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Crónica de Abril

Em 1974 tinha 7 anos e vivia fora de Lisboa. Não tenho, portanto, memórias directas do que foi e do que era esse tempo, nem o "antes" nem o "depois", exceptuando alguns fragmentos do que passava na rádio e do que me chegava pela televisão. mais tarde, na década de 80, é que comecei a compreender melhor o país e o mundo onde vivia. O conhecimento que adquiri desses anos foi, portanto, obtido a posteriori e quase sem vivências directas. Não pude, contudo, deixar de ver, ontem à noite, o debate na RTP-1, onde Otelo, no seu jeito esbracejante habitual, cheio de "pás", de tiques e de desvios alongados da conversa, explicou e deu a conhecer a sua versão dos acontecimentos, nomeadamente do Verão Quente de 75. É certamente alguém com quem deve ser um prazer ter uma longa conversa. Quase que me fez esquecer a nódoa indelével que possui ao peito, o caso Projecto Global/FP 25 de Abril. Concorde-se ou não com o senhor, é inegável a sua lucidez e a forma desempoeirada e aberta como fala sobre as questões mais melindrosas, em flagrante contraste com aquele monumento à imbecilidade, versão puto queque, chamado Nuno Melo que, armado de sorriso irónico, citações flamejantes e, sobretudo, de uma ignorância sem medida, se permitiu lançar alfinetadas insensatas, piadas infelizes e insinuações sem fundamento. Que um indivíduo destes seja deputado da Nação e faça figuras destas na televisão pública é, infelizmente, um pequeno efeito colateral da democracia que temos que suportar. Democracia, acrescente-se, que tudo deve ao 25 de Novembro, segundo o mesmo personagem.

Não tenho memórias directas do 25 de Abril. Não tive familiares próximos presos pela PIDE ou na guerra em África. Não tive uma família politizada ou directamente envolvida com o regime. Não fui prejudicado no turbilhão do PREC. Posso, portanto, falar sem sombras do passado ou preconceitos incutidos na infância a toldar-me os pensamentos.

O 25 de Abril não impressiona pelos factos. Impressiona, sim, pelos não-factos.

dias, ao rever o documentário chamado 74-75, de Joaquim Furtado (editado em DVD pelo Público há 4 anos), visionei umas imagens de Julho de 74, quando o Otelo foi graduado em brigadeiro. Disse, então, que "fomos nós, entre os 25 e os 40 anos, que tomámos sobre nós o peso imenso da responsabilidade de derrubar um governo que todos nós deplorávamos, mas que os nossos generais, apesar de toda a sua juventude provável de espírito, não tiveram a coragem de derrubar". O general Silvério Marques, chefe do Estado-maior do Exército e membro da Junta de Salvação Nacional, acusou o toque e retorquiu de imediato: "eu não aderi às ideias do movimento, porque as ideias do movimento, expressas no programa, eu era um aderente talvez antes de o senhor ser oficial." Ora, depois do edifício do Estado Novo derrubado, é muito fácil invocar adesões prévias. Contudo e pelos vistos, secretas. A verdade, porém, é que foi um punhado de capitães a agir e não uma qualquer parelha de generais. E aqueles, como lembrou Otelo ontem, tinham tudo a perder caso o golpe fosse um fracasso. Não os generais, que se limitaram a emergir em Junta de Salvação Nacional como os salvadores da Pátria. Se a iniciativa tivesse sido deixada às altas patentes militares, nunca teria havido golpe e o governo teria caído, possivelmente, de podre. Assim, desfez-se ao primeiro safanão. Não houve reacção da cadeia de comando. Nem a fiel GNR fez defendeu o Presidente do Conselho. uns pides assustados e acossados deram uns tiros para a rua, no dia seguinte. Um deles teve o supremo desplante de o confessar com orgulho, frente às câmaras de televisão, em 1994, face-a-face com J. M. Tengarrinha, preso político na altura, num dos mais patéticos momentos de televisão em directo a que assisti.

