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jugular

Expulsem-me do gineceu, pronto

Não consigo estar nada de acordo com o que o Daniel de Oliveira escreveu aqui. Não me parece que esta decisão judicial macule de alguma forma a luta pela igualdade entre homens e mulheres, nem que tenha a ver com multiculturalismos nem com o diabo a sete. Se calhar é porque só consigo olhar para o casamento como um contrato entre duas partes iguais que me parece ser perfeitamente razoável declarar a nulidade do mesmo se uma delas foi deliberadamente enganada aquando da sua realização. O facto de a virgindade ser irrelevante para mim não quer dizer que o seja para toda a gente, as simple as that...

A retórica de Bush

"No último meio século de política norte-americana, John Fitzgeral Kennedy foi o Presidente que, de modo consistente e sistemático, mais pensou a acção política no quadro do respeito por uma tradição e cultura políticas. Pelo contrário, George W. Bush foi o presidente cujos discursos menos referências manifestam, com densidade assinalável, relativamente à história americana. Na verdade, o 43º inquilino da Casa Branca é um testemunho vivo do que vai mal nos EUA. Uma cultura política em que o esquecimento e a gesticulação ideológica substituem o culto crítico da memória e o recurso ao passado como uma fonte de inspiração crítica e criadora. Os textos de Bush, na sua pobreza, estão nos antípodas da singeleza poderosa de Lincoln, cujo monumento retórico fundamental é o discurso proferido durante a Guerra Civil, no campo da batalha de Gettysburg" Vitor Soromenho- Marques, O Regresso da América: Que Futuro Depois do Império, Esfera do Caos, 2008, pg. 52-3

"Jogos de poder" por Vasco Barreto

Quando ler esta crónica, talvez a mulher tenha já passado à história, mas prevejo que estará numa posição mais forte na segunda-feira do que a de mera candidata a um almejado lugar que ninguém segura por muito tempo. Numa altura crítica para Portugal, será esta a mulher providencial, sendo que, para o povo, de onde ela vem não se espera “nem bons ventos, nem bons casamentos”? E será mesmo que não se olha para ela pensando que mente? Talvez, mas fica por saber se é por ser honesta ou pela impossibilidade de se pensar o que quer que seja quando contemplamos uma criatura que pela voluptuosidade se furta ao “olhos nos olhos”.

Falo-vos, claro, de Neredia Gallardo, a luxuriante modelo espanhola que é a nova namorada do nosso Ronaldo. Um ex-companheiro aproveitou os cinco minutos de dúbia fama para felicitar Ronaldo, qual vendedor de stand de automóveis que comenta com o cliente a potência da viatura transaccionada. Tudo isto deprime, da indiscrição à possibilidade real de o craque subir aos relvados no Europeu extenuado, após um intenso final de época em que de dia se bateu com os melhores quartetos defensivos e, de noite, lidou com a marcação individual de Neredia. Os mais conspirativos imaginarão até a mulher ao serviço do reino de Juan Carlos, tese que colhe se atendermos ao medíocre palmarés da selecção espanhola e à tara por bola daquela gente.

Diz-se que Ronaldo tem coleccionado dois tipos de troféus: taças propriamente ditas e modelos. Erro crasso. Ronaldo faz de objecto de colecção e não de coleccionador, pois o melhor jogador do mundo do desporto-rei é um troféu mais valioso para uma rapariga gira do que o inverso. Porém, fora do linear mundo da bola e passerelles, este critério para definir como troféu aquele que na relação tem o saldo positivo de poder (financeiro, mediático, político) pouco ajuda. Entre Marilyn Monroe e a estrela de basebol Joe DiMaggio ou o argumentista Arthur Miller, o armador Onassis e a cantora Maria Callas ou Jacqueline Kennedy, quem fez de taça e quem a ergueu? Talvez não seja de excluir a síntese em que as posições se revezam. Imagine um número de força: DiMaggio ergue Marilyn, que depois ergue DiMaggio, que a volta a erguer.

Impor o rótulo de “troféu” aos famosos é a prepotência possível das massas, mas também revela o denominador comum às relações amorosas mediáticas: a previsibilidade do fim da relação e, sobretudo, do seu início Y junta-se com X e só podia ser mesmo assim. O estereótipo forja a mediatização ou vice-versa; o certo é que a realidade ganha contornos de telenovela. As namoradas de Ronaldo são sempre umas bombas sexuais, o poder é um afrodisíaco, etc. A noção de amor não sai bem tratada, há défice de mistério. Perante este quadro, só me resta elogiar publicamente Roger Federer, que tem uma companheira de aparência normal. Federer, pelo génio no court e pela namorada na bancada, transmite uma perplexidade regeneradora, mantém o sonho. É por isso que torço por ele, a menos que, por uma vez, Ronaldo surpreendesse fora dos relvados e lhe roubasse a pequena.

