Dia D indeed
Gosto da tua escolha de palavras, Rui, quando dizes que este será o Dia D para Obama. Mas faltou dizer quem importa derrotar para lá das praias da Normandia, quem são aqueles que fizeram a guerra para impedir que todos os americanos tenham acesso a cuidados de saúde ou que, mesmo aqueles com seguros de saúde, não sejam obrigados a interromper cuidados vitais quando atingem o tecto da respectiva apólice.
Claro que estes inimigos são muitos mas o João Galamba indicou-nos o Goebbels da história com aquela recomendação, palerma, da First Things, num dia em que a revista dava palco aos assanhamentos de mais um dignitário da ICAR contra esta proposta de lei. Aliás, basta dar uma espreitadela ao blog do cardeal Sean O'Malley - de Boston, for pit sake, esta gente não tem mesmo vergonha na cara - para ver o tom apocaliptico com que a conferência episcopal deste país, em perfeita consonância ecuménica com as restantes confissões cristãs, pintou esta lei.
De facto, fundamentalistas dos vários flavours do cristianismo esqueceram as suas divergências doutrinárias para se unirem contra Obama. Assim, em Novembro do ano passado foi assinada com pompa e circunstância a «Declaração de Manhatan, um apelo à consciência cristã» que insta à desobediência civil contra o Governo dos Estados Unidos, a menos que o governo ceda aos «valores» (??) cristãos dos signatários. A coisa, que exige um retorno às Idade Média «verdades fundamentais» do cristianismo, foi obra de um integrista da extrema direita, o católico Robert P. George. George é o proponente de um disparate anacrónico que dá pelo nome «New Natural Law Theory», que na prática pretende abolir a democracia e substitui-la por teocracias bíblicas.
Mas o que irrita nesta e em tantas outras histórias que metam religião ao barulho, é a hipocrisia daqueles que, como o arcebispo de Denver, ululam que «First, the Catholic bishops of the United States have pressed for real national health care reform in this country for more than half a century. They began long before either political party or the public media found it convenient. That commitment hasn’t changed.» Isto é completamente falso, como nos recorda o bispo Walker Nickless.
O prelado explica que «a Igreja Católica não ensina que os cuidados de saúde são um direito natural» nem que «o governo deve providenciar directamente cuidados de saúde». O papel do governo, para a Igreja, «é regular o sector privado» pelo que «é suspeita toda e qualquer legislação que interfira com a viabilidade do sector privado». O prelado preocupa-se em particular com interferências estatais nos «hospitais e casas de saúde religiosos» que, segundo ele, «devem ser protegidos, porque esses são os que mais vigorosamente oferecem cuidados de saúde para os mais pobres dos pobres».
É igualmente falso o vigor benemérito que as instituições de saúde religiosas supostamente têm em relação às demais. Na realidade, como este relatório (em formato pdf) indica, «os hospitais religiosos como um grupo estão muito aquém dos hospitais seculares na prestação de cuidados de saúde por caridade e no serviço a beneficiários Medicaid de baixos rendimentos».
Por outras palavras, o único compromisso da delegação americana da Igreja Católica é com o seu bolso já que a ICAR é o maior privado a actuar no sistema de saúde americano: detém cerca de 20% das camas e 18% dos hospitais. E claro, as suas preocupações resumem-se à manutenção do seu estatuto de excepção que lhe permite, para além de não pagar um cêntimo de impostos dos muitos biliões de dólares que aufere anualmente pelos serviços que vende, ficar à margem da lei e apenas sujeita às directivas episcopais, que, entre outras barbaridades, proibem o acesso a contracepção de emergência (ou sequer informação sobre a mesma) às vítimas de violação e proibem que os pacientes sejam informados de quaisquer formas de prevenção de doenças sexualmente transmíssiveis, a SIDA inclusive.

