Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Da estupidez, nas suas várias modalidades

"Uma década após a criação da moeda única, os pilares do edifício parecem estar todoss a ruir: o compromisso com o limite de 3% da despesa desfez-se em 2003 e. agora, na sequência da crise grega, os países da zona euro lançam um pacote de ajuda à Grécia e criam um fundo de estabilização, ao mesmo tempo que o BCE começa a comprar dívida grega, sob o argumento de que o respectivo mercado se tornou disfuncional. A bondade das opções ora tomadas não está aqui em causa. Mas, claramente estes desenvolvimentos levantam duas questões. Por um lado, temos o velho debate entre regras e discricionaridade. Comparando com os EUA, a Europa tem uma grande preferência pelas regras. Em princípio a maior discricionaridade nos EUA torna os respectivos cidadãos mais expostos à qualidade do seu pessoal dirigente. Mas pior do que não ter regras é ter regras que não são cumpridas: os EUA, ao não assumirem compromissos, não perdem credibilidade; a Europa, depois de construir uma série de regras que não cumpriu vai ter grande dificuldade em credibilizar a sua estratégia futura (...) A cereja em cima do bolo é o sacrossanto banco central comoeçar a comprar dívida de um país prevaricador, enveredando por um discurso confuso e hipotecando o seu compromisso com a estabilidade de preços. Claramente, esta experiência abre o flanco a estratégias populistas"

 

Miguel Lebre de Freitas, 'Jámé'

 

Ao contrário do que afirma Lebre de Freitas, é óbvio que as suas palavras põem em causa 'a bondade das opções ora tomadas'. Caso contrário, o artigo deixa de fazer qualquer sentido. Se a experiência descrita por Lebre de Freitas abre o flanco 'a estratégias populistas', a alternativa - aquela que Lebre de Freitas aparenta estar defender - constitui 'uma estratégia fetichista divorciada de qualquer concepção de racionalidade.

 

Primeiro, o artigo supra-citado omite um dado fundamental: excluindo o caso da Grécia (que, é preciso não esquecer, aldrabou sistematicamente as suas contas) a crise da dívida soberana que estamos a viver não surgiu porque, subita e inexplicavelmente, os estados tivessem sido despesistas e irresponsáveis;  ela é um momento da crise que começou em 2007, que se agravou em 2008 e que foi activamente combativa pelos Estados em 2009.

Aqueles, como Lebre de Freitas, que lamentam que a Europa tenha flexibilizado as regras que esta própria instituiu, deviam ser coerentes e dizer que os Estados, em 2008, nunca deveriam ter salvo o sector financeiro e, em 2009, deviam ter-se abstido de tentar animar a economia, não se substituindo a um sector privado em forte retracção. Ou seja, a posição que Lebre de Freitas representa pressupõe que, desde 2008, os Estados deviam ter adoptado medidas pró-cíclicas, em tudo semelhantes às que muitos dizem ter transformado a crise de 1929 na Grande Depressão. Não sei se Lebre de Freitas tem defendido esta posição, mas é a única posição coerente com o seu texto.

 

Segundo, a dicotomia regras vs. arbritariedade não é verdadeira, pois a alternativa a um fetichismo e a um rigorismo legal, cego e inflexível, não é o caos nem reino da arbritariedade; é o reino do juízo prático, da política, que exige adaptabilidade a circunstâncias em permanente mutação e que age de acordo com necessidades concretas. Aqueles que, independentemente do contexto em que vivemos, defendem o rigorismo legal que está consagrado na arquitectura da união monetária sacralizam uma regra que contém um juízo implícito: a disciplina financeira dos Estados é condição necessária para a saúde e o crescimento da economia. Não é hoje; é sempre e necessariamente - por definição. Se querem manter-se fiéis a este dogmatismo teórico, então têm de ser coerentes: os Estados não podem ajustar a sua política económica às necessidades do ciclo, isto é, só a auto-regulação dos mercados pode garantir um mecanismo eficaz de combate à crise. Será isto faz sentido? Bem, a experiência histórica (e, já agora, o senso-comum) parece apontar para a irracionalidade deste juízo. Daí muitos dizerem que o PEC e toda a arquitectura institucional que preside (presidia) ao Euro, interpretado como lei que impossibilita que os Estados ajam de forma contra-cíclica, é estúpido. E é estúpido porque é cego.

 

Ao contrário do que Lebre de Freitas parece defender, o problema não e a perda de credibilidade da Europa associada à violação de regras; o problema é que o rigorismo legal que a Europa impôs a si mesma nunca foi, porque não poderia ser, credível. O erro é anterior à flexibilidade dos últimos tempos e reside na arquitectura institucional que o Euro tentou 'constitucionalizar' e que 'países indisciplinados', como os EUA, o Reino Unido e alguns países europeus, sabiamente, se recusam em adoptar. Em 2008 e 2009, embora longe de ser perfeita, a estratégia coordenada (sim, não foi apenas Sócrates que 'negou a realidade', foi a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, o FMI, a OCDE, etc.) de abandonar temporariamente a disciplina orçamental para acudir a uma economia em colapso evitou a repetição da Grande Depressão.

 

Dito isto, surge outro problema - muito mais grave do que tudo aquilo que Lebre de Freitas possa pensar, escrever e dizer. É que a UE parece, em 2010, disposta a dar razão a Lebre de Freitas, pois prepara-se para pôr em prática uma monumental estratégia recessiva colectiva, que frustra os seus objectivos declarados e anula e inverte tudo o que foi feito desde 2008. Como é possível todos quererem poupar ao mesmo tempo? Não é. Que sentido faz, como escreveu Paul de Grauwe, matar o bombeiro que está a tentar apagar o fogo? Não faz qualquer sentido. Ao contrário do que alguns comentadores portugueses têm dito, não é a Europa que está a dar um correctivo e a desautorizar Portugal. Incompreensivelmente, a Europa está a desautorizar-se a si mesma, pois foi esta mesma Europa que decidiu pôr em prática um conjunto de políticas que agora parece considerar 'irresponsáveis', preparando-se para adoptar, sem que a situação económica o justifique, as mesmas políticas que em 2008 considerou erradas. Confuso? Pior. Se a posição de Lebre de Freitas me parece errada, o caminho escolhido pelos países do euro é ainda mais incompreensível porque manifestamente contraditório. Não há como não dar razão a Thomas Palley:

 

"policy continues to respond with too little, too late, and then goes on to compound the damage with inappropriately timed austerity and doubling-down on policies of wage suppression that have already wrought such havoc. The root problem is the dominance of flawed neo-liberal economic thinking. This problem is particularly acute in the ECB and European finance ministries which are dominated by economists trained in Chicago School neo-liberal macroeconomics. Ironically, social democratic Europe has been much more virulently infected by this strain of thinking than the US where politicians’ pragmatism has moderated economists’ extremism. The Great Recession may have lowered economists’ public standing but it has not yet changed their thinking or swept away the top policy appointees who have failed so disastrously. When it comes to economics, Max Planck was too optimistic about scientific progress."

 

7 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • f.

    olá. pode usar o endereço fernandacanciodn@gmail.c...

  • Anónimo

    Cara Fernanda Câncio, boa tarde.Poderia ter a gent...

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media