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Murmúrios da opinião dominante

Na homilia de hoje, que deu início às hostilidades pascais, Bento XVI referiu-se ao escândalo da pedofilia que se abateu nos últimos tempos sobre a ICAR dizendo que a fé em Deus auxiliará os crentes a não se deixarem intimidar pelos «murmúrios da opinião dominante» ou, na versão em inglês, por «petty gossip», má língua mesquinha, dessa opinião dominante. Murmúrios ou maledicência mesquinha, esta foi mais uma tentativa papal para desvalorizar o que se tem sabido nas últimas semanas e para imunizar os crentes contra as críticas, apostando nos pilares de todos os totalitarismos.

 

Se o nosso espaço de comentários puder ser considerado espelho de algo, essas tentativas estão a ter sucesso pelo menos junto de alguns crentes que consideraram que os únicos maus nesta história são os que, como me acusaram, estão imbuidos «de uma promíscua mentalidade sobre o pecadilho», «apodrecidos pelo ódio» e mimos semelhantes quando dizem que já chega de impunidade, para os pedófilos e em particular para a instituição que os protegeu desde sempre. Ou seja, na linha da carta pastoral, supostamente um pedido de perdão, que Bento XVI escreveu aos católicos irlandeses, em que cita os longos séculos de perseguição à ICAR neste país e culpabiliza parcialmente a rápida «secularização da sociedade irlandesa» pela crise vivida pela igreja, também entre nós a martirização já começou: o tal escândalo não passa de uma gigantesca conspiração para lançar lama sobre a Igreja.

 

E por escândalo não estou a falar dos pedófilos, contrariamente ao que pensam alguns dos nossos leitores, o escândalo não é serem pedófilos, ou antes efebófilos, 5% do clero católico, como apontou o arcebispo Silvano Tomasi, o observador permanente do Vaticano na ONU, 4%, como reconheceu o prefeito da Congregação para o Clero, cardeal Cláudio Hummes, e indica o relatório Jay John ou que percentagem seja. O escândalo é o que Charles Scicluna, promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, chamou eufemisticamente «cultura de silêncio» quando confrontado com as «proporções dramáticas» que a pedofilia e o seu encobrimento pode atingir no país cuja polícia detém as vítimas de abusos sexuais clericais que se tentam manifestar no Vaticano. Mas os números e a «cultura de silêncio», isto é, a impunidade, não podem ser dissociados. Assim como não podem ser dissociadas a crise e a secularização da sociedade, como tão bem escreveu Bento XVI: sem secularização, com a subserviência às igrejas das sociedades que as teocracias implicam, a crise nunca teria acontecido simplesmente porque aí sim seria reduzida a murmúrios inconsequentes. Continuariam (impunes) os crimes e continuariam a ser chantageadas e coagidas a votos de silêncio as vítimas a que a crise deu voz.

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