Sê homem, para eu poder ser verme

O que não deixa de ser irónico nisto dos vermes de cada tempo é que eles contam com a dignidade dos outros para promoverem a mostra pública da nescidade que exibem. O pleno vérmico das coisas (obra colectiva de zeros somados) parte do princípio que os outros não rastejarão ao nível deles. Nem nunca o farão. Eu tenho aqui umas cartas que me mandaste, que embrulho, corto e recorto como quero, sabendo de antemão que o facto de seres homem e teres coluna (coisa de que há muito me expurgaram, aquando da lobotomia) não te permitirá fazeres o que faço. Na essência, é este o raciocínio. O passado público de meia-dúzia de meses apagou-se onde se pôde, como se nada tivesse sido. No mais, e para a contenda aparentar sucesso, é necessário que não desçam ao meu nível. O vermicida, esse, está à mão de semear, mas recorrer a ele far-vos-ia meus vizinhos de sarjeta. Conto convosco, pois.

