No Portugal Contemporâneo alguém chamado Joaquim resolveu defender o ensino do criacionismo a par com o evolucionismo. Depois de debitar uma série abissal de dislates, este Joaquim iluminado pelos raios Palin sugere que a necessidade de equiparação curricular de mitologia e ciência tem também a ver com o «horror da esquerda ao ensino do criacionismo» porque «este transmite valores, deveres e responsabilidades». Pensava eu na minha inocência que o ensino de ciência deve ser neutro, factual e transmitir aos alunos modelos naturais de explicação de fenómenos também naturais. Aparentemente ando enganada há uns anos largos porque nas minhas aulas devia não preencher um vazio de conhecimento científico mas sim estetoutro anímico.
Bagdad faz lembrar Lisboa. Era o que dizia um notório jornalista americano de origem inglesa, Cristopher Hitchens, na edição de Outubro da Vanity Fair. O que assim o inspirava não seria decerto a arquitectura nem a luz nem o desenho dos rostos, nem sequer o fatalismo. Não: Bagdad, o Iraque, lembram-lhe a Lisboa e o Portugal pós-25 de Abril. O caos da liberdade por estrear, a aprendizagem dos novos códigos, o despertar de mil e um partidos, a descoberta de um país outro, secreto, efervescente. Um país revelado na urgência das conversas, no desespero das confissões, na tortura da esperança. E neste tombar dos tabus que aqui como na Lisboa de1974 carreia multidões para cinemas onde as montras acenam corpos rasurados em acrescentos naïf, aqui uns seios cobertosa riscos azuis, ali umas coxas quadriculadas a escarlate. Como se uma criança municiada de canetas de feltro se tivesse assim esmerado, exponenciando o apelo à medidado paradoxo, num hiper-irónico strip-tease de pudor. Quase uma intervenção de arte contemporânea.
Não sei se era assim em Lisboa, mas duvido – e decerto não seria, mesmo no calor mais brasa do Verão bombista de 75 ou na histeria paroquial que nos oitentas acolheu o iconoclasta Je vous salue Marie de Jean Luc Godard, como aqui o chorrilho de ameaças que sobre estas “indecências” se abate. Ramid Al-Alzaya, 35 anos, dono do cinema Al Sadoun, na rua do mesmo nome, já teve deparar uns tempos com os pulposos reclames e a não menos escandalosa sessão das duas em que, garante o meu guia, as mãos dos espectadores seguem ritmadas a acção, hoje protagonizada por uma Sónia Braga impossivelmente nova e previsivelmente livre de preconceitos. “Só voltei a passar estesfilmeshá duas semanas, parei durante dois meses por causa das ameaças de bomba.” Papéis colados na porta, avisos sem assinatura. Mas Ramid não tem dúvidas: “São os grupos religiosos.”
Mesmo com revistas mais ou menos completas à entrada e dois guarda-costas, um dos quais a garantir que nos últimos tempos, sinal da escalada de violência na cidade, o número de armas apreendidas tem aumentado, Ramid e o seu cinema surgem como alvos fáceis — qualquer carro armadilhado, na mais pura tradição destas bandas, arrebanhará de uma assentada o comerciante de imagens e as transviadas ovelhas mais a evidência do pecado, emprestando um novo significado à expressão “bomba sexual”. Mas contra o mural de Schwarzie, confortado pelos músculos do exterminador-governador da Califórnia, Ramid faz peito ao momento. “Não, não tenho medo. Embora saiba que estas ameaças são para levar a sério. Mas é o meu trabalho, vivo disto. E as pessoas querem ver estes filmes.” As pessoas, quer dizer, emenda ele, os homens. As mulheres não vêm aqui porque, explica, “têm medo de ser atacadas”. Num país no qual um ombro é cena eventualmente chocante, onde grande parte das representantes do sexo feminino se cobrem de véus negros dos pés à cabeça e todas, mesmo as estrangeiras, se obrigam a trajes “modestos” sob pena de desacato — diz a Organização de Libertação das Mulheres Iraquianas que nos últimos meses as violações e os raptos têm sido às centenas —, difícil imaginar uma mulher a franquear estas portas por outra razão que não a que aqui me trouxe. Mas, mesmo que tal suceda, não iria longe: os mil dinares da entrada só se cobram a machos adultos. Fêmeas, crianças e jovens, garante, estão fora. É assim que Ramid, ele que afirma desprezar este “tipo de filmes”, exibindo-os apenas em mando da economia de mercado, honra as suas obrigações morais: “Sou religioso. Muçulmano, claro.”
