Num artigo de opinião sobre medicina o médico que o escreve continua a ser, antes de mais, médico.
A decisão médica de prescrever um qualquer medicamento tem sempre em conta a prévia avaliação da relação benefício/risco, independente da especialidade em causa. Nem sempre o diagnóstico médico de uma perturbação depressiva requer terapêutica farmacológica. Nas situações em que essa é, isolada ou em conjunto com outras alternativas terapêuticas, a melhor opção, porque a mais eficaz para aquela pessoa que temos à frente, que sentido faz um psiquiatra escrever "E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente."? Repito, ou bem que não se justifica a prescrição do antidepressivo e do ansiolítico, e então a questão não se coloca, ou bem que se justifica, e não o fazer é errado. Que se chamaria a um infecciologista de cuja pena (ou teclado) tivesse saído "E hesito em prescrever tuberculostáticos" depois do diagnóstico clínico de uma tuberculose? Manipulações emocionais do sofrimento de alguém para efeitos de demagogia pura são graves. Se a premissa é 'mais depressão ou menos depressão que importância tem, o tipo já é um desgraçado' grave é também, a meu ver, porque me interessa a saúde mental dos portugueses, de todos.

