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jugular

Da total falta de vergonha na cara e da necessidade de um aggiornamentto

 

Na homilia de ontem, que tratou, entre outras coisas, das vocações sacerdotais e da renovação dos votos de celibato, Bento XVI afirmou que os cristãos deveriam ser pessoas que lutam e se insurgem contra injustiças. Para além disso, afirmou que «Hoje, é importante que os cristãos se submetam à lei, que é a fundação da Justiça». Um observador mais incauto pensaria que, aproveitando esta época de renovação e renascimento, o Papa se iria em seguida referir ao encobrimento pela hierarquia da Igreja dos crimes de pedofila cometidos por membros da ICAR e exigir que todos os implicados respondam pelos seus crimes. Ou, pelo menos, insurgir-se, ao vivo e a cores, contra as injustiças que durante décadas a sua igreja cometeu contra os muitos milhares de vítimas de abusos sexuais por vocações sacerdotais nada fiéis aos seus votos e apelar à luta pela reparação dessas injustiças.

 

Mas não, com a hipocrisia moralista a que Anselmo Borges aludiu, em vez de um apelo à submissão à Justiça de quem esteve até agora fora dela, ouvimos outro apelo à injustiça. Ou seja, o mesmo Papa que tanto apelou ao amor cristão para esquecer e perdoar os crimes reais cometidos contra crianças de todo o mundo, que tanta compaixão teve pelo padre que abusou de 200 crianças surdas-mudas, apela a esse mesmo amor cristão para a meritória luta de mandar para a prisão quem cometa pecados considerados graves pelas «verdades eternas» da ICAR. Em causa, como não poderia deixar de ser, está mais um braço de ferro com o Estado, neste caso o italiano, normalmente muito complacente com as exigências vaticânicas, que aprovou em Dezembro a legalização da venda das pílulas RU-486 cuja distribuição começou ontem.

 

Estas reacções imbecis da hierarquia da Igreja, que parece não perceber que a sua autoridade «moral» está seriamente abalada, estão a levar à debandada dos crentes, desiludidos com a sua Igreja embora muitos deles não com a religião. O problema é para onde vão esses muitos crentes desiludidos e isso explica que, como refere o Times de hoje, «Mesmo entre os ateus mais famosos do mundo, a crise de fé entre os cristãos [católicos] na Europa, foi recebida com preocupação».

 

Este artigo deveria ser lido pelos inflamados que por norma nos invadem as caixas de comentários sempre que se critica a ICAR, para ver se percebem de uma vez por todas que o que está em causa nesta história, do encobrimento dos crimes de pedofilia volto a dizer, é a impunidade de que goza a Igreja. A maioria dos ateus, - como está subjacente ao artigo de Ferreira Fernandes «Abriu a caça aos padres», não está a atacar a Igreja mas sim o seu estatuto fora da lei - e a mostrar o que deveria ser óbvio: a hipocrisia moralista de quem se acha qualificado para determinar como vivem todos os outros ditando as leis dos países em que o catolicismo tem poder político. Em particular, porque traduz o que sinto, reproduzo a reacção de Richard Dawkins:

 

«Não há cristãos, tanto quanto sei, explodindo edifícios. Não tenho conhecimento de quaisquer suicidas cristãos. Não tenho conhecimento de qualquer denominação cristã importante que acredite que a pena para a apostasia é a morte. Tenho sentimentos mistos sobre o declínio do cristianismo, na medida em que o cristianismo pode ser um baluarte contra algo pior».

 

E esse algo pior pode ser, por exemplo, o aumento de importância das denominações cristãs terroristas, que acreditam que a apostasia deve ser castigada com pena de morte ou que os «abortistas» devem ser assassinados. Ou da cientologia. Ou, como tão bem sabe o autor da série do Channel 4 intitulada «Escravos da superstição: os Inimigos da Razão», das patetadas New Age de que trata o documentário:

«Há duas formas de olhar o mundo - através da fé e superstição ou através do rigor da lógica, observação e evidência, por outras palavras, através da razão. A razão e o respeito pelas evidências são preciosas, a fonte do progresso humano e a nossa salvaguarda contra fundamentalistas e aqueles que lucram pela deturpação da verdade.
No entanto, hoje, a sociedade parece em fuga da razão. Sistemas de crenças aparentemente inócuos mas completamente irracionais, da astrologia ao misticismo New Age, da clarividência às medicinas alternativas, estão em franca expansão.
Richard Dawkins confronta o que vê como uma epidemia de pensamento irracional e supersticioso».

