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jugular

Preocupante....

... por mais de um motivo a decisão do Tribunal Constitucional da Turquia que, e cito o Público (p.21), "anulou ontem uma reforma aprovada pelo Parlamento que permitia às estudantes usarem o véu muçulmano nas universidades.". Deixando de parte, para já, o risco claro deste tipo de decisões de potenciarem movimentos fundamentalistas radicais (porque os vitimizam), parece-me claro que - e isto é o que me apetece ressaltar - a proibição do véu é um tão claro desrespeito pelas liberdades individuais como a sua obrigatoriedade.

Ganhei um almoço

Garantiam-me há pedaço, em conversa, que o Acórdão da coutada do chamado «macho ibérico» não passava de um mito urbano-judicial.

Aposta feita, almoço ganho.

Trata-se de um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 18 de Outubro de 1989, publicado no BMJ nº 390, de Novembro de 1989, página 160 e seguintes. Passou-se no Algarve, em 28 de Setembro de 1988, na E.N. 125, à saída de Almansil, entre duas jugoslavas e dois nativos.

Reza assim, na parte interessante:
“... se é certo que se trata de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. Na verdade, não podemos esquecer que as duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia a quem passava, em plena coutada do chamado «macho ibérico». É impossível que não tenham previsto o risco que corriam; pois aqui, tal como no seu país natal, a atracção pelo sexo oposto é um dado indesmentível e, por vezes, não é fácil dominá-la. Assim, ao meterem-se as duas num automóvel justamente com dois rapazes, fizeram-no, a nosso ver, conscientes do perigo que corriam, até mesmo por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas. De resto, as duas ofendidas deviam já ser raparigas de comportamento sexual experiente e desinibido, pois vem provado que a S., perante a perspectiva de ser violada, optou por escolher um dos arguidos para o fazer e logo lhe «passou o braço por cima dos ombros». Por sua vez, a U. rapidamente deixou de oferecer resistência à violação e, no fim, até elogiou a forma e o ardor viril com que o seu violador tinha com ela copulado.”

Os jovens e os media

Rita Espanha, co-autora do estudo mencionado no meu post “Pobres com televisão no quarto das crianças”, teve a amabilidade de deixar o seguinte comentário na caixa correspondente:
Caro João Pinto e Castro,

Apenas gostaria de o esclarecer que o estudo citado no público está disponível on-line em: http://cies.iscte.pt/destaques/documents/E-Generation.pdf . Se o consultar, e se efectivamente o ler, poderá concluir que:

1. o estudo foi realizado a partir de uma amostra representativa da população portuguesa, em 2006, por questionário presencial, e, portanto, a utilizadores e não utilizadores da internet.

2. O questionário on-line que refere no seu post foi realizado paralelamente com o objectivo de testar metodologias, mas os resultados apresentados decorrem do questionário presencial.

3. O estudo está disponível pelo que foi consultado livremente e citado também livremente pelos jornalistas que realizaram a peça, a mim apenas foram solicitados comentários.

Não hesite em contactar-me caso continuem a surgir-lhe dúvidas a propósito de projectos em que eu esteja envolvida.

Relendo o estudo disponível online, confirmei que a afirmação seleccionada pelo Público para o seu título se encontra na página 125 e que se refere, como escrevi, ao “questionário online”, embora eu não tenha conseguido identificar a tabela de onde a estatística foi extraída.

Na secção relativa ao “inquérito nacional” aplicado a uma amostra representativa por questionário directo (página 129 e seguintes) não encontrei nada sobre a proporção de jovens com televisão no quarto.

Julguei ter ficado claro que o meu post não pretendia criticar o estudo “E-generation”, nem sequer a realização de inquéritos através da internet, tanto mais que as limitações decorrentes dessa opção são indicadas com clareza na página 30. Acho muito importante que se estude a relação entre os jovens e os media, e felicito os autores pelo trabalho que fizeram.