Marcello Caetano chefiava um regime-zombie. Não houve praticamente resistência, a população saiu para a rua em exuberante festa, e de festa foram feitos os dias seguintes. Esta inactividade, esta letargia, este arrastamento até ao último estertor de um regime moribundo, este não-facto, revela uma das características mais bizarras do 25 de Abril: a sua inexplicável demora. O seu carácter tardio. Como é possível que não tivesse ocorrido mais cedo, logo após o tombo de Salazar em 1968 ou, o mais tardar, depois da sua morte em 1970? Como pôde um regime-zombie sobreviver tanto tempo? Porque Portugal era um país pobre, beato, analfabeto, dilacerado há mais de uma década por uma guerra ultramarina em três frentes, sem fim à vista, sangrado pela emigração, isolado do ponto de vista internacional. Um país inertedécadas, inapto para reagir às suas próprias mazelas auto-infligidas, um corpo adormecido, incapaz de acordar do seu próprio pesadelo. A Revolução dos Cravos ou a Revolução Sem Sangue são epítetos que nos enchem a alma de simpatia e contentamento. Eu poderia chamá-la apenas de Revolução dos Tomates (os tais que o Otelo e outros tiveram e os generais, não depois). Contudo, tudo isto revela algo bem mais sombrio, triste e vergonhoso. Uma prova de imaturidade enquanto povo, de fragilidade enquanto consciência comum, de débil fraqueza enquanto corpo social: o regime sobreviveu à oposição civil e política, à resistência cívica, ao descontentamento social, às lutas laborais. Caiu apenas pela força das armas, sem ter havido exactamente acção armada. Portugal acordou estremunhado nesse dia, sacudido pelos actos de uns quantos carolas de camuflado. Depois, como se viu, quis sofregamente viver em poucos meses o que negou a si próprio durante décadas.

Portugal não é um país de revoluções e de rupturas. Não é. Nunca o foi. Porque é que o 25 de Abril, com a sua peculiaridade, haveria de sê-lo? No entanto, foi-o, porque tudo mudou a partir desse dia. Por mais que certa esquerda venha dizer que voltámos ao antigamente, por mais que certa direita rosne contra os excessos do PREC. E o facto de se ter construído uma revolução-sem-revolução é das coisas mais admiráveis da nossa História.

lembrem-se como foi

Às vezes apetece-me agarrar em certas pessoas e levá-las numa viagem no tempo. Há filmes para isso, e até séries de TV - do Conta-me como Foi aos domingos na RTP1 à Guerra, o espantoso documento de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que está de novo a ser transmitido pela RTP2. Mas sei que não funcionam. Nem funcionaria, sequer, uma viagem aos anos pré-1974. Se nem a memória funciona para quem os experimentou, como esperar que alguma coisa funcione? Quando oiço ou leio elogios a Salazar e ao "outro tempo" a gente que tem idade para se lembrar, fico estupefacta. Nunca deixa de me espantar que se considere que "se vivia melhor" ou "havia mais segurança". É que não é uma questão subjectiva: não me venham com questões subjectivas.

Nada há mais objectivo que os indicadores do Instituto Nacional de Estatística, e a forma como nos últimos 34 anos as provas do bem-estar dos portugueses aumentaram de modo quase milagroso. A mortalidade infantil e materna, por exemplo: passámos de um índice de país do Terceiro Mundo para um dos mais honrosos da UE. A esperança de vida. A electricidade, a água canalizada, as casas de banho dentro das casas. A quantidade de jovens que conseguem aceder ao ensino superior. Quem acha que isso não tem nada a ver com a democracia e que era inevitável deve questionar-se, por exemplo, sobre o motivo pelo qual em quase todos os países totalitários, independentemente da sua riqueza, a maioria das pessoas vive tão mal. Porque antes da democracia a esmagadora maioria dos portugueses vivia mal. Havia miséria como não há, nem por sombras, hoje. Havia pobreza como não há, nem por sombras, hoje. Há gente a viver mal hoje, idosos com reformas miseráveis. Mas antes da democracia não havia sequer reforma garantida para todos - lembram-se? E podia não haver carjacking - não havia sequer carros que chegassem para isso - mas havia tropa obrigatória, lembram-se? E minas nas picadas, e emboscadas na selva. Quantos portugueses morreram, obrigados, na guerra? Quantos voltaram deficientes? Quantos tiveram de fugir para não serem enviados para África? Quantos fugiam, "a salto", para tentar uma vida melhor no estrangeiro? Quantos morriam de medo de dizer alguma coisa errada que os levasse a serem considerados anti-regime, a perder o emprego, a serem presos? Era seguro, ser português? Era seguro, viver numa ditadura? Há, claro, sonhos que se perderam e traíram. Não somos todos felizes - mas só nos cartazes das ditaduras toda a gente sorri. Os amanhãs cantaram, mas desafinados para muitos ouvidos. Desafinam ainda, e ainda bem - porque agora depende tudo de nós, e cada voz canta diferente. Sobretudo, não me digam que "há medo de falar" nem usem a palavra "fascismo" a torto e a direito. Porque é ridículo, demasiado ridículo, mas porque, sobretudo, é um insulto a todos os que realmente souberam o que era ter medo e viver num regime totalitário, todos os que no "dia inicial, inteiro e limpo" de Sophia se sentiram, enfim, inteiramente inteiros. (publicado hoje no dn)

