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A crise acaba amanhã, um bocado antes da 5, vai uma aposta?

Hoje, eram quase 9 da manhã, dirigi-me a um posto de combustível para cumprir mais um episódio da minha missão de poluidor- consumidor- utente- contribuinte e, sobretudo, pagador. Na Galp estava uma bicha (ups, fila, fila) enorme. Na BP, um pouco adiante, estavam duas viaturas. É natural, os preços são um pouco mais elevados e o combustível está pela hora da morte. Já só havia gasóleo numa das bombas. O carro da frente atestou o depósito, até transbordar. A camioneta atestou e encheu três bidões da caixa. Saí do carro e olhei para os que estavam atrás de mim: jerrycans e bidões nas malas.

 As notícias da rádio matinal estavam a surtir efeito. As gentes, temendo a secura suprema, precipitaram-se para as bombas. Não era abastecer para assegurar a circulação por uns dias. Nem era sequer atestar. Era tudo isso e ainda encher mais uns recipientes. Na minha terra, chama-se a isto "açambarcar". Que curioso, o gasóleo, antes caríssimo, ficou subitamente uma barateza. Quando eu disse que "só" queria 40 litros, conta certa e habitual, o empregado fez uma cara estranha. À sua frente estava um pelintra armado em carapau ou um lunático, de certeza. Se ele conhecesse a Alexandra, decerto diria que "era da idade". Lá me abasteceu e perguntou se podia fazer a "conta certa ao euro". Atrás de mim, a fila aumentava, tal como a minha vontade de perguntar directamente para que é que queriam aquilo. Ainda pensei que houvesse algum novo produto bancário vantajoso que convidasse à acumulação de combustível. Não, toca a andar. Tive, ao menos, o prazer de um resmungo cúmplice com o aflito funcionário, que esperava um feriado tranquilo. Já se desenganara e preparava-se para "ligar a um colega para o vir ajudar". "Vai tudo para casa encher a banheira de gasóleo, ao que vejo, hein?", foi o meu comentário final. Depois ouvi as notícias sobre algumas carências nos hipermercados, o problema especial do leite e a questão dos frescos. Afinal os camiões do Pingo Doce mereceram escolta policial. No noticiário da SIC, uma jornalista simpática, perspicaz e inteligente pergunta num piquete (se não me engano, no Carregado): "foram vocês que apedrejaram os camiões?". Não, claro que não, as pedras levantaram-se da calçada e dirigiram-se espontaneamente para as viaturas que iam a passar, mas que pergunta. O nosso PM explica e diz que está em negociações para minimizar os efeitos. Recebe apupos e assobios em Viana. Uma festa, este 10 de Junho. O Portugal solidário, o Portugal do Euro, o Portugal vestido de verde-rubro que se abraça e beija quando a selecção marca golo, o Portugal da "raça", na feliz expressão nostálgica em boa hora relembrada pelo Chefe de Estado em dia de celebração nacional, esse Portugal deu lugar, por umas horas, ao velho Portugal que apedreja camiões e que açambarca combustível, mesmo que isso seja irracional, desnecessário e estúpido, mesmo que cada litrada que se guarda no cofre faça falta ao vizinho. Problema dele e cada um sabe de si, não é? Hoje combustível, amanhã arroz, depois de amanhã, sei lá, talvez latas de Bom Petisco. Eu vou já despejar a minha garrafeira e encher as garrafas de gasóleo, que vinho não puxa carroça, e o depósito de água que tenho para ali, vou atestá-lo do precioso líquido para quando for preciso. Se não houver água para o banho, paciência. E se não precisar dele, bom, vendo-o a alguém daqui a uns tempos, nessa altura já dará um bom lucro. No fim do episódio matinal, suspirei. Estava a exagerar, certamente. Afinal, amanhã, antes das 5, já estará tudo resolvido. Ou não?

A religião nas eleições norte-americanas

As primárias das eleições norte-americanas foram férteis em temas relacionados com a religião. E desta vez não foram os candidatos republicanos que mereceram mais análises sobre o tema, embora o mormon Mitt Romney, os anúncios de Mike Huckabee como «Christian leader» e especialmente as ligações de John McCain com Rod Parsley e John Hagee tenham sido bastante discutidos De facto, mereceram algum destaque as posições de Rod Parsley, o guia espiritual de John McCain, que considera ser a «missão» da América destruir o Islão - e que pode ser apreciado ao vivo e a cores no YouTube em algumas intervenções elucidativas -, assim como o apoio manifestado ao candidato republicano por John Hagee, o tele-evangelista que considera que o furação Katrina foi castigo de Deus pelo pecado (homossexual) que assolara New Orleans.

