Adenda: Caso não tenha ficado claro, a minha indignação é primariamente dirigida à assunção do "mais do mesmo" ou, se quiserem, do "mudar para deixar tudo na mesma". É que, não se dando o caso da OM estar a organizar uns cursos de escrita criativa, mudar a forma do texto do código deontológico sem alterar o seu conteúdo ofende-me.
Fiquei abismado com a mais recente crónica de José Pacheco Pereira (JPP), publicada no Público de ontem e reproduzida hoje no Abrupto. O tema é a invasão do Iraque. Os argumentos não são famosos, a estratégia é primária, o balanço é tristonho. No fim, fiquei convencido de que há ali uma teimosia irredutível, um orgulho indisfarçável, uma falta de humildade gritante. E um conjunto de ideias preconceituosas a roçar o patético. Sempre tive por sensato que reconhecer o erro não é sinal de fraqueza, mas indício de inteligência. Mudar de opinião não é vergonha, é prova de humanidade. Reconhecer que se avaliou mal e que se julgou pior é sinal de maturidade e marca de abertura de espírito, porque estamos sempre a aprender, porque estamos conscientes das nossas limitações, porque erramos. Porque somos humanos, em suma. JPP não faz nada disto. Ninguém, aliás, exigia que o fizesse. Se não mudou de opinião acerca do assunto, está no seu direito. Como no meu direito estou eu de o comentar. Estamos entendidos acerca disto. Mas escusava de se assumir como mártir, em tom de ironia infeliz, ao afirmar que está a cometer "delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes". Na minha terra, chamava-se a isto "atirar areia para os olhos".
Nem me ponho a escavar considerações prolongadas pelo infeliz uso de "turba" que, pelo que sei, quer dizer algo como "multidão descontrolada, populaça, massa de gente enfurecida, ralé". Não percebo onde está a "pequena turba". Uma "pequena turba" é um grupinho. Que, no presente caso, nem sequer é da "populaça" mas, pelos vistos, de políticos, intelectuais, comentadores, jornalistas. Mas percebo que JPP goste de se mostrar acossado. Não percebo é a torrente de atributos e intenções atribuídas aos que o criticam, todas unidas em torno de, segundo as suas palavras, "uma visão do mundo assente num único pilar, o antiamericanismo militante por razões puramente ideológicas". Depois lá vem a habitual referência ao Bloco de Esquerda e a Mário Soares. Recuso-me a acreditar que JPP pense que quem criticou a invasão do Iraque ou hoje aponte para o cenário catastrófico dos últimos 5 anos o faça apenas movido por "razões ideológicas". Orgulho e preconceito, escrevo acima. Obstinação e dissimulação, acrecento agora. Porque o fracasso dos 5 anos de guerra é de tal maneira evidente que só uma cegueira por "razões puramente ideológicas" ou outras pode justificar. JPP não se atreve a defender o indefensável. A bater-se pela justeza de 5 anos de guerra. Limita-se a paliativos, enquadramentos, ironias, exemplos alegadamente comparativos e, como se viu, a fazer-se passar por injustamente criticado. Reconhece que muita coisa correu mal, mais por culpa posterior do que por erro de princípio. E assina como "historiador". Então, nessa qualidade, deveria saber bem que os exemplos comparativos que apresenta não fazem sentido. Eu digo: JPP afirma que "as críticas a Bush têm um precedente curioso, parecem as críticas a Churchill e a Reagan". O Abrupto inclui gravuras de propaganda da ex-RDA e de outras proveniências a ridicularizar ambos. E acrescento: comparar o panorama da II Guerra Mundial ou o da Guerra Fria com o actual só pode ser entendido como uma manobra de diversão ou uma demonstração de ignorância. Ponto primeiro, a "decisão de invadir". Segundo JPP, pouco teve a ver com a existência de armas de destruição maciça ou com o apoio de Saddam à Al-Qaeda. Não sabia desta, fiquei a saber. A decisão teria a ver com a "resposta à crise suscitada pelo terrorismo apocalíptico" se manifestou em Nova Iorque, Bali, Madrid, Londres "e um pouco por todo o lado". Apenas comento que o 11 de Março e a atentado em Londres ocorreram em 2004, pelo que não compreendo como podem ter pesado na decisão de invadir o Iraque. E também me escapa o raciocinio que desligaria estes atentados da Al-Qaeda mas que os ligaria a Saddam. Espero que JPP me ilumine. Seguindo a crónica, a Administração Bush terá desenvolvido a ideia de que, "para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam "distender" o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como a Palestina". Então, nada melhor para "distender" do que invadir o Iraque, pergunto eu? Desanuviar a tensão no Médio Oriente conseguir-se-ia com uma intervenção militar maciça num país soberano, que não tinha