o 25 de abril d'o saloio

o comentador 'o saloio' contou a sua experiência da manhã de abril no post 'a revolução na montra'. aqui fica. Pelas 07H00m, ao ser acordado pela minha mãe esta disse-me que havia “qualquer coisa”, pois ouvia-se no rádio músicas militares e apelos a que os civis ficassem em casa nessa manhã. A minha mãe concordava com os locutores e dizia-me para eu ficar na cama. Eu, com 19 anos, achei que não - queria ir ver o que era. Nessa altura, estudante do Conservatório, aí vim eu no 46, entre Benfica e os Restauradores (ou Rossio, já não me recordo). Lembro-me que no autocarro (daqueles ingleses, de dois andares, que faziam muito fumo e onde eu tentava ocupar um dos lugares da frente no 1º andar), só se falava da derrota do Sporting na véspera - nem uma única pessoa falou nas notícias da rádio. Seriam uma 08H00 quando desembarquei na baixa, e fui a pé até ao Terreiro do Paço. Um pouco antes, na zona da Rua do Comércio, vi então os soldados - tinham mais um ano ou dois que eu, e um ar de quem não sabiam porque é que estavam ali. Eram recrutas, estavam com um joelho por terra e G3 a tiracolo, encostados à parede do prédio da Rádio Marconni, e olhavam para os telhados. Os poucos civis àquela hora iam passando e olhavam, como eu, com curiosidade. Perguntei o que é que estavam ali a fazer, e um dos soldados disse-me que o capitão lhes tinha dito para estarem atentos aos telhados. Disseram-me que eram recrutas com apenas três meses de quartel, e alguns mostraram as culatras das armas vazias - sem balas.