Não há nada de claro ou sequer de evidente nisso. Não só existem no Iraque adeptos de outros deuses, como os cristãos, com os seus templos próprios — havia até um cardeal católico, morto durante a guerra (mas não por causa dela) — como há até ateus, embora seja quase um crime admiti-lo, quanto mais proclamá-lo. E seja como for Ramid já tem problemas que lhe cheguem. Além dos fundamentalistas e das suas juras de sangue, dos dilemas morais e do clima geral de insegurança, há as parabólicas que como marcos extraterrestres juncam os passeios, numa oferenda à desenlaçada curiosidade de um povo que viveu décadas de black-out. Quanto tempo até que os iraquianos se fartem dos sex movies, quanto tempo até que percebam que pernas e mamas se servem à farta nos canais do mundo? Quanto tempo até que nas ruas os véus dêem lugar a outras paisagens e as mulheres recuperem o direito à mini-saia, perdido desde que, nos seus últimos dez anos, Saddam se dedicou a flirtar com o fundamentalismo religioso?
O dono da salaAl-Sadoun abana a cabeça. “Isto não vai durar, é assim em todo o lado. Sempre o mesmo: primeiro um grande entusiasmo com o que não se conhece, com o que nunca se viu, e depois as pessoas fartam-se.” Passada então esta fase de educação acelerada para o sexo, poderá fazer o gosto ao olho e passar os seus favoritos. Filmes de acção, evidentemente, ou não fosse Arnold o herói escolhido para abrilhantar a sala, um Arnold que na sua pose bélica, de metralhadora em punho e rosto de cyborg, surge como repto tão— ou mais — perigoso a alguns sectores desta sociedade como as mulheres semi-nuas que o ladeiam. Um all-american Arnold que aqui, nesta Bagdad transformada em filme de acção, não podia estar mais em casa. “É, temos armas, tanques, ladrões, explosões, tiros, perseguições, tudo”, comenta Ramid, risonho. “Só falta uma coisa: saber onde andam os bons”. Dentro da pequena bilheteira que lhe serve de sala de visitas, o empresário fica sério. “Devem estar em algum lado. Não sei é onde.”
What if it works? (“E se resultar?”), perguntava Christopher Hitchens no final do seu artigo sobre o Iraque ocupado, ele que o conheceu antes e sabe aferir das diferenças, dosear o seu paradigmático cepticismo face ao milagre da liberdade. Ninguém sabe realmente responder a essa pergunta, sobretudo agora, que não passa um dia sem uma baixa no exército ocupante e até aosportugueses já couberam estilhaços do conflito. Mas seja o que for o futuro, este momento em que o medo foi menos forte que a liberdade aconteceu. E Ramid Al-Alzaya, o homem que passa filmes eróticos, foi um dos seus improváveis heróis.
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Não, o novo Iraque não passa só por bandidagem, atentados suicidas, guerras santas e a já clássica incursão pelo porno e outras áreas ditas “desviantes”, como a prostituição, o álcool e demais substâncias estupefaccientes e psicotrópicas. As leis de um mercado aberto, sem restrições ideológicas, também se sentem nas matérias consideradas mais nobres, como os livros. Na feira dos ditos que ocorre todas as sextas à rua Mutanabi, na zona mais antiga de Bagdad, pode agora, como reitera o feirante Muhy Hidon, “vender-se de tudo: livros de religião, sobre comunismo, romances eróticos…” É uma das grandes conquistas da liberdade, diz este homem expressivo, de 51 anos, em tempos empregado num centro de computadores e a viver disto desde que esse emprego se foi.