 

Ou seja, falhada a coisa que deveria ter sido o concílio Vaticano II, diria que é mais que nunca necessário um aggiornamentto consequente, em particular que consolide a laicidade - o escândalo da pedofilia mostra bem que a ICAR tem de aceitar finalmente que se deve submeter ao Direito dos Estados e não ulular que esse Direito deve estar subjugado aos seus ditames.

8 comentários

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    Miguel Marujo 02.04.2010

    três breves notas:
    a imunidade dos chefes de Estado não é um exclusivo de Bento XVI; tente-se pronunciar Cavaco Silva ou Sarkozy...
    os movimentos Nós Somos Igreja e Catholics for Choice, por muito importantes que sejam, não detêm uma verdade única sobre a importância e o suposto falhanço do Vaticano II;
    o regresso de missas em latim tem uma expressão ínfima nas comunidades locais em todo o mundo (e o latim sempre foi usado como expressão comum entre comunidades de diferentes países - nomeadamente, em cânticos em latim, na comunidade ecuménica de Taizé).
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    Palmira F. Silva 02.04.2010

    Meu caro Miguel:

    Não percebo, estás defender a impunidade de Bento XVI, desta forma pueril, compararando com França ou Portugal com os 44 hectares da cidade-estado do Vaticano, criada por Mussolini em 1929 para garantir o apoio da Igreja ao seu projecto fascista? Ou dizendo que Bento XVI mais não é que outro Sarkozy ou outro Cavaco?

    E, okay, se não percebes o simbolismo da recuperação da Ordo Missae, tudo bem, mas sinceramente não esperava isso de ti. Assim como não esperava a minimização da importância dos movimentos que cito, a que acrescento a teologia da libertação...
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    Miguel Marujo 02.04.2010

    Palmira, não minimizei os movimentos em causa. Não acho é que sejam os únicos a ter uma avaliação correcta sobre o Vaticano II. Como católico também me dou o direito de avaliar esse concílio - e a muitos outros fiéis e movimentos igualmente relevantes (e conheço uns quantos) que já analisaram e debatem esse encontro de reflexão e encontros de três anos e muitos documentos produzidos. (A Joana pode conhecê-los...)
    Não estou a defender a impunidade, estou a contextualizar a frase que citas - "as a head of state". E passo por cima da descrição do "bairro" como alguns gostam de falar de um (reconhecido pela ONU) país, que não foi inventado por Mussolini.
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    Palmira F. Silva 02.04.2010

    Sobre o que é estritamente católico, deixo-te a falar com a Joana, sobre a parte que me interessa, a laicidade ou a “autonomia das realidades terrestres” de que falava o concílio Vaticano II, falhou redondamente.

    em relação á impunidade de bento XVI, não percebo se não a defendes porque razão invocas o seu estatuto de Estado, criado de facto por Mussolini, para resolver a questão romana e acabar com o partido católico, através do tratado de latrão, na realidade 3 documentos:

    em três documentos:

    1. Um tratado político estabelecendo o estado da Cidade do Vaticano;
    2. Uma concordata regulando a posição da Igreja Católica e o estatuto da religião católica no Estado italiano (e só em 1978 o catolicismo deixou de ser religião de Estado em Itália).
    3. Uma compensação financeira pela emancipação dos Estados Pontificios que a Igreja reinvidicava serem seus.

    Por outro lado, é um facto que o Vaticano só tem 44 hectares, não percebo pq ficaste tão maçado por eu o recordar ainda por cima, ironicamente, citando ser reconhecido pela ONU. E digo ironicamente proque os Católicos pela escolha há muito que reinvidicam que o Vaticano deixe de ser reconhecido pela ONU... e, principalmente, de lá ter assento.
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    Miguel Marujo 02.04.2010

    a mim, só me interessa mesmo a “autonomia das realidades terrestres”... e insisto: não falhou redondamente. É uma afirmação tão definitiva, que esbarra na realidade de uma Sollicitudo Rei Socialis , por exemplo (e não é uma coisa "estritamente católica);

    e do Vaticano, insisto, não é uma criação mussoliana. Não me maça nada, nem ironizei com a ONU. Só se for ironia como a tua no modo como habitualmente te referes aos 44 hectares, como que a menosprezar/desprezar qualquer estatuto do Estado... (e lá está, não tenho que concordar com tudo o que os Catholics for choice defendem).
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    Palmira F. Silva 02.04.2010

    aaahhh, então este apelo à desobediência civil e á luta contra leis que despenalizam os pecados, não é, na tua opinião, uma ingerência indevida na “autonomia das realidades terrestres”. ou, sei lá, as ululações contra as resoluções da ONU pedindo a descriminalização de outro «pecado», a homossexualidade.