Deixei-me ficar por ali - para trás e para diante. Mas que raio se estava a passar? Tudo aquilo era inédito e a verdade, é que nada parecia perigoso, pois as espingardas estavam descarregadas. o único receio era quando a PIDE, ali próxima, soubesse do que se estava apassar, e viesse por aí abaixo. Logo no café, iria contar uma história diferente… No quarteirão a seguir, era o Terreiro do Paço: havia jipes e chaimites dispostos na periferia da praça, não muitos - uns 15. A malta civil não percebia nada do que se estava a passar. Estaávamos todos atentos a um tipo mais mexido, de quico na cabeça, de G 3 ao ombro, e que parecia que era ali determinante, porque atrás dele corria sempre um outro tipo mais bem fardado (de blusão de cabedal, com um grande coldre à cintura em que segurava com a mão quando corria atrás do outro), e um magala de capacete com um grande rádio preto às costas, tipo mochila, com uma antena alta em fita larga. O tipo do quico na tola andava para a frente e para trás, tinha um megafone branco pendurado, e os outros dois pareciam aqueles polícias dos filmes mudos antigos…iam também descrevendo o mesmo percurso. O sol começou a despontar vindo do rio Tejo, dando alguma cor à manhã baça, e cada vez havia mais malta, vinda da outra banda nos barcos. Nas arcadas, todos compreendíamos que era um golpe militar, pois alguns recordaram em voz alta o movimento havido uns dias antes e que tinha “corrido mal”. Por volta das 09H00, apareceu entre os populares o jornalista Adelino Gomes, com a careca branca e os cabelos laterais compridos ao vento. Como sabia quem ele era, um jornalista “do contra”, colei-me a ele para ver se percebia mais qq coisa. Mas ele estava muito nervoso e desesperava em contactos e deslocações, entre o desconfiado e a esperança. Na opinião dele, podia tratar-se de um golpe militar de extrema-direita, para depor o Prof. Marcelo que era um “fraco”. Os soldados que estávamos a ver seria tropa do Gen. Kaúlza (da Arriaga), e portanto a coisa não era boa. Olhámos de soslaio o tipo do quico na cabeça, que soube mais tarde ser o Sr. Capitão Salgueiro Maia e o tipo que corria agarrado à pistola (o actual presidente da câmara de Grândula - Sr. Gen. …Pinto???). Com a dúvida instalada, assisti de longe à vinda dos carros de combate da 24 de Junho, junto ao rio - e que após algumas correrias, se vieram a juntar ao movimento. O jipe e os três carros de combate, após algumas manobras complicadas, ficaram enquadrados com os da EPC. Mais tarde pela manhã, assisti também, mas de longe, a uns carros de combate que vieram pela Rua do Arsenal (a que refere o post). Eram mais que os primeiros e aqui a coisa foi mais demorada, e no meio da confusão gerada pela grande quantidade de populares, só via a antena do soldado do rádio de um lado para o outro. Os carros de combate de Santarém foram tomando posições de combate, e a malta anónima manteve-se, impávida, debaixo das arcadas, assistindo a tudo com curiosidade e dando, como sempre, as opiniões mais díspares e cómicas. O Cap. Salgueiro Maia ia dando ordens à multidão civil para retirar, que a coisa podia ficar perigosa, mas a malta fazia-se mouca e não retirava. Acabou tudo em abraços, depois de nos termos apercebido de alguma tensão. Eram já umas 11H30 quando os chaimites puseram os motores a trabalhar. O Sr. Cap. Salgueiro Maia, através do megafone, dizia para os seus que se iam dirigir para o Carmo. A malta, atenta, decidiu segui-los e aí fui eu… Fiquei de pé horas, em cima da capota de um Datsun 1200 branco, estacionado à porta da sapataria na lateral. Éramos uns 20 em cima da capota que, devido ao peso, dobrou toda para o interior do veículo. Só fui para casa a 27 de Abril…sorridente. Digo eu…

Porque é Abril - Epílogo

E pronto, acaba hoje este divertimento diário que me tem acompanhado nos últimos 15 dias. A melhor forma de o terminar será dar a palavra a quem já reflectiu sobre o muralismo pós-25 de Abril. Não é fácil arranjar textos sobre o assunto, decidi, assim, transcrever parte de um dos textos que se podem encontrar no cd-rom que já referi antes e que, aliás, me serviu de fonte para algumas das imagens que usei. Como o texto vai ser longo fica já o som, antes de passar a palavra ao Alfredo Caldeira... Termino como comecei, com "o povo unido jamais será vencido" mas, desta vez, na versão portuguesa de Luís Cilia (que me chegou através do Torcato Ribeiro, a quem agradeço de novo). [audio:http://5dias.net/wp-content/uploads/2008/04/opovounido.mp3]

