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católicos automáticos

Um estudo internacional concluiu que dois terços dos portugueses consideram a confissão católica como parte integrante da identidade nacional. É assim a modos que a proclamação, por referendo, da existência de uma religião oficial. Parece que na União Europeia Portugal só estaria, no reconhecimento desta dimentão identitária da religião, com a Polónia e a Bulgária (nem mesmo nos países europeus com religião oficial, como é o caso da Irlanda ou do Reino Unido, a população confunde assim nacionalidade e religião). Curiosamente, na semana em que a existência deste estudo, relativo a 2003, foi divulgada, o Expresso fazia primeira página com o facto de a diocese de Lisboa ter perdido, entre 2001 e a actualidade, cerca de metade dos seus praticantes nas missas dominicais. Parece que em 2001 essas celebrações teriam o concurso de 200 mil pessoas (cerca de 10% da população abrangida pela dita diocese, ou seja, 2 milhões), agora terão 100 mil.

Aliás, semanas antes, um documento do cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, além de fazer um aviso -- “Antes de mais, a Igreja tem de assumir claramente que não coincide com a sociedade, embora, entre nós, o elevado número de baptizados não praticantes ou, porventura, não crentes, possa ainda alimentar essa confusão” --, revelava o resultado “preocupante” de “um inquérito feito à diocese” (aos católicos ditos praticantes, portanto): “Embora muitos cristãos declarem ter a Bíblia em casa, são poucos os que a lêem frequentemente; na Liturgia a proclamação da Palavra é uma parte do rito, e nem sempre tem a densidade de uma escuta do Senhor”. Constatação evidente para qualquer visitante ocasional de uma missa: o automatismo do ritual, do levantar, do sentar, do ajoelhar, as frases repetidas em rostos vazios, a ausência de sentimento. “Uma Igreja onde os cristãos não rezam, não é a Igreja que Deus quer e torna-se incapaz de ser sinal de esperança no mundo de hoje”, conclui o patriarca. Parecemos pois estar face a um paradoxo: um alto responsável da confissão que assume uma crise – tanto de quantidade como, digamos, de qualidade de crentes – e um inquérito em que quase 70% dos portugueses assumem o catolicismo como integrante da sua identidade portuguesa (sendo que serão, de acordo com os dados conhecidos, cerca de 90% os que se assumem católicos). A chave que permite desvendar a aparente contradição está, no entanto, à frente dos nossos olhos: afinal, é a dimensão da adesão que traduz a sua ausência de significado. Num país em que há um crucifixo na maioria das salas de aula das escolas públicas do primeiro ciclo; em que os canais abertos de TV transmitem em directo a procissão de Fátima; em que as inaugurações de obras públicas incluem benzedura; em que a morte de uma freira decreta de luto nacional; em que há um bispo das forças armadas; em que padres são funcionários do ministério da Saúde com o monopólio da assistência religiosa nos hospitais; e em que o cardeal patriarca é sistematicamente convidado para cerimónias oficiais e colocado num lugar equivalente ao do presidente da República, é mais que natural que se confunda ser português com ser católico. Mas ser católico, nessa acepção, será exactamente o quê? José Policarpo parece ter uma resposta: “Este Deus ‘inútil’ daqueles que, mesmo admitindo que Ele existe, vivem como se não existisse, é um estádio da evolução cultural mais grave do que o ateísmo racional e militante.” Esta lucidez do cardeal não o impede de, noutra parte do mesmo documento, elencar “o número de fiéis” como um dos motivos para que o Estado reconheça a especial relevância da sua igreja. Há muitos tipos de automatismos, afinal. E esperar o fim de alguns deles seria mesmo pedir um milagre. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 22 de junho)

Educação, literacia científica, facilitismo e outras coisas

Não sei se têm reparado mas nos últimos dias tem andado a decorrer uma discussão interessante sobre educação em alguns blogs da nossa praça, mais propriamente no Goodnight Moon do João Jesus Caetano (procurem os post "euLER" e "Literacia Científica") e no Pensamento do meio-dia do Hugo Mendes e do Renato Carmo (em especial o post "O discurso do «facilitismo», ou o ataque ideológico à escola pública"). Hoje, numa caixa de comentários à crónica do Vasco Barreto do Metro que tinha postado no meu antro de origem, surgiram dúvidas ao Luís Pedro (que acabou por as transformar em post no Rabbit's Blog), que deram origem a uma réplica do Hugo Mendes, clarificando alguns dos dados que tinha apresentado anteriormente e que contrariam certas ideias feitas sobre o ensino português. Espero que não se percam no emaranhado de links, podia ter feito uma súmula da discussão para facilitar a vida a quem aqui chegar mas parece-me que o assunto é importante demais para que se percam dados a fazer papinhas. Todos os posts que linkei, e respectivas caixas de comentários, merecem leitura e reflexões atentas.

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