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A química da felicidade suprema - reload

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Tabacaria de Fernando Pessoa (ou antes, Álvaro Campos)

Numa ida ao baú, repesco este post,  especialmente adequado na Páscoa desde 1662, data em que, com o beneplácito do papa Alexandre VII, pelos bons auspícios do cardeal Francis Maria Brancaccio* que devotou um tratado a mostrar que [chocolate] Liquidum non frangit jejunun,  se confirmou que não havia problemas em beber chocolate durante os jejuns pascais.

 

Ciência e mitos fundem-se no néctar que, reza a lenda, dava alento e vigor a Montezuma, o último soberano asteca que o consumia em grandes quantidades antes das suas sortidas nocturnas a um bem fornecido harém. Para um asteca de posses, 9 sementes eram suficientes para lhe assegurar os serviços de uma dama da noite. Estes rumores auspiciosos alimentaram a mitologia amorosa do chocolatl, a bebida dos deuses até hoje, ou antes, a comida dos deuses, pelo menos no nome da planta que a fornece, Theobroma cacao como foi baptizada por Lineu.

Os antropólogos Sophie e Michael Coe consideram no seu delicioso livro «The True History of Chocolate» que a planta cacao foi domesticada muito antes de Montezuma, séculos antes do que anteriormente se pensava. Os antropólogos propõem terem sido os Olmecas os primeiros a apreciar as qualidades ambrosíacas da bebida que os Maias chamaram xocoatl, e da qual deixaram abundantes evidências químicas em chocolateiras de cerâmica milenares.

Foi Montezuma quem introduziu Fernando Cortez às delícias da sua bebida favorita. Segundo William Hickling na sua «History of the Conquest of Mexico» (1838), o conquistor escreveu ao rei Carlos I de Espanha sobre a bebida amarga, uma «bebida divina que aumenta a resistência e combate a fadiga. Uma chávena desta bebida preciosa permite que um homem ande durante um dia inteiro sem comida».

Embora haja muitas dúvidas a quem atribuir o mérito pela divulgação na Europa da bebida divina, é certo que em finais do século XVI pelo menos a nobreza e o clero ibéricos tinham acesso ao chocolate que temperavam com açúcar e especiarias sortidas. O primeiro de muitos livros dedicados ao chocolate foi escrito em 1631, o «Curioso tratado de la naturaleza y calidad del chocolate» de Antonio Colmenero de Ledesma, um médico andaluz que não esquece menção às virtudes afrodisíacas da bebida que afirmava ser saudável, tornar corpulentos, afáveis e mais belos os seus apreciadores e fertéis as mulheres que a bebessem.

Os médicos da época devotaram-se a fazer esquecer esta aura proibida com sabor a pecado - embora permanecessem divididos no que respeita ao temperamento do grão e não acertassem nos humores da bebida. De facto, o chocolate tinha toda a aprovação da classe médica que considerava a bebida quasi uma panaceia como se pode apreciar na «Physiologie du Gout» de Brillat-Savarin (1755 - 1826): «O chocolate quando preparado cuidadosamente, é uma forma de alimento saudável e agradável ... é muito adequado para pessoas que executam grande empenho mental, padres, advogados, e acima de tudo viajantes ... é apropriado para os estômagos mais delicados, provou ser benéfico nos casos de doenças crónicas e permanece como último recurso nas doenças do piloro».

Não obstante os louvores sobre as suas propriedades terapêuticas por parte das academias médicas europeias, as conotações astecas do chocolate, bebida consagrada à deusa do amor, Xochiquetzal, permaneceram indeléveis na sua passagem para outros mundos.

No reportório de sedução do latin lover por excelência, Casanova (ou no do marquês de Sade e da Madame du Barry, para os que consideram que sedução se conjuga em francês) o chocolate figurava tão proeminentemente que o libertino mais famoso da história se lhe referia como «a quintessência do amor».

Curiosamente, com toda esta conotação pecaminosa associada ao chocolate, foram famílias quaker na Inglaterra do século XIX que deram uma contribuição preciosa para a sua democratização e acessibilidade na forma de barras. Os Cadburys, Terrys, Rowntrees e Frys acreditavam que o chocolate poderia ser uma arma poderosa no «Temperance Movement», o movimento que pretendia moderação no consumo ou mesmo abstinência total de bebidas intoxicantes - e culminou na famosa Lei Seca nos Estados Unidos. Nas suas lojas forneciam chocolate (e café e chá) às classes trabalhadoras britânicas como alternativa ao álcool que consideravam culpado pelas condições miseráveis de vida em que estas viviam.

