cronologia abreviadíssima da luta pelos direitos dos homossexuais em portugal. publicada no dn de sábado 4 de outubro.
1974 A associação dos psiquiatras americanos retira a homossexualidade da lista das patologias. Em Portugal, um manifestode homossexuais é repudiado pelo general Galvão de Melo na TV: “O 25 de Abril não se fez para as prostitutas e os homossexuais reinvindicarem”. 1976 É aprovada no parlamento eleito a Constituição da República, que estabelece a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, assim como a reserva da vida íntima. 1982 É revogado o CódigoPenal (CP) de 1886, que no artigo 71º punia com “medidas desegurança -- internamento “em manicómio criminal”, “casa de trabalho ou colónia agrícola” (por período de seis meses a três anos, para trabalhos forçados), “liberdade vigiada”,“caução de boa conduta” e “interdição do exercício de profissão”– quem se entregasse “habitualmente à prática de vícios contra a natureza”, práticas essas que “agredissem” o “princípio básico da moral sexual” e “o primado da sexualidade genital e da reprodução”. Mas cria-se um novo crime (artigo207º),“Homossexualidade com menores”, punindo com prisão até três anos “quem, sendo maior, desencaminhar menor de 16 anos do mesmo sexo para a prática de acto contrário ao pudor, consigo ou com outrém do mesmo sexo”.
1989 Uma portaria de inaptidões para o serviço militar classifica como doença mental os “desvios e transtornos sexuais: homossexualidade e outras perversões sexuais” . Quem manifestar tal “desvio” é inapto.
1991 Surge o primeiro grupo organizadode defesa dos direitos LGBT. É o Grupo de Trabalho Homossexual, integrado no Partido Socialista Revolucionário, um dos partidos que virá em 1999 a unir-se no Bloco de esquerda.
1992 A Organização Mundial de Saúde retira a homossexualidade da lista das patologias. 1995 Nova revisão do CP substitui o artigo 207º pelo 175º, “Actos homossexuais com menores”. Prevê-se que “quem, sendo maior, praticar actos homossexuais de relevo com menor entre 14 e 16 anos, ou levar a que eles sejam por este praticados com outrem, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias”. Entre pessoas da mesma idade mas de sexo diferente, só há crime se houver “abuso de inexperiência”.
1996 Os Verdes propõem incluir no artigo 13º da Constituição a proibição da discriminação em função da orientação sexual. Abstenção do PS e votos contrários do PSD e do PP impedem aprovação. São criadas a associação ILGA-Portugal e o Clube Safo (associação lésbica).
1997 É publicado o despacho do Ministério da Administração Interna n.º 13/97, que declara inaptidão à admissão na PSP de “personalidades psicopáticas de qualquer tipo, particularmente anormais sexuais, em particular invertidos”. É celebrado o primeiro arraial pride no Príncipe Real, fundadada a associação Opus Gay e ocorre o I Festival de Cinema Gay e Lésbico, com o apoio da Câmara de Lisboa. 1998 É publicado o manifesto dos grupos homossexuais, com várias exigências, entre as quais a inclusão da não discriminação em função da orientação sexual no artigo 13.º da Constituição, o reconhecimento das uniões de facto e do acesso à adopção. O casamento não faz parte das reivindicações. 1999 Entra em vigor o Tratado de Amesterdão, que consagra a proibição da discriminação em função da orientação sexual . É, em Março, revogada a tabela nacional das inaptidões aprovada em Janeiro e na qual a homossexualidade surgia como “deficiência”. O provedor de Justiça declara “constitucionalmente intoleráveis” as restrições constantes nas tabelas de inaptidões do serviço militar e da PSP. É aprovada uma lei das uniões de facto, proposta pelo PS, que exclui casais do mesmo sexo.
2000 Primeira parada do Orgulho Gay desce a Avenida da Liberdade, em Lisboa.
2001 O Parlamento aprova uma lei das uniões de facto que inclui os casais do mesmo sexo, excluindo-os da adopção.
2003 O novo Código do Trabalho proíbe a discriminação do trabalhador com base na orientação sexual.
2004 A orientação sexual é incluída no artigo 13.º da Constituição, em votação parlamentar. 2005 A ILGA-Portugal lança uma petição pela igualdade no acesso ao casamento. Recolhe mais de 7000 assinaturas. O Tribunal Constitucional (TC) reputa de inconstitucional o artigo 175.º do Código Penal. 2006 Teresa Pires e Helena Paixão tentam casar-se numa Conservatória de Lisboa. Sucessivas recusas levam o caso até ao TC, onde aguarda decisão. 2007 A revisão do Código Penal elimina o artigo 175.º e inclui, no novo crime de violência doméstica, os casais do mesmo sexo, assim como, entre as circunstâncias agravantes dos crimes, o ódio baseado na orientação sexual.
