erradas sobre evolucionismo que foi beber à rede, fiquei com uma excelente impressão,  são vítimas do seu pensamento selectivo ou enviesamento de confirmação e, acima de tudo, são vítimas de um movimento que apenas ganha expressão nas redes sociais.

 

No artigo que referenciei, Björn Brembs pergunta-se onde estão os cintos de segurança, os airbags e os capacetes que protejam cidadãos como o Artur dos kooks e nutcases que se reproduzem na rede.  A resposta parece-me simples e continua igual à que Sagan preconizou em O Mundo Infestado de Demónios, já que o problema subjacente é igual: o abandono da razão crítica em favor do pensamento mágico e/ou selectivo. Mas a resposta urge num mundo cada vez mais contaminado pelo adormecimento da razão crítica, numa sociedade cada vez mais anti-intelectual, cada vez  mais, como o confirma o que se passa no nosso cantinho, «em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos»...

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