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jugular

A eles, a eles!

No sentido rigoroso do termo, não há instalações nucleares iranianas. Até que uma central nuclear entre em funcionamento, demorará muitos anos. Acresce que, segundo a CIA, os planos iranianos de construção de armas atómicas foram abandonados há cinco anos. Mas talvez o Tiago saiba sobre este assunto algo que eu desconheço.

sequestro dos senhorios, take 2

a propósito do artigo que escrevi para o dn e postado aqui, assim como dos comentários que suscitou, nomeadamente aqueles que fazem referência ao direito à habitação consignado na constituição (mesmo que não se lhe refiram nestes termos), baseando-se nisso para postular sobre a ilegitimidade da actividade dos senhorios e sobre o absoluto direito dos inquilinos às casas que ocupam, apetece-me acrescentar algumas considerações que, de resto, só não coloquei no artigo em questão por falta de espaço.

encontrando-me a efectuar uma série de documentários sobre bairros ditos problemáticos (também conhecidos como 'os documentários contra o psd'), tenho passado os dois últimos meses em vários bairros sociais, ou seja, de realojamento. como toda a gente sabe, estes bairros foram construídos para alojar pessoas que se encontravam em habitações consideradas não condignas e são designados como 'de custo controlado'. as rendas fixadas baseiam-se sempre nos rendimentos dos agregados. no último bairro em que estive, no algarve, ocupado em 1996 e onde o rendimento médio é de 400 euros, a renda média é de 50 euros. mas há rendas de 100 e tal e 200 e tal euros nestes bairros. apesar de visarem, precisamente, assegurar o tal direito à habitação e serem construídos pelo estado, os bairros possuem há muito um nível de rendas indexado ao rendimento dos habitantes. uma fórmula que o estado negou aos senhorios privados até à lei actual, e que mesmo nesta lei tem restrições escandalosas, nomeadamente as relacionadas com a idade dos inquilinos. assim, à desigualdade absurda entre senhorios e mesmo entre inquilinos ocasionada por décadas de congelamento de rendas -- e que cria situações em que no mesmo prédio, por casas idênticas, um paga 10 euros e o outro mil, sem que haja outro motivo para isso senão a data do arrendamento e não se vislumbre qualquer efeito de 'justiça social', antes pelo contrário -- adiciona-se este extraordinário facto: as casas construídas para as pessoas que viviam em barracas e portanto devem ser pessoas com grandes dificuldades económicas podem ter rendas mais altas que as ocupadas por pessoas que há 40 anos foram viver para uma casa com uma renda média ou mesmo elevada (o que significa que tinham posses para tal) e receberam de salazar e depois do estado democrático a fabulosa benesse de uma renda congelada. há coisas fantásticas. e que duram, duram.       

same old, same old

as mesmas, mesmíssimas palavras, a mesma, mesmíssima promessa, a mesma, mesmíssima ficção. tudo o mesmo, e no entanto nada. amo-te, só penso em ti, só te quero a ti. passas a vida a querer ouvir isto -- tu e toda a gente. não inventas nada. só um rosto e uma voz para a cena, porém. um rosto e uma voz que não encontraste ainda ou que já conheces. só aquele. nenhum outro para o papel, nenhum outro para o fulgor. assim meses, anos, até que um dia muda, e tu não sabes porquê, não percebes, talvez nem queiras, talvez resistas, mas um dia já não queres ouvir nem dizer. perguntar-te-ão mil, milhões de vezes o que tu te perguntas -- por que desapareceu, que era que desapareceu, onde está. não sabes dizer, não tens resposta, escutas o teu coração, tentas ouvi-lo como quem tenta ouvir deus, pedes um sinal, uma palavra, qualquer coisa. não virá daí luz, nenhuma luz. aprende comigo: nunca saberás porquê. nunca terás respostas e muito menos 'a resposta'. é assim porque é assim, é assim como tudo é porque é. podes depois fazer contas e atribuir culpas e méritos, fazer colunas, longas colunas de deve e haver. mas não chegarás a nada, nenhuma iluminação. podes até dizer: se deixou de ser nunca foi. porque qualquer coisa assim tão intensa que se esvai sem aviso, sem notificação, não pode ter sido. inventaste tudo. enganaste-te. foi mentira. foi, foi mentira. não, nunca houve. não, nunca foi, nunca foste, nunca foram. inventa outra vez, inventa razões, motivos, enganos, traições. talvez nem tenhas de os inventar, talvez tenha havido isso tudo. e a outra coisa. sei isto, aprende comigo: nunca te habituas ao fim dessa coisa que nem sabes bem o que é. nunca te conformas nem resignas, mas vives com isso. vive com isso.