Mas será que há algo que justifique todo o imaginário que rodeia o chocolate? A resposta, afirmativa, encontra-se na (boa) química do chocolate. A semente de cacau contém mais de 400 compostos, alguns dos quais antioxidantes já nossos conhecidos, polifenóis como o ácido gálico e a epicatequina que combatem os radicais livres. Contém ainda compostos como o triptofano e a teobromina, um alcalóide da família das metilxantinas a que pertence também a cafeína, substâncias estimulantes e desencadeadoras de sensações de prazer.

No chocolate encontramos ainda feniletilamina, um químico que se concentra em pessoas apaixonadas e daí a sensação de felicidade que sentimos quando um pedaço de chocolate se derrete na boca - especialmente, para mim, um chocolate que regressa às origens maias e contém pimenta ou malaguetas. Mas a existência de chocólatras talvez seja justificada por uma série de compostos detectados no chocolate há apenas 12 anos, canabinóides muito semelhantes à anandamida e N-aciletanolamidas que inibem a degradação da anandamida.

A anandamida, que deve o nome ao termo sânscrito que significa prazer ou felicidade suprema, ananda, foi a primeira molécula a ser descoberta (em 1992 na Universidade de Jerusalém) que respondeu à pergunta que intrigava a comunidade científica desde a década de 80, altura em que foram descobertos os receptores canabinóides, CB1 e CB2, considerados os responsáveis por muitos efeitos bioquímicos e farmacológicos produzidos por canabinóides exógenos como os encontrados na marijuana ou haxixe.

Era quase inconcebível para a maioria dos neurologistas que o cérebro animal fosse gastar energia e recursos simplesmente para produzir um receptor para uma substância oriunda de uma planta. Tinha de existir uma molécula natural que se ligasse a estes receptores e, tal como tinha acontecido para os opióides, a descoberta de receptores biológicos para canabinóides exógenos lançou a busca de canabinóides endógenos. A anandamida foi o primeiro endocanabinóide encontrado (e o mais interessante até hoje) mas já se conhecem outros de que se destaca o glicerol araquidonil (2-AG).

A etanolamida do ácido araquidónico ou anandamida é também um agonista do receptor vanilóide VR1. (Os vanilóides são nocireceptores - receptores associados à dor). Dentre os vanilóides naturais exógenos mais conhecidos estão a capsaicina da pimenta, o seu análogo ultrapotente, a resiniferatoxina - isolada da planta Euphorbia resinifera - e a a piperina da pimenta do reino, moléculas muito interessantes de per se mas que no contexto do chocolate tornam ainda mais curiosa a escolha de especiarias com que temperavam a oferta dos deuses os antigos maias e astecas.

Fora do cérebro, a anandamida funciona como um mensageiro químico entre o embrião e o útero durante a implantação do embrião na parede uterina. Isto é, a anandamida é uma das nossas formas de comunicação mais primárias.

Estas descobertas químicas no chocolate confirmam as palavras prescientes de Geronimo Piperni que nos idos de 1796 se lhe referiu nos seguintes termos: «O chocolate é comida celestial, a transpiração das estrelas, a semente vital, néctar divino, bebida dos deuses, panaceia e medicamento universal».

Assim, o chocolate é uma substância estranhamente paradoxal, quimicamente associada ao prazer e à temperança, historicamente ligada ao luxo aristocrata e à democracia, disponível para todos mas no entanto peculiarmente exclusiva. Nesta época do ano em que o chocolate tem um papel tão proeminente, sigamos pois o conselho de Fernando Pessoa e deleitemo-nos com esta ambrósia para o corpo e elixir para a mente.

 

*Dillinger TL, Barriga P, Escarcega S, Jimenez M, Salazar Lowe D, Grivetti LE. Food of the gods: cure for humanity? A cultural history of the medicinal and ritual use of chocolate. J Nutr 2000; 130(Suppl):2057–72.

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