O que eu critico é o jornalismo preguiçoso, mesquinho e preconceituoso que, nas quatrocentas e tal páginas do estudo, não encontrou nada mais interessante para colocar no título do que a frase citada, sem sequer se dar ao cuidado de entender o seu enquadramento metodológico.

o preto deslavado

Aconteceu em 2008, numa escola da zona de Lisboa. Numa discussão entre um jovem de 13 anos e uma professora, esta chamou-lhe "preto deslavado". A mãe foi pedir explicações ao director da turma. Este desfez-se em desculpas e não houve queixa formal. Não foi a primeira vez que a mãe do rapaz se confrontou com o racismo mais descomplexado. Periodicamente, é mandada para a terra dela - ela, que nasceu aqui há 35 anos. Às vezes responde, outras encolhe os ombros. Mas não usa isso como desculpa para desistir ou para se encostar: "Aos que dizem que para os pretos não há hipótese, que não vale a pena esforçarmo-nos, respondo sempre que o deus é o mesmo para todos e que nada cai do céu, nem para brancos nem para pretos."

É certo - mas é certo também que no retrato de família das elites portuguesas, a ausência de diversidade, digamos, cromática não deixa de acalentar a perspectiva derrotista dos que falam em "tectos de vidro", as barreiras invisíveis que impedem a progressão de certos grupos na escala social. Tectos que se sustentam tanto nas condicionantes externas como na atitude de quem deles se sente vítima - a tal atitude de quem se condiciona à partida, e se certifica, na ausência de exemplos positivos, da impossibilidade de os atravessar. Não é fácil, claro, perceber por que razão não temos mais negros entre as elites políticas, culturais e económicas do país. Por que motivo não há um único pivot negro na TV portuguesa, por que há apenas um negro no parlamento (Hélder Amaral, do PP), por que há tão poucos jornalistas e comentadores negros, ou, mais prosaicamente, por que razão um grupo de negros num centro comercial sobressalta os seguranças. Mas, uma semana depois de uma mulher chegar enfim à liderança de um dos dois grandes partidos portugueses, um filho de um queniano perfila-se como candidato democrata à presidência dos EUA. Goste-se ou não de Barack Obama e de Manuela Ferreira Leite, este é um momento para celebrar. Porque prova que é possível, porque derruba preconceitos e combate estereótipos e porque mostra que o tecto de vidro pode estilhaçar-se. Não impede, claro, que tanta gente continue a achar que "o lugar das mulheres é em casa" ou que "os pretos devem ir para a terra deles", ou que uma professora faça uma piada insultuosa sobre a cor da pele de um aluno. Mas permite que o aluno possa perguntar à professora se não quer chamar isso ao homem que pode vir a ser o próximo presidente dos EUA. Daquela que costuma ser descrita como a mais poderosa nação do mundo - e que, por acaso, é também um dos lugares onde o racismo é mais discutido e denunciado, e onde os movimentos de emancipação étnica e de género são mais assertivos e vigilantes. Nos EUA, esta professora dar-se-ia muito mal (como se dariam os que usam, para referir Ferreira Leite, epítetos relacionados com o seu aspecto físico). E doravante, dar-se-ão também mal os que vivem de desculpas e ressentimento, os que repetem "para os pretos não há hipótese": Obama conseguiu. Pode não mudar mais nada, mas isso já mudou. (publicado hoje no dn)

Ganhei um almoço

Garantiam-me há pedaço, em conversa, que o Acórdão da coutada do chamado «macho ibérico» não passava de um mito urbano-judicial.

Aposta feita, almoço ganho.

Trata-se de um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 18 de Outubro de 1989, publicado no BMJ nº 390, de Novembro de 1989, página 160 e seguintes. Passou-se no Algarve, em 28 de Setembro de 1988, na E.N. 125, à saída de Almansil, entre duas jugoslavas e dois nativos.

Reza assim, na parte interessante:

“… se é certo que se trata de crimes repugnantes que não têm qualquer justificação, a verdade é que, no caso concreto, as duas ofendidas muito contribuíram para a sua realização. Na verdade, não podemos esquecer que as duas ofendidas, raparigas novas, mas mulheres feitas, não hesitaram em vir para a estrada pedir boleia a quem passava, em plena coutada do chamado «macho ibérico». É impossível que não tenham previsto o risco que corriam; pois aqui, tal como no seu país natal, a atracção pelo sexo oposto é um dado indesmentível e, por vezes, não é fácil dominá-la. Assim, ao meterem-se as duas num automóvel justamente com dois rapazes, fizeram-no, a nosso ver, conscientes do perigo que corriam, até mesmo por estarem numa zona de turismo de fama internacional, onde abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que a maioria das nativas. De resto, as duas ofendidas deviam já ser raparigas de comportamento sexual experiente e desinibido, pois vem provado que a S., perante a perspectiva de ser violada, optou por escolher um dos arguidos para o fazer e logo lhe «passou o braço por cima dos ombros». Por sua vez, a U. rapidamente deixou de oferecer resistência à violação e, no fim, até elogiou a forma e o ardor viril com que o seu violador tinha com ela copulado.”