De igual forma, não passaram totalmente despercebidas as posições religiosas de Hillary Clinton, nomeadamente a sua ligação (e a de outro candidato republicano, Sam Brownback, o senador de Deus) aos «guerreiros das orações». A Família foi tema de um livro recente de Jeff Sharlet, embora raramente tenha sido mencionada na comunicação social norte-americana a rede das «células de Deus» criadas por Abraham Vereide, uma rede de poder semi-clandestina em que os membros são generais, senadores, pregadores e executivos de grandes empresas, cujo objectivo é a construção do Reino de Deus na Terra com capital em Washington. A «Worldwide Spiritual Offensive» destas células dedica-se à expansão mundial do poder americano como forma de levar o Evangelho aos infiéis. A Família apoiou, entre outros, Siad Barre na Somália ( que integrava uma célula de oração a que pertencia, por exemplo, o senador republicano Chuck Grassley) , Carlos Eugenios Vides Casanova em El Salvador e os esquadrões de morte salvadorenhos. As células de oração foram ainda muito activas no combate à ameaça comunista apoiando ditadores como o marechal Artur da Costa e Silva no Brasil, o general Suharto na Indonésia, e o general Gustavo Alvarez Martinez nas Honduras. Mas com temas tão interessantes a explorar sobre a religiosidade dos candidatos, a estrela ad nauseam de análises, discussões, acusações e opinações sortidas foi Barack Obama, ou antes, a estrela foi o discurso controverso do pastor da sua Igreja, Jeremiah Wright, apresentado por muitos como se fosse reflexo do pensamento do candidato democrata As eleições de 2008 têm visto assim um ênfase inédito no tema religião, tão inédito que Ralph Reed, o estratega do GOP que ajudou a construir a Christian Coalition na década de 90, afirmou que «Tem havido mais fermento religioso nestas eleições que em qualquer outra desde 1960 e não espero que isso termine agora». Mas talvez Reed, o primeiro director-executivo da Coligação Cristã actualmente em travessia no deserto devido ao seu envolvimento no caso Abramoff, a teia de corrupção e extorsão que abalou os Estados Unidos em 2006, esteja a ser vítima de «wishful thinking». De facto, as últimas semanas confirmaram o que um painel do Pew Forum tinha indicado em Dezembro, que nestas eleições, contrariamente ao que aconteceu nas anteriores, o factor religião não só perdeu importância como se tornou contraproducente numa faixa cada vez mais significativa do eleitorado. Diria que os candidatos sabem que a religião pode ser uma faca de dois gumes nas eleições que se aproximam e talvez isso ajude a explicar que Obama tenha deixado a sua igreja de 20 anos depois da divulgação dos sermões de Jeremiah Wright, agora retirado das lides pastorais, e que McCain tenha rejeitado os apoios de Hagee e Parsley. Este discurso de Obama, pronunciado em Junho de 2006, e a falta de entusiasmo de McCain pela religião fazem prever que o peso do voto religioso irá ter ser diminuto nas eleições de Novembro próximo. Talvez assim os debates que se aproximam incluam tópicos que muitos, lá como cá, consideram fundamentais no debate político: políticas económicas, desigualdades sociais e pobreza. E com a religião fora da jogada, atrevo-me à audacidade de esperar que finalmente tenha lugar o tão esperado debate em que os candidatos elucidem o eleitorado sobre temas como políticas ambientais, de educação, de saúde, de ciência e de tecnologia. Um debate que era urgente já nas eleições de 2000, que acompanhei de muito perto, mas que, lá como cá, é agora uma obrigação moral que não se pode ignorar.

A religião nas eleições norte-americanas

As primárias das eleições norte-americanas foram férteis em temas relacionados com a religião. E desta vez não foram os candidatos republicanos que mereceram mais análises sobre o tema, embora o mormon Mitt Romney, os anúncios de Mike Huckabee como «Christian leader» e especialmente as ligações de John McCain com Rod Parsley e John Hagee tenham sido bastante discutidos.

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