2008 A secretária de Estado Idália Moniz garante que os casais do mesmo sexo estão excluídos das candidaturas a família de acolhimento, apesar de a lei admitir unidos de facto. Decorre, a 3 de Outubro, a audição parlamentar de apreciação da petição a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo. A 10 de Outubro, será votada a petição, assim como os projectos de lei do BE e de Os Verdes sobre o mesmo assunto, com chumbo anunciado.
no sociedade civil que terminou há pouco, e cuja visão recomendo a toda a gente, com a minha vénia ao paulo côrte-real e à solange, que lograram manter a compostura perante o chorrilho de inanidades que se ouviu da boca de crespo e serrão, com relevo para o primeiro (que fez o professor parecer quase atilado, e não é qualquer pessoa), ouviu-se crespo dizer que o casamento de pessoas do mesmo sexo 'desfigura o casamento' (incluindo o dele) e que quer 'uma revisão constitucional'. constata-se que de assunto sem importância, para crespo, este passou a ser merecedor, nem mais nem menos, que de revisão constitucional. parece que é para que fique 'bem claro' que o casamento é só para gajos com gajas, que isso é que dá meninos. é caso para dizer que estas opiniões desfiguram a ideia que eu tinha de mário crespo. till death do us part.
acabo de ver eduardo lourenço na sic a comentar o facto de ter sido agraciado com uma medalha de mérito cultural -- ou lá o que é. 'que posso dizer? põe-se ao pescoço. é creio a primeira medalha que tenho com as cores de portugal. de modo que não sei se sou eu que tenho portugal pendurado ao pescoço se sou eu que estou pendurado ao pescoço de portugal'. grande, grande, enorme eduardo lourenço. adorável.
The Enlightenment's distinction between faith in authority and using one's reason is, in itself, legitimate. If the prestige of authority displaces one's judgment, then authority is in fact a source of prejudices (pp 279) It seems to me, however, that there is no such antithesis between tradition and reason...The fact is that in tradition there there always is an element of freedom and of history itself. Even the most genuine and pure tradition does not persist because of the inertia of what has existed...For this reason, only innovation and planning appear to be the result of reason. But this is an illusion(pp. 281)
O 'conservador' Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método.
a propósito de opiniões inteligentes e informadas e sobretudo fundamentadas sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo e, não querendo faltar ao respeito do expoente nessa matéria, o one and only césar das neves (que reincide hoje, no dn, num artigo que ainda não li mas que garanto desde já ser incomensuravelmente superior neste campeonato), a crónica de mário crespo é histórica. trata-se de uma variação muito esforçada sobre a ideia de que 'a tradição' é um argumento (para além daquela coisa de achar que discutir a felicidade das pessoas é uma perda de tempo). chegam-se-me as lágrimas aos olhos sempre que oiço ou leio algo deste jaez: 'porque a tradição, e tal'. o recurso a esta 'argumentação' é invariavelmente um sinal de desespero, e o desespero é comovente. (pequeno pormenor -- quando existem já no mundo seis países e dois estados americanos onde o casamento das pessoas do mesmo sexo é uma realidade, talvez seja altura de incluir o facto na 'tradição' do casamento, não?) ler, a propósito, o luís grave rodrigues. e esta tarde, no programa 'sociedade civil' (rtp 2), assistir ao debate entre mário crespo e daniel serrão, do lado da desigualdade, contra paulo côrte-real e solange, pela igualdade. (e já está a dar)
A 'grande maioria da população' e o Doutor César das Neves podem achar o que quiserem. Mas espero que assumam a responsabilidade pelas suas palavras (e actos) e não a deleguem em autoridades ou entidades exteriores. Não responsabilizem terceiros, pois a 'natureza' não diz nada sobre ninguém. Somos nós —e só nós—que dizemos tudo. A culpa é sempre dos homens. Curioso é ter de recordar isto a alguém que se diz cristão.
