Distopias de alabastro
A ficção científica é dos géneros literários mais denegridos, talvez menos depois do Nobel de Doris Lessing, a tal ponto que algumas das suas melhores e mais conhecidas obras raramente são assumidas como SciFi: estou a falar, por exemplo, de Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), Blade Runner (Philip K. Dick) ou The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). Todas estas obras são distopias, ou utopias falhadas, que exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. Ursula K. Le Guin, na sua fase de activismo político, escreveu alguns dos melhores exemplares do género, todos eles perturbadores porque todos eles metáforas de uma realidade que incomoda. Poderia citar The Dispossessed mas hoje, ao ler o Pharyngula, fez-se luz sobre o que me faziam lembrar as caixas de comentários a todos os posts que escrevi sobre as notícias que horrorizam todos aqueles cuja capacidade de empatia com o sofrimento alheio e cujo compasso moral não foram embrutecidos pela distopia que vivem: The Ones Who Walk Away from Omelas.
A história gira em torno de uma criança torturada numa sala escura, sacrificada pelo bem da Utopia. Em Omelas, ela está escondida dos olhares públicos, esquecida num cofre, deixada lá a sofrer. «Todos sabem que a criança está lá. Alguns entendem porquê, e outros não, mas todos entendem que a sua felicidade, a beleza de sua cidade, a ternura das suas amizades, a saúde dos seus filhos, a sabedoria dos seus estudiosos, a habilidade dos seus fabricantes, até mesmo a abundância das suas colheitas e os climas gentis dos seus céus, dependem inteiramente da miséria abominável dessa criança.» Como muitos católicos em relação aos crimes da sua Igreja, a maioria em Omelas aceita sem problemas essa miséria, defende-a mesmo, embora alguns rejeitem os termos do sacríficio em que assenta a sua felicidade. Esses são os que abandonam Omelas, aqueles que não aceitam viver uma vida construída sobre a dor de outrem.
Mas já é mais que tempo de a opinião dominante deixar de sussurar. Agora é tempo de abraçar a realidade e deixar distopias de alabastro, de dizer bem alto o que está guardado dentro do cofre, de exigir saber a verdade, de condenar os crimes dos que por demasiado tempo detiveram a autoridade apregoando que não passamos de pecadores que só serão salvos pelo sofrimento de outro.