Na sua banca — um pano estendido no chão com um amontoado de coisas de ler — há desde revistas Time sortidas, uma delas com George W. Bush na capa, a tratados sobre o xiita Khomeini, passando por romances alemães e indecifráveis volumes árabes. Não vende mapas nem posters de mártires e homens santos, como muitos dos seus concorrentes, que amontoam Al-Hakims (líder xiita assassinado em Najaf, a 28 de Agosto) ao lado dos rostos e corpos pulposos das protagonistas de revistas eróticas como se tal heresia não lhes pudesse, nestes tempos exacerbados, valer uma facada ou um tiro na cabeça. O facto é que nesta rua particularmente suja — e sujíssimo aqui é um superlativo sem grande significado — entre esta multidão que se cruza lenta ao ritmo do chão e das suas oferendas, é inevitável esquecer que se está no centro de uma guerra, de um país ocupado. É inevitável perceber que longe do estereótipo nauseante, histérico, dos telejornais de bombas e escaramuças, longe do país de gente ignara e alienígena das ideias feitas, é outro que aqui, como nas galerias de arte, nos claros cafés onde se reunem pensadores ou nas universidades, se revela.
Um país perigoso, claro, onde se pode morrer só por estar no sítio errado na hora errada, para expiar culpas alheias ou as próprias (talvez, como diz outro duro de Hollywood, não Schwarzenegger mas Eastwood, não haja inocentes, nesta como em nenhuma história).
Um país paradoxal, onde um pintor como Waleed Sheet, considerado um dos melhores contemporâneos iraquianos, pode dizer que tanto lhe faz, Saddam, a América ou outra coisa qualquer, desde que os pincéis e as tintas à venda sejam de qualidade, ele possa pintar e haja quem compre o seu trabalho a preços decentes. Porque, garante ele, o importante para o artista é a liberdade criativa, e mesmo com Saddam ele sentia-se livre de criar — tão livre que tinha murais nos aeroportos, e uma ala só para si no museu de Arte Contemporânea. “Não éramos perseguidos como artistas, embora não pudéssemos dizer o que pensávamos. Quando pinto faço o que quero e não me ralo.” Outros pensaram de modo diferente, concede, e estão agora de volta. “Encavalitados nos tanques”, comenta outro artista, o dono da galeria Hiwar, que em árabe significa “diálogo”, e que convocou uma reunião de compadres para discutir o assunto: neste país de mil guerras trava-se agora também mais esta, entre os artistas que ficaram e os que saíram, os que carregam a tarja de colaboracionistas e os que se exilaram, mesmo se este, Sheet, confessa ter estado preso por ter dito duas frases. “Duas frases!”, repete, a rir. “Toda a gente pensou que não voltava.”
Não, não é fácil entender este país. E, no entanto, às vezes é evidente, como quando Hidon interpela o mundo. “Não, os americanos não podem sair, têm de ficar, com as Nações Unidas. Precisamos de todos. Só podem partir quando a situação ficar estável, quando tivermos partidos organizados e eleições livres.”Atrás dos finos óculos o olhar inteligente brilha mais: “Esse vai ser um grande dia para mim, talvez o melhor da minha vida.”
Assentes todos os crimes, expiadas todas as faltas, essa seria a mais obscena: falhar esta esperança.
No Portugal Contemporâneo alguém chamado Joaquim resolveu defender o ensino do criacionismo a par com o evolucionismo. Depois de debitar uma série abissal de dislates, este Joaquim iluminado pelos raios Palin sugere que a necessidade de equiparação curricular de mitologia e ciência tem também a ver com o «horror da esquerda ao ensino do criacionismo» porque «este transmite valores, deveres e responsabilidades». Pensava eu na minha inocência que o ensino de ciência deve ser neutro, factual e transmitir aos alunos modelos naturais de explicação de fenómenos também naturais. Aparentemente ando enganada há uns anos largos porque nas minhas aulas devia não preencher um vazio de conhecimento científico mas sim estetoutro anímico. Há muito que constato que a maioria dos fundamentalistas religiosos é imune à racionalidade mas devo confessar que nunca ouvi um argumento tão absurdo em defesa das fantasias criacionistas. Não sei se a seguir ouviremos a defesa do geocentrismo não só por a imensidão do Cosmos e a insignificância da Terra nos deixar «um vazio fenomenal» mas também por a cosmofísica ser «ciência de esquerda».