ontem, a arrumar papelada (melhor dizendo, a deitá-la fora), dei com um autocolante da teletáxis. não me perguntem o que fazia um autocolante da teletáxis no meio dos meus papéis, my guess is as good as yours. porém, valeu a pena olhar para ele com atenção antes de o deitar fora. além do número de telefone e de um calhambeque, tudo em verde sobre fundo branco (deve ser do sporting, a teletáxis), o rectângulozinho ostenta duas frases entre aspas. a primeira é em inglês, mas já lá vamos. a segunda diz 'que sempre por simpáticos nos conheçam' (é lindo, hã? as aspas é que enfim). a outra, em letras maiores, lê-se: 'let us be your lisbon hostage'. sim, sim. 'hostage'. algo me diz que a ideia era escrever algo mais do género hospedeiro, ou assim. mas saiu mesmo assim, refém. e ainda se queixam os taxistas da criminalidade, e exigem separadores pagos pelo erário público, videovigilância, gps, choques eléctricos para os clientes que não querem pagar, etc. afinal o problema deles é com os clientes portugueses. pelos estrangeiros já não importam de ser sequestrados, visteS.
Without a background of social stability everyone will eventually suffer, including the most resourceful, bold and ingenious of speculators. The question is not to choose between total control and total deregulation, but how to identify the points and practices where social risk becomes unnacceptably high...
...Fundamentalism is a religious word, not inappropriate to the nature of the problem. Marx long ago observed the way in which unbridled capitalism became a kind of mythology, ascribing reality, power and agency to things that had no life in themselves; he was right about that, if about little else. And ascribing independent reality to what you have made yourself is a perfect definition of what the Jewish and Christian scriptures call idolatry Rowan Williams, na Spectator (27 de Setembro)
Uma das coisas que a crise financeira nos obriga a recordar é a natureza social e profundamente interdependente da nossa existência colectiva. O mito fundador de certo tipo de pensamento económico e político—onde a realidade última são basicamente indivíduos independentes e suas escolhas autónomas—é deficiente porque não nos permite reconhecer e lidar com este elemento fundamental da existência humana. A existência de contextos sociais partilhados, irredutíveis aos indivíduos que os compõem, revela a limitação de qualquer forma de pensamento centrado exclusivamente no indivíduo, entendido como se fosse uma realidade autónoma e auto-subsistente. O mercado tem uma deficiência constitutiva (uma espécie de pecado original, se quisermos), pois, ao individualizar a realidade—necessária para determinar propriedade privada, responsabilidade individual, etc...—, ignora ou reprime aquela parte da realidade que não é de ninguém em particular mas sim de todos nós. Mas esse 'esquecimento' não é um problema contingente que possa ser eliminado. Ele é essencial e constitutivo, pois só ignorando esta dimensão social pode o mercado funcionar. Cabe à política e a todos nós recordar esse 'inconsciente reprimido' e agir em conformidade. Quando a política esquece essa dimensão e se confunde com o mercado, ficamos à mercê do 'regresso do reprimido'. E como nos ensina a psicanálise: aquilo que esquecemos ou tentamos reprimir regressa sempre, independentemente da nossa vontade.
nos semanários deste fim de semana, josé antónio saraiva e joão carlos espada publicaram textos sobre a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. como seria de esperar, são dois textos em que a mais extraordinária ignorância terça armas com a mais prodigiosa má fé. não surpreendem, decerto, atento o palmarés de dislates dos dois obstinados escribas, nem se vislumbra hipótese de qualquer refutação os poder esclarecer -- claramente não desejam ser resgatados do obscurantismo. em todo o caso, porque há quem os leia (até eu, de vez em quando, sabe-se lá porquê -- talvez para depois escrever um post), é conveniente lembrar uma ou duas coisas. espada tenta, coitado, alinhavar uns parágrafos sobre os incríveis malefícios que sobreviriam caso o casamento das pessoas do mesmo sexo fosse aprovado -- a cantilena do costume, que se vai ouvindo de isildas pegados e quejandos, tipo 'ai que as pessoas 'normais' depois deixam de se querer casar porque o casamento perdeu o valor todo (conspurcado pelos homossexuais, esses porcalhões) e se calhar vão transferir-se em magotes para os casamentos religiosos', para terminar no papão da adopção, 'que é, está-se mesmo a ver, onde este pavor todo vai terminar, e não podemos fazer experiências com crianças'. o pobre josé antónio saraiva esforça-se por lavar a honra de manuela ferreira leite e da sua maravilhosa declaração sobre o propósito do casamento, certificando que de facto não só a maioria das pessoas se casa para ter filhos como isso não