"(...) Arma de agitação e propaganda, a pintura mural exprimiu, no conteúdo e na forma, os valores e os objectivos das organizações políticas que a ele recorreram, sendo evidente, de um lado, o inegável pendor à esquerda das pinturas murais então produzidas e, de outro, as diferenças conceptuais que as marcaram. A pintura mural significou ainda uma clara ultrapassagem dos meios tradicionais de informação (jornais, rádio e televisão), em larga medida dissociados da realidade crepitante do quotidiano revolucionário, sendo de acentuar que a pintura mural se dirige, por definição, a uma multiplicidade de destinatários, umas vezes direccionados (os operários de uma fábrica em greve) e outras indiferenciados (as pessoas que passam numa estação de caminho de ferro ou na rua), enquanto aqueles meios de comunicação social aparecem quase sempre vocacionados para uma relação directa, quase unipessoal, com o destinatário, o consumidor. Assinale-se ainda que a pintura mural, pelas suas dimensões, composição gráfica e legibilidade, é também um instrumento de mais fácil penetração junto de camadas populacionais menos letradas ou com menos hábitos de leitura. Acompanhando, de uma forma geral, a própria evolução da situação política e as suas solicitações mais imediatas, pode dizer-se que a pintura mural, que então se afirmou no nosso país, obedeceu a dois níveis principais, muitas vezes articulados entre si: - O da propaganda política e ideológica geral; - E o do chamamento para iniciativas concretas. Estes dois níveis de intervenção não são, também, indissociáveis da própria implantação territorial e da prática organizativa de cada partido ou associação, do mesmo modo que correspondem largamente às inspirações ideológicas de que se reclamam - sendo evidentes, e mesmo assumidas, as inspirações da revolução cultural chinesa e da propaganda albanesa ou soviética, cujos modelos formais marcaram fortemente a concepção e o desenho da pintura mural no nosso país. Refira-se também que qualquer das organizações que a ela mais recorreram - PCP, MRPP/PCTP e UDP - organizaram para o efeito estruturas partidárias próprias, que incluíam artistas plásticos, sem prejuízo de, muitas outras vezes, a execução dessas pinturas ser entregue a militantes e simpatizantes sem prévia formação artística, envolvendo-se nessas acções simpatizantes e populares como modo de participação directa na vida política. Acresce que a pintura mural (...) correspondeu a quatro diferentes abordagens: - A pintura como desenho original; - A reprodução directa de cartazes; - A reprodução de moldes pré-desenhados (designadamente de figuras e de símbolos); - A adaptação de cartazes e a sua combinação com outros motivos complementares. Também aqui a raiz ideológica aparece claramente marcada, de modo aliás associado ao maior ou menor realismo da pintura, que vai da simples palavra de ordem reproduzida em grandes dimensões à composição elaborada, com planos complexos e situações e personagens diversificadas. (...) (...) interessa, isso sim, sublinhar a enorme influência que tiveram na percepção política e cívica dos cidadãos, a quem essas pinturas murais, geralmente de grandes dimensões, levavam notícias, tomadas de posição, símbolos, valores ou apelos."

a revolução na montra

Um golpe de Estado à portuguesa é assim: armas, chaimites, uniformes, cordões de tropa de um lado e doutro... e as lojas abertas. Na rua do Arsenal, entre bacalhaus e barricas de atum, espreitou-se a História. Crónica de uma memória em extinção.