Quiçá este Joaquim recomende como manual de biologia os «Anais do Mundo» de James Ussher, arcebispo de Armagh, um calhamaço de mais de 1600 páginas subintitulado «A Origem do Tempo, e a Continuação para o Início do Reino do Imperador Vespasiano e a Destruição e Abolição Total do Templo e da Comunidade dos Judeus». Esta obra indispensável a qualquer criacionista devota-se à cronologia bíblica e «calcula» que a criação aconteceu no domingo 23 de Outubro 4004 a.C - e a expulsão do «paraíso» menos de um mês depois, a 10 de Novembro. Espero com um frémito de antecipação a comemoração dos pouco mais de 6000 anos de criação do Universo que tão iluminado blog certamente fará dentro de pouco mais de um mês... Poderia elaborar um pouco mais sobre o tema, mas para bem do livre arbítrio do senhor embora a penas de destruir o maniqueísmo esquerda-direita que lhe mantém a sanidade da alma, deixo-lhe o nome de Steve Fuller, um «esquerdista» defensor do ensino do criacionismo em roupagem de desenho inteligente. A posição cretina de Fuller sobre DI e evolução foi passada a livro, «Science Vs Religion?: Intelligent Design and the Problem of Evolution», um monte de dislates fátuos, ou antes «um pedaço de trabalho verdadeiramente miserável, cheio de erros científicos, históricos e mesmo teológicos», como foi descrito no artigo «The Painful Elaboration of the Fatuous, Norman Levitt Deconstructs Steve Fuller’s Postmodernist Critique of Evolution» por outro «esquerdista», Norman Levitt, um matemático de Rutgers. Por outro lado, há muitos «conservadores» que reconhecem ser o criacionismo a palermice que de facto é, ou seja, não é apanágio da «esquerda» a defesa do evolucionismo, o papel da evolução como princípio organizador central da biologia moderna é reconhecido por todos os que não deixam a religião (ou a política, no caso do Joaquim) obliterar-lhes as conexões neuronais. A evolução é um princípio fundamental e claramente estabelecido na comunidade científica. Tão sedimentado como a teoria coperniciana de que é a Terra que se movimenta em torno do Sol e não o contrário. Isto é, nem a «direita» nem a «esquerda» são tão monolíticas como alguns pretendem e considero verdadeiramente perigoso que se tente manipular maniqueisticamente qualquer verdade, quer em nome da religião quer de posições políticas. Pelas razões óbvias, a manipulação da ciência em prol de uma qualquer mundivisão repugna-me especialmente mas não caio na falácia de atribuir a estupidez criacionista à «direita». Nem sequer à «religião» no sentido em que o Joaquim fala da «esquerda». Por exemplo, nos Estados Unidos é católico um dos cientistas mais empenhados em desmontar as falácias neo-criacionistas, Kenneth Miller, autor do livro «Finding Darwin's God: A Scientist's Search for Common Ground Between God and Evolution».
Na Crítica da Razão Pura, Kant procurou realizar uma crítica interna da razão que resultasse numa delimitação daquilo que pode ser conhecido. O fascinante em Kant é que ele redefiniu os termos da finitude humana de forma radicalmente anti-dogmática—como sendo constitutivos e interiores ao próprio conhecimento. Na Estética Transcendental (primeira secção da crítica) Kant defendeu que o conhecimento só é possível em relação aquilo que possa estar presente/ser dado a um sujeito. Isto significa que o tempo e o espaço não são coisas ou realidades passíveis de serem conhecidas em si mesmas, mas sim formas de intuição necessárias a priori; por outras palavras: elas constituem formas sem as quais nada pode ser apresentado a um sujeito. Isto significa que eu não tenho experiências do tempo e do espaço; mas sim que estes são condições necessárias para que qualquer tipo de experiência ou evento aconteça. O problema de conceitos como começo do universo ou origem do mundo é que a simples tentativa de os conceber como realidades passíveis de serem compreendidas viola as condições da possibilidade da experiência e transcende os limites do próprio conhecimento. Ou seja, eles tentam transformar o tempo