Mimesis

Posso estar a forçar uma interpretação, mas, ou muito me engano ou o Pedro Picoito parece querer mostrar que a genialidade decadente de Amy Whinehouse é uma espécie de corolário da revolta moderna contra Deus; e, com isso, implicitamente, credibilizar a posição—conservadora— que a antecedeu. Mas a ideia de que no final do sec xviii o romantismo consagrou o génio criador e que este "já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade. A sua autodestruição é o preço por nos dar mundos novos e interditos. O fogo do génio queima aqueles que se revoltam contra a condição de mortais. A única verdadeira inovação do século XX é o crescimento do mercado da imortalidade, com os media e a cultura de massas", parece-me uma visão algo redutora e parcial da arte pós-romântica. A ideia de Génio, como alguém que substituiu Deus enquanto entidade criadora única, não tem de redundar numa apoteose subjectivista. A crítica a interpretações puramente subjectivistas, em que o acto criador se sobrepõe ao significado e ao valor do produto criado—engendrando uma espécie de fetishismo idólatra do artista—não é propriedade única de posições conservadoras (tementes a Deus ou outra ordem qualquer que nos proteja da demência humana); essa crítica já foi feita, sem, no entanto se rejeitar a revolta anti-dogmática operada pelos românticos, como parece ser a intenção de Pedro Picoito.

Obama

""Obama é uma doença infantil pateticamente alimentada pela "esperança messiânica" da esquerda europeia, ainda mais infantil uma vez que o homem pouco tem de esquerda." É esta a tese dos lúcidos de serviço que nos querem proteger das nossas ilusões. Nada mais paternalista. Eles já perceberam que apoiar Obama obriga à ingenuidade de julgar que a Realpolitik americana se vai dissolver no ar; à ingenuidade de acreditar que se vão afrontar os interesses económicos instalados nos Estados Unidos; à ingenuidade de presumir que acabará o apoio militar a Israel; à ingenuidade de ver a retirada do Iraque como o toque de midas que trará hamonia à colónia. Na verdade, ingénuo é quem assim reputa os outros porque capazes de algum entusiasmo. O facto é que basta ouvir Obama falar de política internacional, da importância de saber dialogar com os inimigos (sim, como o Mário Soares), da importância do multilateralismo (leiam as declarações dele sobre o Irão), da importância de tirar a religião da política, da importância de se acabar com chantagem do patriotismo e da insegurança, etc. para se chegar à brilhante conclusão que depois de Bush não é preciso um messias para fazer toda a diferença. Sim, a eventual eleição de Obama carrega vastas esperanças após 8 anos indecorosos de política americana. So what?" Bruno Sena Martins, Avatares de um Desejo

Pobres com televisão no quarto das crianças

O jornal Público de ontem inseriu na sua página 10 um artigo intitulado: "60 por cento das crianças e jovens têm televisão no quarto". Estranho num país com tanta pobreza, não é verdade?

Curiosamente, no mesmo dia, o economista Nogueira Leite dizia ter dificuldade em perceber como pode haver tantos pobres num país onde tanta gente declara possuir segunda habitação.

Mas será verdadeira a notícia do Público? Pois é...

Procurei através do Google o estudo de Rita Espanha e Tiago Lapa citado pelo Público, e lá fiquei a saber que a amostra foi exclusivamente constituída por jovens com acesso à internet.

Logo, para ser verdadeiro, o título do Público deveria antes ser: "60 por cento das crianças e jovens com internet em casa têm televisão no quarto". Isto, partindo do princípio de que a amostra utilizada foi aleatória, o que, pelo que li, não me pareceu.

Faz a sua diferença, não faz?

PS - Se investigar um bocadinho, o Professor Nogueira Leite vai concluir que boa parte (se não a maioria) das chamadas segundas habitações que adornam o país são, na realidade, barracas.

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