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jugular

Que canseira!

 

 

Ana, a propósito das afirmações recentes do 2º na hierarquia do Vaticano sobre a «relação entre homossexualidade e pedofilia», pedias informação sobre o que se passa em relação ao abuso sexual de crianças do sexo feminino por membros ordenados da ICAR. Não são crianças mas começam a ser ouvidas os primeiras ondas do que há muito se sabe, o abuso generalizado de jovens mulheres, freiras, em África e na Índia. Como refere a autora de um artigo na Salon que recomendo, o furacão que inspirou o teu pedido, os escândalos sexuais da Igreja no primeiro mundo, empalidece face ao tsunami de abuso sexual de mulheres por padres no Terceiro Mundo, abordado pelo padre Donald Cozzens, no capítulo IV do livro que ilustra o post, em particular a partir da página 59.

 

Em 2001, o jornalista John Allen escreveu um artigo para o National Catholic Reporter em que dava conta do problema, nomeadamente referia o relatório de 1998 da irmã Marie McDonald das Missionárias de Nossa Senhora em África, «The Problem of the Sexual Abuse of African Religious in Africa and Rome», que explicava não só que o abuso de freiras por padres e outros religiosos era um problema generalizado como qual era a forma como a hierarquia da Igreja lidava com as consequências desse abuso: quando uma freira engravidava, excepto nos casos em que era aconselhada a abortar, era expulsa da congregação. O abusador era transferido ou enviado para estudos alhures.

 

A irmã McDonald explicava o que estava na origem do abuso: a posição de inferioridade das mulheres na Igreja conjugada com a sua posição nas sociedades africanas em que as mulheres são educadas a serem subservientes aos seus superiores e a obedecerem-lhes sem dúvidas nem interrogações. Na minha opinião, esta é a razão, não o celibato, subjacente ao abuso sexual no seio da ICAR e das restantes confissões religiosas: o poder que o pastor mantém sobre o seu rebanho e a impunidade que a sociedade e muitos Estados lhe conferem. Os membros mais vulneráveis e mais próximos do abusador são as vítimas; nas sociedades ocidentais emancipadas, são sobretudo crianças, em particular do sexo masculino porque são estas as que mantêm contacto mais frequente com os padres; no Terceiro Mundo são freiras pelas mesmas razões. E por isso, insisto que é necessário que a Igreja ( ou antes, a sua hierarquia, claro) não tenha um tratamento diferente do comum dos cidadãos e responda pelos seus crimes para perceber, de uma vez por todas, que não está acima da lei. E que não pode, como o fazem demasiados dos seus membros*, continuar a afirmar ser necessário «colocar a lei de Deus acima de qualquer lei humana».

 

*Em 2006, quando estavam na ordem do dia os muitos crimes de encobrimento de abuso sexual de menores pela hierarquia da ICAR norte-americana, o cavaleiro da pérola redonda, J.C. das Neves, afirmava que não se devia censurar a Igreja porque o «o maior mal-entendido da História» é não perceber que a Igreja é «o único abrigo dos maus», algo de que nunca tive quaisquer dúvidas. Mesmo depois deste mea culpa, JC das Neves persistiu em apresentar essa mesma Igreja como depositória da verdade absoluta, como guardiã intransigente da moral e bons costumes e acima das leis dos homens.

 

O nosso espaço de debate está cheio de católicos em sintomia com a sua hierarquia que, como ela, insistem que nada se passa a não ser o ódio ateu em relação à sua Igreja, parecendo que consideram óbvio que os crimes cometidos pela Igreja só pela Igreja podem ser julgados e devem ser perdoados enquanto, por exemplo no caso do aborto, considerado um «crime» pior que a pedofilia, exigem que se mande para a cadeia as mulheres que decidam por interromper uma gravidez, mesmo no caso de aborto terapêutico em que a vida da mulher (ou criança) corre risco?

 

Para além de tudo, espanta-me que não considerem relativismo moral afirmar que mesmo os mais «horríveis pecadores» serão perdoados e conduzidos «à glória, logo que se convertam»? Por que razão um criminoso, se for crente, deve ser perdoado até dos mais horríveis crimes e um não crente, mesmo se virtuoso, deve ser castigado por toda a eternidade? Que comportamento ético preconiza quem acredita piamente em coisas destas?

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