e o espaço em realidades passíveis de serem compreendidas, esquecendo ou ingorando que elas são na realidade formas implícitas para que algo seja compreendido e, portanto, elas próprias algo não passível de compreensão cognitiva. O que Kant defende na CRP é que conceitos sem intuições são vazios e intuições sem conceitos são cegas. O tempo e o espaço dizem respeito à primeira parte: a partir do momento em que tentamos transformar o espaço e o tempo em objectos de conhecimento perdemos as condições que nos permitem conceber a possibilidade de um objecto ser representado e conhecido por um sujeito. Ou seja: violamos as condições que tornam qualquer conhecimento possível, e com isso entramos em auto-contradição. Não sei porquê, mas acho que isto se relaciona com este post do Luciano Amaral
Paulo Pedroso, prestes a regressar ao Parlamento, deu uma entrevista à TSF. Ao contrário do que seria de esperar, não é uma entrevista de circunstância, compungida, contida, discreta. É a entrevista de alguém que quer reassumir o seu lugar - recorde-se que Pedroso era, enquanto Ferro Rodrigues foi secretário-geral do PS, do núcleo duro da direcção - e demonstrar que a suspeição que sobre ele pendeu durante anos e que, agora sob a forma de insinuação e de insulto, subsiste ainda em tantas cabeças (basta ler a blogosfera ou os comentários das páginas Net dos jornais) não o condiciona. É por isso uma entrevista corajosa, talvez temerária. Foi já até qualificada - pelo comentador político Mário Bettencourt Resendes - como "um erro político" e parece ter agradado pouco à sensibilidade dirigente do PS que, pelas vozes de José Lello e de Vitalino Canas, dela se demarcou.
O "erro político" a que Bettencourt Resendes se refere explicitamente é o da referência de Pedroso à eventualidade de um bloco central. Outras suas posições terão suscitado menos interesse, nomeadamente o facto de criticar no seu partido o que considera ser "a timidez perante o conservadorismo e a reverência perante a Igreja Católica" e de afirmar a sua perplexidade face a uma lei de procriação assistida (PMA) que recusa às mulheres sós o acesso às técnicas (mesmo pagando do seu bolso, em clínicas privadas) e face à inexistência de uma proposta legislativa que possibilite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. "Não percebo porquê", diz Pedroso.
De facto, não é fácil perceber. Quando há um par de meses Manuela Ferreira Leite afirmou numa entrevista à TVI que o casamento visa a procriação, baseando nisso a sua recusa do casamento das pessoas do mesmo sexo, o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, certificou, com escândalo e mofa, não ser essa a concepção dos socialistas. Esqueceu-se porém de clarificar qual é, ao certo, a concepção de casamento e de família dos socialistas. Os mesmos socialistas que recusaram, na lei da PMA, permitir a uma mulher "sem homem" o recurso à inseminação artificial mas que defendem para a mulher o direito de abortar por sua vontade até às 10 semanas, os mesmos socialistas que recusam uma concepção "anacrónica do casamento" na nova lei do divórcio (e desafiam nisso o Presidente da República) mas andam há anos a driblar o assunto do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por mais que se repita que estas questões "não são prioritárias" (e ainda alguém há-de explicar porquê) seria conveniente vislumbrar alguma coerência naquilo que sobre elas pensam. Sobretudo quando aqui ao lado um primeiro-ministro socialista em segundo mandato anuncia são só uma alteração à lei do aborto como uma lei que permita o suicídio assistido - e isto quando a recessão económica em Espanha acaba de ser declarada. Afinal, os assuntos ditos "não prioritários" - que têm a ver com a liberdade individual nas opções mais íntimas da vida e incluem as tais "concepções de família" -, e as opções políticas que sobre eles se fazem desempenham um papel cada vez menos irrelevante na definição do que afinal é a família socialista - quem lhe pertence, o que quer, para onde vai.