Numa montra galinhas «francesas», noutra pintainhos amarelos. Lá dentro é uma gruta estreita de tempo parado e poeira fina, a mesma que se respira e cobre tudo, sacas, comedouros, gaiolas grandes e pequenas, numa desordem de quinta. Há pombos correio, coelhos anões à mistura com um hamster, periquitos, peixinhos vermelhos, um galarote que de cinco em cinco minutos se anuncia estridente. E o senhor João, Rodrigues de apelido. Também ele sob a mesma poeira adocicada, o cabelo em crista, o olhar fino, doce, a confirmar dos 72 anos 54 aqui, no Aviário de Lisboa, no meio dos bichos. É o número 160 da rua do Arsenal, a meio entre a Praça do Município e o Largo do Corpo Santo, naquele dia o lugar do confronto entre as forças da revolução e as da situação. No vai-vém de clientes, do brasileiro com anéis de ouro que quer comprar faisões à senhora que vem da Penha de França por dez pintos, João desenrola a memória. Como de costume, veio da casa no Bairro Alto para o trabalho às oito e tal da manhã, rua do Alecrim abaixo. Ensonado («Na véspera saíra do Coliseu já de madrugada, a minha falecida mulher era cantora do coro e eu contra-regra»), dá de caras com a tropa ao fim da calçada. «Apanhei um susto... Como não tinha ouvido rádio em casa, não sabia de nada. Lá me informaram de que havia um golpe de Estado e ninguém passava. Mas quando lhes disse que trabalhava aqui, que tinha de vir dar comer aos bichos, deixaram-me vir. Achei, assim sendo, que não devia estar a acontecer nada de muito grave». Levou tempo a perceber quem eram os «maus» e os «bons» e para que lado pendia o vento. Não, frisa, que não soubesse quem eram os «maus». Mas era difícil distinguir, no meio dos uniformes, e não se atreveu a perguntas. «A gente não sabia no que aquilo ia dar... Com a Pide não se podia abrir a boca, era melhor esperar para ver». Receoso, «só metia a cabeça para fora um bocadinho». Até que começaram os tiros. Seriam umas onze horas, não tem a certeza. Como não percebeu de que lado vinham nem por que eram, mas viu a vida a andar para trás. No meio da algazarra dos bichos, «assustadíssimos», ligou para a mulher. «Tinha ido para o Teatro mas mandaram-na para casa. Eu tive de ficar aqui mais umas horas, até que as forças armadas me deixassem sair». O susto não impediu que no dia seguinte, apesar das recomendações exaradas pela rádio e TV para que a população se mantivesse em casa, voltasse à loja: «Os bichos comem todos os dias!» E assim nestes trinta anos. Quanto às contas da História, não tem dúvidas: «Foi por bem, ficámos melhor. O Marcelo Caetano até nem era muito mau, mas bom também não podia ser: era discípulo do Salazar.» Ah, diz a cliente da Penha de França, que com os pintos já pagos e embrulhados foi ficando para recordar a madrugada em que a sede da Legião Portuguesa – hoje Comando da PSP –, ali ao lado de casa, a acordou em irremediável tumulto. «Deixe estar que estes de agora não aprenderam com ele mas têm a lição na ponta da língua.» Riem os dois, numa cumplicidade de dias contados: sobre a porta do Aviário, o cartaz de trespasse desenha-lhe o mesmo destino de tantas outras casas do Arsenal. «Pensámos que era tudo a brincar» O do café que hoje é o Glaciar Ártico, por exemplo. Foi lá, garante a proprietária do número cem primeiro andar frente, o Externato Continental, que ocorreu um dos momentos fulcrais do dia. «Um dos oficiais da ditadura foi telefonar aos superiores, para perguntar se podia render-se. Então, na altura não havia telemóveis!» Entre risos, Ivone Costa Santos jura que os termos da anedota lhe foram relatados pelos donos do café, há muito reformados «na terra». E que da sua janela feita primeiro balcão assistiu, com o marido já desaparecido, «à história em directo, directinho!». Vinham do outro lado da ponte, do Laranjeiro, de carro. Alertados por um vizinho de que «havia qualquer coisa», não antecipavam o espectáculo que era, às 8.30 da manhã, o Largo do Corpo Santo, onde estavam as forças do governo. «Era tropa armada, carros de combate e metralhadoras como nunca tinha visto. Mandaram-nos arrumar a viatura de qualquer maneira e seguir a pé.» Na escola, que ensinava dactilografia, entre outras coisas caídas em desuso, como mecanografia e estenografia (substituídas hoje pela «contabilidade e informática») ainda apareceu um pai com a filha pela mão, mas foram mandados para casa. «Era uma responsabilidade muito grande ter gente cá dentro», comenta, mesmo se confessa que ela e o marido acharam que «era tudo a brincar, nem nos apercebemos da gravidade da situação». A dada altura, sobretudo a partir do tiroteio, lá lhes ocorreu que a coisa podia dar para o torto. «Começaram a entrar pessoas em tropel pela escada acima, porque isto tem uma saída para a rua de trás... E aí assustei-me. Resolvemos ligar para o Banco Espírito Santo, ali no Corpo Santo, para ver se conseguiamos levantar algum dinheiro, dez contos ou assim. Mas responderam-me logo que estavam as contas