Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

ao espelho

(carla, é este o texto)

Fotografias antigas. Há ensaios, poemas, romances construídos sobre elas. As nossas, as dos outros, vivos e mortos – é sempre de mortos que se trata, como escreveu Roland Barthes (ou não foi isso que ele escreveu em Câmara Clara, e fui eu que achei que era isso que ele tinha escrito?). Momentos irrepetíveis, rostos e gestos irrepetíveis. A água do rio assim petrificada para que nela tenhamos a ilusão de nos banharmos (vermos) de novo, outra e outra vez.

Qualquer coisa de terrível nisso, porém.


Como nos filmes de terror em que o espelho é uma superfície de súbito líquida na qual poderemos mergulhar sem saber o que está do outro lado, as fotografias antigas – e todas as fotografias são por definição antigas – operam uma travessia arriscada, irremediável. Nunca mais seremos aquela criança que ri abraçada ao seu cão favorito, o Serra de Aires de pêlo café com leite e olhos dourados materializado das histórias de Enid Blyton. Nunca mais teremos aquele olhar claro e sem dúvidas dos 17 anos, a pele densa e sem mácula, a energia densa e sem derrota, tudo ainda possível, tudo ainda ao dispor.

 

E os nossos pais quase adolescentes no dia do casamento, os nossos avós quase da nossa idade numa viagem qualquer, semelhanças agora descobertas num sorriso, na pose, nas mãos, como se só certificássemos agora, nestas imagens imprecisas, a evidência do DNA, o secreto e inabalável croché dos genes. Terei aos oitenta anos o rosto da minha avó? São as imagens do passado uma visão do meu futuro, a teoria do tempo como espiral provada assim num snapshot da Kodak?

Descobrir alguém que amamos em fotografias de um tempo em que ainda não existíamos – o tempo em que ainda não sabíamos que existia. Encontrar numa gaveta a prova de que houve um antes de nós: em quem pensavas, que livro lias, para quem olhas cúmplice nesta aqui, para onde vais neste avião, com que sonhas na outra, enquanto dormes na praia? Quem tirou estas fotos, para quem sorrias? A quem entregavas a confiança deste rosto impossivelmente liso, impossivelmente outro? Comover-se-ia como hoje me comovo ao interceptar a evidência de uma beleza tão sem esforço, ao justapô-la ao trabalho do tempo como se doravante me condenasse a uma arqueologia silenciosa, a de descobrir onde está, o que mudou, como mudou, por que mudou, se poderia ter mudado de outro modo? Amar-te-ia mais se te tivesse conhecido então, ou menos, ou nada? Estava o amor previsto para o momento de um rosto ou sucederia em qualquer caso?

Em tempos – teria 20 anos - pensei dedicar-me a essa interrogação num trabalho quotidiano. Todos os dias tiraria uma foto da minha cara, à procura do que muda, da escultura do tempo. Depois alinhá-las-ia numa instalação circular, por cada ano – o primeiro dia ao lado do último, para aferir o percurso dos 365. Desisti por preguiça, mas também por medo. O medo de ver claramente visto esse desenho, o caminho desse lápis terrível que carrega de sombras e incerteza o que era luz e determinação. Depois descobri que outras pessoas tinham tido a mesma ideia. O fotógrafo que regista o rosto da mulher ao longo de 10 anos sempre no mesmo dia, o artista que se filma em círculo um dia em cada ano e monta o resultado num filme de poucos minutos. Os que fazem todo o seu trabalho sobre o tempo no corpo. Os programas de computador que em segundos nos dizem o devir de um rosto. Assiste-se a isso como a um hipnotismo em que a pergunta – porquê – nunca terá resposta. Não há justificação para tamanha injustiça, ninguém ou nada para culpar ou pedir explicações, nenhuma recompensa. A não ser esta: um homem faz a barba todas as manhãs e um dia descobre no reflexo o rosto do seu pai. Isso, diz ele, reconforta-o em vez de o assustar. Talvez seja isso, então, que está do outro lado do espelho, do outro lado do tempo: uma espécie de reconciliação. Ou de resignação.

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 19 de outubro)

1 comentário

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media