Liberdade
A liberdade odeia verdades oficiais e sempre foi iconoclasta. O pior que podia acontecer ao 25 de Abril seria a canonização e a cristalização do seu significado. E o pior que podia acontecer à esquerda - por ser contrário aos ideias que esta diz representar - seria o de se acontonar à ideia de que existe uma interpretação oficial e autêntica que só ela está autorizada a revelar. A liberdade não poupa nada, nem ninguém - nem o 25 de Abril. Aguiar-Branco percebeu isto e apropriou-se dos símbolos que a esquerda considera seus - a liberdade, a luta contra o poder, a soberania popular, etc - para defender as ideias do PSD. Independentemente de concordarmos com o que disse Aguiar-Branco - eu, obviamente, não concordo - o seu discurso de ontem foi brilhante, por ter sido iconoclasta e, sobretudo, por ter ousado dessacralizar um dogma, recusando a solenidade pia e ritualista que tende a acompanhar este tipo de celebrações. Ele não discursou contra nada; limitou-se a levar a ideia de liberdade que o 25 de Abril tornou possível contra aqueles que se consideram seus intérpretes oficiais. Aqueles que se sentiram incomodados com a ironia e os 'pecados' de Aguiar-Branco comportam-se como defensores da ortodoxia e estão a replicar o comportamento que censuram em organizações como a Igreja Católica O Serviço-Nacional de Saúde e a escola pública não são sagrados, nem devem ser defendidos porque é isso que está escrito na Constituição. Eu defendo-os, não porque o Livro, isto é, a Constituição, assim o determina, mas porque acredito que são a melhor forma de realizar a liberdade em Portugal. Mas isso é outra história, e não belisca o excelente serviço que Aguiar-Branco prestou à liberdade. Tiro-lhe o chapéu.