(Crónica do jornal Metro de 2 de Junho)

esmeralda, o monstro

A história faz parangonas desde Dezembro de 2006. Nos primeiros meses de 2007, após a condenação por sequestro do sargento Luís Gomes a 6 anos de prisão e do pedido de habeas corpus a seu favor que recolheu mais de 10 mil assinaturas, já havia jornalistas a receber propostas para fazer “o livro do caso Esmeralda”. Menos de um ano e meio depois, sendo o destino da criança ainda uma incógnita, aí estão os frutos: a narrativa na primeira pessoa por Luís Gomes, escrita por Patrícia Silva, e uma análise/reportagem de Rita Marrafa de Carvalho e Margarida Neves de Sousa (“Esmeralda ou Ana Filipa – Dois nomes, dois pais”), ambos já à venda, tendo sido anunciado também, para fim de Junho, o livro de Baltazar Nunes, o pai biológico (que se chamará “Esmeralda-sim”), escrito pelo médico Cândido Ferreira. Talvez haja já alguém a preparar uma novela ou um filme.

É normal: Portugal está apenas a seguir uma tendência internacional, a da publicação de livros sobre casos polémicos. E a história da criança disputada na justiça por dois pais é um verdadeiro folhetim, embora por esta altura seja tal o imbróglio jurídico a ela associado que a maioria das pessoas há muito perdeu o fio à meada. Depois, folhetins precisam de bons e de maus, de alegrias e tragédias, paixões e ódios, e de enredos simples – e aqui as coisas não só estão muito longe de ser simples como os bons e os maus, enfim, têm dias. Às vezes, aliás, parece haver apenas menos maus, de tal modo a disputa e a guerra da visibilidade e da empatia sobreleva à questão essencial. Sendo óbvio que todos os adultos cometeram erros neste caso, uns mais graves que outros, um dos mais notórios será o actual estado de coisas: a tentativa, de um lado e de outro, de “ganhar” ou “manter” o troféu, e o mal que isso inevitavelmente faz à criança. Não valerá a pena – nem há para tal espaço – lembrar todos os factores que resultaram na actual situação. Poderemos pois ater-nos ao essencial: um progenitor biológico que apesar de avisado de uma gravidez de que seria co-responsável se recusa a demonstrar qualquer interesse pela criança – chegando ao ponto de em nada contribuir para a sua sobrevivência – até que esta faz um ano, quando por acção do Ministério Público é provada a paternidade; um casal que recebe, “para adopção” e à margem de qualquer enquadramento institucional, uma criança de três meses das mãos da respectiva mãe biológica. As razões de uns e de outro são talvez todas compreensíveis, até desculpáveis. Sucede que está em causa o destino de alguém que não tem qualquer responsabilidade nas acções e razões dos adultos, e a quem é neste momento imposta uma situação dilacerante: ter de, pelo seu comportamento e afectos, escolher com quem vai viver. Aos seis anos, uma criança tem capacidade para perceber que é alvo de uma disputa entre adultos – uma disputa de amor – e que todos estão suspensos dos seus humores e reacções. Nenhuma criança, por melhor fundo que tenha (seja lá isso, o “fundo”, o que for) resiste a fazer de tirana numa história como esta. Se responder mal a alguém, quem é que a castiga? Se fizer uma asneira, quem tem coragem de se zangar com ela? Se tiver um desejo, quem se atreve a não o concretizar? Estamos a ouvi-la: “Já não gosto de ti”. Todas as crianças o dizem -- mas aqui tem um significado diferente. Pode ser acrescentado de “gosto é do meu outro pai”. O jogo, claro, funciona para os dois lados, e tanto melhor quanto os adultos o estimularem, cumulando-a de atenções e presentes. É um jogo perverso, mas não foi ela, a criança a quem até o nome é cindido, que o criou. O monstro processual corre o risco de criar mais que uma imagem monstruosa da justiça -- pode fazer desta criança um monstro. Mas isso é outro livro, outro filme. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 25 de maio)

O segredo

Eu pensava - e ainda penso - que Passos Coelho criaria mais problemas ao governo do PS do que Ferreira Leite.

Desde logo, porque a emergência de um adversário genuinamente novo causa sempre alguma perturbação nos cálculos de quem governa. Mas também porque me parece que os temas escolhidos por Passos Coelho atacariam Sócrates num ponto mais relevante para as escolhas que o país tem que fazer.

Subsiste em Portugal um sério défice de competição na política, na cultura e na economia. Por isso, o liberalismo não-doutrinário tem muito de positivo a oferecer ao país, sobretudo nos tempos que aí vêm.

A solução escolhida por uma maioria de militantes do PSD não foi, porém, essa. É normal, tendo em conta a matriz ideológica dominante no partido.

Resta saber se funciona.

Na euforia do dia seguinte, partidários e comentadores supostamente independentes falam já de ganhar as eleições de 2009. Mas o que tem Ferreira Leite, ao certo, para oferecer?

O estilo distingue-se de Sócrates principalmente pela compostura. Pode não ser suficiente, mesmo tendo em conta que o país está a ficar farto das birras públicas do primeiro-ministro.

Acontece que, em épocas de pouca fé, a nostalgia é um produto que se vende bem. Acontece também que, desde que o défice desceu abaixo dos 3%, ninguém sabe qual é o desígnio que impele este governo.

Talvez seja altura de divulgar o segredo - pressupondo, é claro, que ele exista.

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