Ainda Saramago
Em finais de 2009, Saramago lançou mais uma polémica acesa, ou antes, outro livro blasfemo. Há pouco mais de 6 meses, muitos que agora tecem rasgadas elegias ao único escritor em língua portuguesa nobelizado, desdobravam-se em ataques viperinos sortidos ao autor de Caim (e friso o autor e não a obra, passível, como todas as obras, de todas as críticas). Os argumentos contra Saramago foram na mesma ordem, quiçá mais virulentos ainda, que os reproduzidos neste vídeo, em que se vê Sousa Lara num debate na Assembleia da República em Abril de 1992. O subsecretário de Estado de Cavaco Silva explicou que cortou o romance de José Saramago Evangelho segundo Jesus Cristo da lista dos concorrentes ao Prémio Literário Europeu, porque o autor não representava Portugal já que «atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os».
Sempre achei curioso este fenómeno que se manifesta na alteração drástica da apreciação de alguém (importante) depois desse alguém morrer. Uma vítima da coisa é Cavaco Silva, que apoiou em 1992 a decisão do seu subsecretário de Estado e que agora declara Saramago «uma referência da cultura portuguesa» «cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras».
No último post no seu blog oficial, Saramago diz-nos que «Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma». Em compensação, se ideias são falhas e pensar arredado dos neurónios, continua a não faltar, coerentemente, o excesso de presunção e água benta de que estas declarações são exemplo ...

