Ainda sobre a dissecação
O espaço de comentários ao post sobre o código oculto de Michelangelo deu origem a uma discussão interessante, continuada no eclipse do átomo. Nomeadamente, um dos nossos leitores referiu as práticas de dissecação no antigo Egipto, certamente as práticas médicas de que há registo histórico mais antigo. De facto, existem poucos testemunhos das práticas médicas do Neolítico, embora a análise de crânios indique que já nessa altura se praticava a trepanação (perfuração do crânio), isto é, que existia uma cirurgia incipiente.
O Antigo Egipto é sem dúvida a nossa fonte mais profícua de informação sobre a evolução da Medicina. Existem vários papiros médicos que indicam a existência de uma medicina «mística» em que intervinham deuses sortidos, nomeadamente Anubis, Sekhmet, Isis, Selket, Thoth e Hórus. Os médicos mais reputados eram sacerdotes, as escolas médicas funcionavam nos templos e existiam «especialistas» de acordo com o deus que os médicos serviam. A divindade médica mais importante era Imhotep (2700 aC-2625 aC), o divinizado arquitecto que construiu a primeira pirâmide conhecida, a pirâmide de degraus de Saqqara dedicada ao faraó Neterierkhet-Djeser.
Nestes papiros é possível confirmar que, como em muitas outras mitologias, algumas delas que persistem até hoje, os antigos egípcios consideravam que a doença era resultado de punição divina ou de acção maléfica dos mortos. Os papiros prescreviam tratamentos empíricos para doenças com causa identificável e rezas ou tratamentos mágicos nos casos em que era impossível o diagnóstico.
O papiro ginecológico de Kahun (que trata também de matemática e veterinária), escrito há quase 4 000 anos, por exemplo, descreve a primeira poção contraceptiva de que há registo histórico, feita à base de excrementos de crocodilo. Já os papiros médicos de Londres são quase só os papiros «místicos» de Londres uma vez que as curas são essencialmente mágicas. Também neste caso a saúde reprodutiva está em evidência na forma de uma série de incantações contra o aborto. O papiro de Ebers, com 110 páginas o papiro mais extenso, é igualmente uma mistura de medicina incipiente e receitas análogas à dos senadores do Louisianna.
O papiro médico mais interessante de todos é o «papiro cirúrgico de Edwin Smith», o único em que a parte mágica está ausente. O papiro, muito antes de Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da Medicina, tem inscrito o primeiro registo de uma luxação do ombro, mas o mais interessante deste papiro é a descrição não só da anatomia do cérebro como de problemas neurológicos decorrentes de traumatismos cranianos.
Este documento, escrito por volta de 1700 a.C., mas que contém referências a textos escritos até 3000 a.C., reporta, entre outros, 27 casos de traumatismos crânio-encefálicos. Podemos apreciar no papiro a descrição de lesões no cérebro - que é descrito como apresentando «rugas semelhantes àquelas que se formam sobre o cobre em fusão», o que indica um conhecimento anatómico só possível com dissecação - que afectam partes distantes do corpo.
O papiro contém ainda a primeira referência às meninges, «uma membrana que recobre o cérebro», e ao líquido cefaloraquidiano. Um dos casos relatados indica como a fractura do osso temporal do crânio provocou a perda da fala no paciente, ou seja, descreve o primeiro caso documentado de afasia, muito antes de Paul Broca o ter feito em 1861! Para além disso, o papiro de quasi 4000 anos indica que os médicos egípcios provavelmente já tinham a noção de que o cérebro controlava o movimento.
Não obstante toda a evidência empírica sobre a importância biológica do cérebro, os antigos egípcios aceitavam a primazia «mística» do coração e este - assim como outros orgãos sobrenaturalmente «importantes» como o fígado - era removido cuidadosamento durante o processo de embalsamento do cadáver e guardado num recipiente onde permanecia preservado para a viagem até ao «mundo dos mortos». O cérebro, sobre o qual os antigos egipcios pareciam saber tanto quanto o pintor do tecto da Capela Sistina, era displicentemente removido pelas narinas e deitado no lixo, o que indica que os egpícios consideravam que o cérebro não tinha nada a ver com o «Além» (o que me parece especialmente apropriado).

