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jugular

O "meu" 11 de Março de 1975

O dia começou normalmente. Apanhei a camioneta do colégio à hora certa no local de sempre. Chegada ao colégio, lá me arrastei para as aulas a sonhar como “toque” do intervalo ( a campainha mais melodiosa que ouvi até hoje).

O colégio ficava no Campo Grande, paralelo à segunda circular, bem perto da celebre Churrasqueira e perto do Magriço, onde fugidas à vigilância e pela porta da lavandaria saíamos à socapa para namorar os rapazes do São João de Brito e do Manuel Bernardes (no meu caso, confesso, sempre mais interessada nas bolas de berlim e nos folhados de carne)
A proximidade do aeroporto tinha-nos habituado a não ouvir o constante vai vem dos aviões. As aulas decorreram durante anos entre partidas e chegadas e em momentos de tédio (que geralmente me assolavam nas aulas de matemática) eram uma distracção. Várias vezes dei por mim, na parvoeira dos meus catorze anos, a contar a aviões.
Mas naquele dia, por volta das onze da manhã a coisa complicou-se. O barulho dos motores era diferente. O tamanho dos aviões também. Pareciam mosquinhas em voos picados. A professora de português demonstrou a sua inquietação com olhares preocupados para as enormes janelas. Nós, de bata preta e cinto encarnado (o 25 de Abril tinha-nos dado a liberdade de prescindir da gola branca engomada) “rapámos” de um transístor com um fio para por no ouvido (auricular foi palavra que chegou mais tarde) e soubemos então que estava a “acontecer” alguma coisa.
A aula foi interrompida pela Madre Nobre, que nos informou: “parece que está a acontecer um “golpe”, dirijam-se à secretaria, telefonem aos vossos pais para vos virem buscar”. A confusão foi indescritível. Como “um bando de pardais à solta” escorregamos pelos corrimões em direcção ao átrio. A fila era indeterminável e os boatos ferviam: «São os comunas», «não não acho que são os nossos», «será que os comunas sabem pilotar aviões?», «era giro sermos presas», «deita fora os autocolantes do CDS senão ainda te dão um balázio», «deve ser obra do Barreirinhas», «estúpida não me passes à frente», «lá em casa detestam o bochechas». Enfim, um pandemónio.
Lá chegou a minha vez. Disquei o número. Nunca mais atendiam. Ao fim de uns segundos que me pareceram horas, a voz da minha mãe: «Tou»
Eu: «Mãe, a Madre diz para a mãe me vir buscar porque há um golpe de estado e temos de ir para casa». Silêncio. Mais silêncio e silêncio. Eu de novo: «Mãe, por favor». E finalmente: «Nem pense que vou atravessar a cidade com um golpe de estado para a ir buscar. Deixe-se ficar aí sossegadinha, aí não lhe acontece nada. Quando tudo acalmar eu vou busca-la». Eu de novo: «Mas mãe, por favor». E a frase que terminava logo qualquer diálogo: «Ana Beatriz!». Eu: « Sim mãe».
Saí do colégio nesse dia 11 de Março de 1975 à 19h.45m. Durante todo o santo dia não temi o golpe ou a revolução, os militares barbudos, os comunas, as massas populares em euforia revolucionária, os disparos das G3, os fascistas enraivecidos ou a revolução desenfreada que me chegava pelo transístor. O meu medo, o meu terror, o meu pânico….era dormir nas freiras!
 

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