Pouco depois de ter dito ao seu filho Track e milhares de outros soldados que partirão para o Iraque de Fort Wainwright, Alasca, que iriam lutar contra «os inimigos que planearam, executaram e rejubilaram a morte de milhares de americanos», dando a ideia de que considerava ter origem iraquiana os ataques às Torres Gémeas, Sarah Palin deu uma entrevista a Charles Gibson da ABC News. A entrevista pode ser ouvida com mais detalhe aqui e aqui. Para além da afirmação de estar «agradecida por, sob a liderança de Reagan, termos vencido a Guerra Fria», alguns dos excertos que achei interessantes:
Política externa e segurança nacional GIBSON: What insight into Russian actions, particularly in the last couple of weeks, does the proximity of the state give you? PALIN: They're our next door neighbors and you can actually see Russia from land here in Alaska, from an island in Alaska. PALIN: And we've got to keep an eye on Russia. For Russia to have exerted such pressure in terms of invading a smaller democratic country, unprovoked, is unacceptable. Depois de confirmar nunca ter conhecido nenhum chefe de estado e ter referido, erroneamente, que isso era verdade para outros VPs do passado, afirmou: PALIN: But, Charlie, again, we've got to remember what the desire is in this nation at this time. It is for no more politics as usual, and somebody's big fat resume that shows decades and decades in that Washington establishment, where, yes, they've had opportunities to meet heads of state. GIBSON: But this is not just reforming a government. This is also running a government on the huge international stage in a very dangerous world. When I asked John McCain about your national security credentials, he cited the fact that you have commanded the Alaskan National Guard and that Alaska is close to Russia. Are those sufficient credentials? PALIN: But it is about reform of government and it's about putting government back on the side of the people, and that has much to do with foreign policy and national security issues. Let me speak specifically about a credential that I do bring to this table, Charlie, and that's with the energy independence that I've been working on for these years as the governor of this state that produces nearly 20 percent of the U.S. domestic supply of energy, that I worked on as chairman of the Alaska Oil and Gas Conservation Commission, overseeing the oil and gas development in our state to produce more for the United States. GIBSON: I know. I'm just saying that national security is a whole lot more than energy. Sobre a Doutrina Bush: GIBSON: Do you agree with the Bush doctrine? PALIN: In what respect, Charlie? GIBSON: The Bush -- well, what do you -- what do you interpret it to be? PALIN: His world view. GIBSON: No, the Bush doctrine, enunciated September 2002, before the Iraq war. PALIN: I believe that what President Bush has attempted to do is rid this world of Islamic extremism, terrorists who are hell bent on destroying our nation. There have been blunders along the way, though. There have been mistakes made. And with new leadership, and that's the beauty of American elections, of course, and democracy, is with new leadership comes opportunity to do things better. GIBSON: The Bush doctrine, as I understand it, is that we have the right of anticipatory self-defense, that we have the right to a preemptive strike against any other country that we think is going to attack us. Do you agree with that? PALIN: Charlie, if there is legitimate and enough intelligence that tells us that a strike is imminent against American people, we have every right to defend our country. In fact, the president has the obligation, the duty to defend. GIBSON: Do we have the right to be making cross-border attacks into Pakistan from Afghanistan, with or without the approval of the Pakistani government? PALIN: Now, as for our right to invade, we're going to work with these countries, building new relationships, working with existing allies, but forging new, also, in order to, Charlie, get to a point in this world where war is not going to be a first option. In fact, war has got to be, a military strike, a last option. GIBSON: But, Governor, I'm asking you: We have the right, in your mind, to go across the border with or without the approval of the Pakistani government. PALIN: In order to stop Islamic extremists, those terrorists who would seek to destroy America and our allies, we must do whatever it takes and we must not blink, Charlie, in making those tough decisions of where we go and even who we target. GIBSON: And let me finish with this. I got lost in a blizzard of words there. Is that a yes? That you think we have the right to go across the border with or without the approval of the Pakistani government, to go after terrorists who are in the Waziristan area? PALIN: I believe that America has to exercise all options in order to stop the terrorists who are hell bent on destroying America and our allies. We have got to have all options out there on the table.
A política espectáculo não é neutra, nem é uma mera técnica (seja lá o que isso for), ela serve objectivamente a grande máxima: “tudo tem de parecer diferente, para que tudo possa ficar igual”
O fascínio orgiástico (libidinal attachment) do Henrique Raposo com a suposta decadência europeia aproxima-se perigosamente de puro masoquismo. Segundo Freud, o masoquismo é caracterizado por um sentimento de culpa inconsciente que obtém prazer através da punição e do sofrimento. Ou seja, o Henrique representa aquilo que tanto odeia: a culpa do homem branco. Inconsciente ou não, ela está lá toda.