católicos automáticos

Um estudo internacional concluiu que dois terços dos portugueses consideram a confissão católica como parte integrante da identidade nacional. É assim a modos que a proclamação, por referendo, da existência de uma religião oficial. Parece que na União Europeia Portugal só estaria, no reconhecimento desta dimentão identitária da religião, com a Polónia e a Bulgária (nem mesmo nos países europeus com religião oficial, como é o caso da Irlanda ou do Reino Unido, a população confunde assim nacionalidade e religião). Curiosamente, na semana em que a existência deste estudo, relativo a 2003, foi divulgada, o Expresso fazia primeira página com o facto de a diocese de Lisboa ter perdido, entre 2001 e a actualidade, cerca de metade dos seus praticantes nas missas dominicais. Parece que em 2001 essas celebrações teriam o concurso de 200 mil pessoas (cerca de 10% da população abrangida pela dita diocese, ou seja, 2 milhões), agora terão 100 mil.

Aliás, semanas antes, um documento do cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, além de fazer um aviso -- “Antes de mais, a Igreja tem de assumir claramente que não coincide com a sociedade, embora, entre nós, o elevado número de baptizados não praticantes ou, porventura, não crentes, possa ainda alimentar essa confusão” --, revelava o resultado “preocupante” de “um inquérito feito à diocese” (aos católicos ditos praticantes, portanto): “Embora muitos cristãos declarem ter a Bíblia em casa, são poucos os que a lêem frequentemente; na Liturgia a proclamação da Palavra é uma parte do rito, e nem sempre tem a densidade de uma escuta do Senhor”. Constatação evidente para qualquer visitante ocasional de uma missa: o automatismo do ritual, do levantar, do sentar, do ajoelhar, as frases repetidas em rostos vazios, a ausência de sentimento. “Uma Igreja onde os cristãos não rezam, não é a Igreja que Deus quer e torna-se incapaz de ser sinal de esperança no mundo de hoje”, conclui o patriarca. Parecemos pois estar face a um paradoxo: um alto responsável da confissão que assume uma crise – tanto de quantidade como, digamos, de qualidade de crentes – e um inquérito em que quase 70% dos portugueses assumem o catolicismo como integrante da sua identidade portuguesa (sendo que serão, de acordo com os dados conhecidos, cerca de 90% os que se assumem católicos). A chave que permite desvendar a aparente contradição está, no entanto, à frente dos nossos olhos: afinal, é a dimensão da adesão que traduz a sua ausência de significado. Num país em que há um crucifixo na maioria das salas de aula das escolas públicas do primeiro ciclo; em que os canais abertos de TV transmitem em directo a procissão de Fátima; em que as inaugurações de obras públicas incluem benzedura; em que a morte de uma freira decreta de luto nacional; em que há um bispo das forças armadas; em que padres são funcionários do ministério da Saúde com o monopólio da assistência religiosa nos hospitais; e em que o cardeal patriarca é sistematicamente convidado para cerimónias oficiais e colocado num lugar equivalente ao do presidente da República, é mais que natural que se confunda ser português com ser católico. Mas ser católico, nessa acepção, será exactamente o quê? José Policarpo parece ter uma resposta: “Este Deus ‘inútil’ daqueles que, mesmo admitindo que Ele existe, vivem como se não existisse, é um estádio da evolução cultural mais grave do que o ateísmo racional e militante.” Esta lucidez do cardeal não o impede de, noutra parte do mesmo documento, elencar “o número de fiéis” como um dos motivos para que o Estado reconheça a especial relevância da sua igreja. Há muitos tipos de automatismos, afinal. E esperar o fim de alguns deles seria mesmo pedir um milagre. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 22 de junho)

Educação, literacia científica, facilitismo e outras coisas

Não sei se têm reparado mas nos últimos dias tem andado a decorrer uma discussão interessante sobre educação em alguns blogs da nossa praça, mais propriamente no Goodnight Moon do João Jesus Caetano (procurem os post "euLER" e "Literacia Científica") e no Pensamento do meio-dia do Hugo Mendes e do Renato Carmo (em especial o post "O discurso do «facilitismo», ou o ataque ideológico à escola pública"). Hoje, numa caixa de comentários à crónica do Vasco Barreto do Metro que tinha postado no meu antro de origem, surgiram dúvidas ao Luís Pedro (que acabou por as transformar em post no Rabbit's Blog), que deram origem a uma réplica do Hugo Mendes, clarificando alguns dos dados que tinha apresentado anteriormente e que contrariam certas ideias feitas sobre o ensino português. Espero que não se percam no emaranhado de links, podia ter feito uma súmula da discussão para facilitar a vida a quem aqui chegar mas parece-me que o assunto é importante demais para que se percam dados a fazer papinhas. Todos os posts que linkei, e respectivas caixas de comentários, merecem leitura e reflexões atentas.

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