    penso que esta tenha sido a primeira vez que referi os 44 ha do vaticano porque me maça um bocadinho que se invoque o estatuto artificial criado em 1929 por Mussolini para justificar a impunidade de Bento XVI.

    E não pecebo porque dizes que o Vaticano, o Estado, não é uma criação de Mussolini. recordo a história que levou à sua criação

    No início dos anos 20, o Partido Popular estava prestes a formar uma coligação com o partido reformador que poderia ter estabilizado a política italiana e frustrado a tomada de poder por Mussolini. Mas nessa altura Bento XV morreu e foi eleito Pio XI, o Cardeal Ratti que tinha seguido atentamente o percurso do Partido Fascista.

    A 2 de Outubro de 1922, o Papa Pio XI fez circular uma carta ordenando ao clero para que deixasse claro que não se identificava com o Partido Popular, o que na prática cortou qualquer oposição a Mussolini. No seguimento da ascensão de Mussolini ao poder, nesse mesmo ano, o secretário de estado do Vaticano, o cardeal Gasparri, encontrou-se em segredo com Il Duce no início de 1923, encontros em que discutiram o partido católico, que Mussolini via como um obstáculo ao domínio fascista.

    Em 1924, no seguimento do assassinato do líder do Partido Socialista por fascistas, o Partido Popular juntou-se ao partido socialista na exigência de que o rei demitisse Mussolini como primeiro-ministro, e afirmou o desejo de formar um governo de coligação. Pretensão cortada cerce por Pio XI que não demorou em avisar os católicos que tal era estritamente proíbido pela lei «moral», já que era um pecado a colaboração com o mal e o socialismo era um mal maior. O Vaticano ordenou a todos os padres para abandonarem o Partido Popular. Esta posição da Igreja levou à desintegração do partido, de implantação principalmente nas áreas rurais onde o partido assentava nas estruturas eclesiásticas.

    Na sua primeira encíclica, um manifesto político datado de Dezembro de 1923, «Ubi arcano Dei consilio» (Onde está o plano oculto de Deus), Pio XI, que considerava que o catolicismo devia permear todas as actividades humanas, apresentou a Acção Católica quasi como panaceia universal para os males do mundo, proeminentes entre eles o «modernismo moral, legal e social» que não reconhece nem «a posição na sociedade que Ele em pessoa atribuiu à sua Igreja», a única instituição que «pode conceber leis internacionais em harmonia com o mundo» tal «como na Idade Média», nem que «A própria origem e natureza divina da soberania da Igreja exige» que a Igreja jamais «seja sujeita a alguma autoridade ou lei, qualquer que esta seja, mesmo que essa lei seja uma que proclama certas garantias para a liberdade do pontífice romano».

    Mussolini encarregou-se de eliminar de Itália esse modernismo quando em 1926 declarou ilegal e dissolveu o então irrelevante partido católico abrindo caminho à sua ambição: impor em Itália, com o apoio explícito do Vaticano, a primeira ditadura fascista.

    Também em Outubro de 1926 Pio XI e Mussolini deram início às negociações que culminaram com a assinatura do tratado de Latrão em 11 de Fevereiro de 1929, que cumpria integralmente as exigências, políticas e não só, de Pio XI, expressas no «plano oculto de Deus». Assim, foi criado o estado soberano do Vaticano como o catolicismo foi declarado a religião oficial do país, o ensino religioso passou a ser obrigatório nas escolas italianas e foi proibida a admissão em cargos públicos dos sacerdotes que abandonassem a batina.

    Em 31 de Outubro de 1926, o legado pontifical Cardeal Merry del Val, declarou publicamente:

    «Os meus agradecimentos vão para ele (Mussolini) que segura nas mãos o governo de Itália, que, com uma visão clara da realidade, desejou e deseja que a religião seja respeitada, honrada e praticada. Visivelmente protegido por Deus ele melhorou visivelmente a sorte da nação, aumentando o seu prestígio no mundo».
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