ligações à Al-Qaeda nem constituía ameaça iminente para o equilíbrio regional? Curioso raciocínio, curiosa estratégia. JPP apressa-se a dizer que os conflitos locais (como o da Palestina) eram uma espécie de "irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região". Aqui, confesso, perdi-me, porque entramos no reino do delírio. Não consegui identificar essas "forças moderadas" (presumo que se trate, uma vez mais, da moderadíssima Arábia Saudita) e não percebi como é que a invasão de um país sob falsos pretextos lhes daria fôlego e dinamismo para melhorar a situação regional e promover a paz. Toda a gente percebeu ou acabou por perceber (e alguma avisou bem a tempo) que o Médio Oriente não é um tabuleiro de xadrez convencional, que o ódio antiamericano em particular e antiocidental em geral iria crescer em flecha e, consequentemente, reforçar os extremismos, que a intervenção iria agravar, até ao bloqueio, a crise palestiniana, que os efeitos da guerra seriam imprevisíveis, duradouros e muito perigosos para todos. Se as supostas ligações à Al-Qaeda e a existência de armas de destruição maciça foram apenas "razões apresentadas publicamente para a justificar" (à invasão), ainda que mentiras juradas verdades a pés juntos por Bush e Blair, quais terão sido as verdadeiras motivações? JPP não esclarece. Nem fala dos interesses americanos na região ou do petróleo (apenas faz a graçola infeliz de dizer que é um "líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados"). Diz, sim, que à tal "turba" que lhe ladra "não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos". Presumo, portanto, que a ele e a quem decidiu a invasão, interessa. E agora comento eu: Saddam interessou só a partir do momento em que invadiu o Koweit, o regime só interessou quando se tornou desafiador para o Ocidente, a guerra com o Irão interessou, sim, mas no sentido oposto, porque então era este último o alvo a abater (e, hoje, de novo, por ironia do destino - ou pela inabilidade americana, cada um que escolha o que preferir). Quanto aos massacres nas aldeias curdas, não interessaram a ninguém, como não interessaram nem interessam as atrocidades ocorridas em todo o mundo a toda a hora e desde há tanto tempo. Só quando convém. Dizer que a invasão do Iraque teve as motivações que JPP aponta, é de uma ingenuidade ou hipocrisia sem limites. Em que, em 2003, ainda alguém poderia acreditar. Muita gente acreditou. Hoje, não. Já ninguém acredita. E é esta queima permanente de crédito, este desbaratar da confiança nas intenções da Casa Branca e do Ocidente em geral que iremos pagar com juros durante as próximas décadas. Mas isto, a couraça do orgulho e do preconceito de JPP não deixa, aparentemente, transparecer. A crónica continuará, com a "questão das armas de destruição maciça". Cá estaremos, nós, a turba, para exercer o direito de opinião. Ou, se preferirem, de delito.
Não olhes para mim assim. Tenta não ocupar o meu campo de visão com essa tua gaifona de bezerro acabado de parir. Reconheço que não é coisa assim tão complicada e que é tarefa ao teu alcance. Mesmo tu serás capaz de a cumprir a contento. Não, lamento, não te odeio. Nada que merecesse sequer a pena ser escrito.
Não te coles à parede quando passo, nem me peças desculpa por a tua massa ocupar espaço. Em cada palavra, até nos bons dias. Evita, isso sim, olhar para mim. Continuemos a respirar o mesmo ar contaminado. A partilhar os mesmos cheiros fétidos. Os mesmos sabores acres. A visão das mesmas pessoas. As que eu suporto e as que tu detestas. Porque eu as suporto. Não digas nada. Não te atrevas a dizer nada. Está tudo dito. E desde que a tua mísera figura se interpôs entre o destino do meu olhar. Simplesmente estava tudo errado. Mexias-te de maneira inconveniente. Vestias-te de forma descortês. O que noutra pessoa ficaria bem, em ti é uma chapada nas trombas. Andas a querer provocar-me. Está-se mesmo a ver. Nasceste para isso. Qualquer dia, levanto-me 5 minutos mais cedo e mato-te.
Assim eu arranje dia para ser estragado com rotinas quebradas, não é meu costume matar. Arranco-te a vida do corpo. E tu hás-de ser condenado por teres aparecido morto dessa forma desacostumada. E isso dá trabalho, tenho de perder alguns minutos a pensar na coisa. Se forem 10, serão já 15 os minutos que te dedico. E tu, perdido, está-se mesmo a ver que acabas por morrer feliz. Perceberás, no último estertor, que te dediquei 15 minutos do meu dia. Os teus melhores, que nos outros se querem de fama. E isso está completamente errado, meu pequeno tumor reverencial. Há que reflectir. Até lá, evita apenas olhar para mim. Fecha os olhos. Havemos de pensar em algo melhor.