todas congeladas... Aí fiquei numa aflição.» A aflição havia de ser maior: detentora de uma fortuna em acções de companhias ultramarinas por via do gosto do marido em «jogar na Bolsa», Ivone afirma-se «depenada» com as consequências do dia. «Quatrocentos contos, naquele tempo era uma fortuna! Ainda hoje tenho os papéis... Mas não valem nada.» Dos reveses que lhe atravessaram os 66 anos, da fortuna perdida à morte acidental do marido e do filho que da moldura na parede presidem à conversa, Ivone sublimou uma determinação doce. «Até certo ponto, todos ficámos contentes com a revolução. Somos mais livres, mais abertos, andávamos muito metidos na casca. E aqui, em termos económicos, acabámos por recuperar alguma coisa: veio muita gente de África que precisava de aprender um ofício...» «Tivemos bilhete de primeira fila para ao 25 de Abril» Dos ofícios desta rua avulta o das casas de bacalhau, com as suas pilhas salgadas em duelo com as barricas de atum, os arenques secos ao sol e outras vitualhas piscícolas indeterminadas. Em nenhuma, porém, sobram testemunhas da época. O mais próximo que se encontra é António Alves Joaquim, 60 anos, agora na Pérola do Arsenal a aviar o dito fiel amigo como antes na Charcutaria Favorita, na rua do Ouro, aviava sandes de pão de centeio com fiambre. Foi lá, ou melhor, no Rossio, que a revolução o apanhou. «Quando cheguei à praça, às oito da manhã, dei com um canhão apontado ao Quartel do Carmo. Está a ver o que isso é?» Faz pausa para garantir que se vê, no claro palco daquela manhã, o monstro de ferro em cerco à GNR. «Mesmo assim, como me identifiquei e disse que era eu que tinha a chave, deixaram-me ir para a loja.» Os colegas chegaram mais tarde e, assevera, não houve mãos a medir. «As pessoas achavam que ia faltar a comida, levaram tudo.» Soldados, nem um para amostra. Mas António, solene, declara a rendição: «Se viessem, não lhes vendia nada. Dava-lhes.» Outro António, mas Barros, julga-se o último dos moicanos. «Infelizmente para mim, sou o mais velho aqui da rua». Engana-se, como se viu – mas não muito. Foi aqui, sob a corrediça porta ondulada do número 80, que espreitou, com um primo já desaparecido, o encontro entre os dos cravos e os outros -- se bem que nessa altura ainda não havia cravos nenhuns. «Não percebia nada, nem torcia por ninguém... Não sabia se era para bem, se era para mal.» António e a mulher, Rudesinda – Sinda, por favor, rogam os dois numa risada – atropelam-se no relato. Ela ficou em casa, com o filho de seis anos, ele como todos os dias veio para a loja. «J.M. Barros Rodrigues, filatelia e tabacos», hoje dele, na altura do tio: cinco metros quadrados com um balcão a meio, quase uma trincheira, frisa para a História. «O mais importante que se passou nesse dia foi mesmo aqui em frente. Tive bilhete de primeira fila para o 25 de Abril!» Foi o extinto eléctrico 24 que o transportou até ao estertor do regime, no Corpo Santo. Civis poucos havia, «eram meia-dúzia atrás das barreiras». A ele e ao primo, identificados como empregados de uma loja na terra de ninguém, os militares do regime garantiram que «abrir era impossível» mas, indefectíveis da ordem e da propriedade privada, deixaram-nos « ir ver das suas coisas». Ao longo da rua, nas janelas dos ministérios, surgiam já cabeças curiosas. «E nós sem percebermos nada. Nem abríamos a boca... Depois é que uns soldados nos vieram dizer que estavam ali para derrubar o regime: «Somos pela liberdade, isto é uma ditadura, tem de acabar». António concordou. «Realmente, tínhamos de falar sempre às escondidas... Havia a Pide e isso, eu até conhecia uns tantos que vinham aqui à loja comprar tabaco... Sempre muito correctos, mas se me descuidasse, já se sabia. Até um vulgar polícia de giro podia puxar do cassetete e, com razão ou sem razão, uma pessoa apanhava uma surra. Foi bom, foi mais bom que mau, mesmo se depois houve umas coisas... Uns excessos.» Em pulgas, nem se lembra do que comentou com o primo, se comentou alguma coisa. Sabe é que ligou logo à mulher, para ela «ficar quietinha em casa com o puto». E depois foi aquilo. «Apareceram mesmo aqui à frente, a apontar as armas uns aos outros... Os soldados de joelhos no chão, os oficiais a conferenciar... Falaram, falaram, e no fim abraçaram-se... E pronto: por volta das 13.30, duas da tarde, desandou tudo. Se calhar foram almoçar juntos.» E depois? Nós saímos logo a seguir, já com a rua toda fechada.» Três ou quatro dias depois, sorri Rudesinda, «viémos com o miúdo às costas comemorar na avenida». E depois, junta António, ainda houve umas chatices, «foi aquela coisa das ocupações, tive de guardar o meu senhorio em minha casa, porque como era um homem com algumas posses queriam matá-lo... Uma estupidez.» E depois? Depois, diz Ivone Costa Santos, foi tudo para casa ver televisão: «Tal qual o que tínhamos visto aqui. Tal qual.» (publicado no dn em 25 de abril de 2004)

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