Cripto-religião
Glauco Villas Boas era cartoonista da Folha de São Paulo e conhecido pelos seus personagens Geraldão, Casal Neuras, Doy Jorge e Dona Marta. Na sexta-feira passada, Glauco Villas-Boas e o seu filho Raoni foram barbaramente assassinados por um jovem que repetia que era «Jesus Cristo na Terra» e que queria que Glauco o confirmasse à mãe dele ( do jovem Carlos Eduardo).
Esta insistência teísta do jovem tresloucado explica-se porque Villas Boas era igualmente o fundador e líder da Igreja Céu de Maria, uma sucursal de uma religião amazónica, a igreja do santo daime, que, apesar do nome, apenas referencia uma bebida sacramental conhecida em outras paragens como ayahuasca. Foi na pele religiosa que Glauco conheceu o seu assassino quando Carlos Eduardo resolveu, ironicamente, tratar o seu problema de toxicodependência no santo daime.
E digo ironicamente porque o santo daime é uma bebida alucinogénica, obtida a partir de plantas, a liana Banisteriopsis caapi, rica em inibidores da monoamina oxidase (IMAO), e o arbusto Psychotria viridis, que contém o psicotrópico dimetiltriptamina. Nos Estados Unidos, quer o ayahuasca quer o peyote (mescalina) estão na lista das drogas proibidas mas são legais em cerimónias religiosas pelas boas graças do Religious Freedom Restoration Act (que, tanto quanto saiba, ainda não se estende, por exemplo, às Church of Universal Sacraments ou The Hawai`i Cannabis Ministry, que continuam a lutar pelo direito a ficarem mais próximo dos seus deuses através dos fumos de marijuana).
Por outras palavras, João, embora a First Things esteja incluída há muitos anos nos meus feeds, há um número igual de anos que raramente concordo com o que lá se escreve, quase sempre na linha do editorial de ontem, escrito pelo arcebispo de Denver, de que não recomendo a ninguém a leitura pela demagogia de mais um maluquinho que considera a sua religião acima de qualquer lei.
Ou seja ainda, enganas-te redondamente na parte que me toca. Assim como te enganas se pensares que escrevo sobre este caso para caricaturar e ridicularizar a religião. Apenas o escolhi, dentro das inúmeras notícias análogas que me enchem os feeds todos os dias, para ilustrar aquilo que me maça e que deveria ser evidente para quem leia os meus posts sem bias: o estatuto de excepção das religiões, como a legalização do santo daime ou do peyote apenas para fins religiosos exemplificam, isto é, a condescendência com que os maiores disparates são aceites se se carpir bem alto que a sua motivação é religiosa. E, claro, aquilo que é manifesto no relicário virtual que recomendas, ícone de quem se considera no direito de impor a todos as verdades absolutas de que é detentor, reveladas pela mesma reverberação divina que os incubiu da missão de «salvar» a humanidade mesmo contra vontade desta.