deve ser matéria de chalaça porque temos muita necessidade de crianças. pelo meio, diz qualquer coisa como 'as pessoas falam da liberal inglaterra e de como lá os homossexuais se podem casar, mas a verdade é que na inglaterra os homossexuais não se podem casar, criou-se um contrato específico para eles'. juro que não estou a inventar, apesar de não ter paciência para me pôr para aqui a copiar aquelas palermices (não estão na net, azar). o que mais me diverte nestas e noutras 'opiniões' sobre este assunto é o facto de, para combater esse terrível mal que é o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estas almas anunciarem todas os apocalipses possíveis e imaginários, com um único e estrito cuidado: ignorar que quer o casamento quer a adopção existem há anos em vários países, e nada do que prenunciam (incluindo uma intervenção divina do género sodoma e gomorra) sucedeu. na 'liberal inglaterra', por exemplo, que jas cita e sem a qual jce pereceria, existe adopção por casais do mesmo sexo. como em outros 6 países da europa (além do canadá, vários estados dos eua, e áfrica do sul). e o casamento, mesmo casamento, existe em 4 países da europa (além dos outros já citados). claro que era um bocado difícil anunciar apocalipses juntando esta informação, de modo que estes dois senhores, como tantos outros como eles, fingem que isto do casamento das pessoas do mesmo sexo é uma invenção do bloco de esquerda. talvez acreditem nisso, sabe-se lá. em adenda, dois textos de alexandra carreira, correspondente do dn em bruxelas, sobre a situação na europa, publicados no sábado:
O dia do casamento cada vez mais próximo? Da Holanda, onde o casamento e a adopção por parte de casais do mesmo sexo são legais desde 2001, a Chipre, onde 75% da população ainda acredita que a homossexualidade é uma doença curável, a realidade europeia não podia ser mais díspar. A maioria dos 27 Estados membros da UE, porém, encontra-se já do lado da aceitação do fenómeno. Em 11 países, contudo, a existência de casais homossexuais é assunto que não está coberto pelas leis. Portugal está no limbo, com a Áustria, tendo reconhecido em 2001 as uniões de facto do mesmo sexo. Um passo atrás de 12 Estados membros, como a França, o Reino Unido, a Islândia ou a Dinamarca, que consagram hoje as uniões civis registadas (e, no caso do Reino Unido e da Islândia, a adopção), um regime que geralmente consagra direitos equiparados ao do casamento civil. Anos-luz à frente estão a Holanda, a Bélgica, Espanha e, de fora da família comunitária, a Noruega, que acaba de aprovar a nova lei do casamento. Vanguardistas a que se juntam, fora da Europa, o Canadá (2005), os estados do Massachusetts (2004) e da Califórnia (2008), nos EUA, e a África do Sul (2006). Os três últimos por via de decisões de tribunais com base na Constituição; o Canadá, por uma alteração legislativa proposta pelo Governo do liberal Paul Martin, após várias decisões de tribunais permitirem, desde 2003, o casamento de cerca de 3000 casais do mesmo sexo. São 15 os países europeus onde as uniões entre pessoas do mesmo sexo não são reconhecidas. Destes, nove são membros da UE, incluindo a Grécia e a Irlanda. Com uma fatia muito considerável de países do Leste de olhos vendados para a homossexualidade, hoje, a população da UE pós-alargamento é, de acordo com as sondagens, maioritariamente contra o casamento gay e a adopção por parte de casais homossexuais. Os checos são os únicos no Leste favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, 52%. Apesar de fraco apoio popular, também a Hungria e a Eslovénia consagram hoje na sua legislação o regime das uniões civis. Adopção por casais do mesmo sexo é mais comum na UE que o casamento O direito à adopção de crianças por parte de casais homossexuais chegou primeiro do que o direito ao casamento em alguns países da Europa. São sete aqueles em que um casal homossexual se pode candidatar à adopção. Destes, quatro não consagram ainda a legislação do casamento do mesmo sexo: Suécia, Reino Unido, Noruega ( a nova lei do casamento só entra em vigor em 2009) e Islândia. Depois de conduzir durante 18 meses um estudo multidisciplinar que acabou por provar que os casais homossexuais têm as mesmas capacidades para serem pais que os heterossexuais, o Governo sueco estendeu, em 2002, o direito à adopção aos casais gay. Depois, em 2005, a Suécia passou a permitir que casais de lésbicas tivessem acesso, em hospitais públicos, à procriação assistida. Só este ano a Suécia vai votar no Parlamento uma proposta de lei que visa dar o casamento aos homossexuais, mas desde 1995 que consagra as uniões civis. No Reino Unido, o cenário é semelhante. Os casais homossexuais podem ser pais, mas não podem, ainda, casar-se. Londres alterou a lei da adopção em 2003, retirando do texto a obrigatoriedade de o casal ser casado para poder candidatar-se à adopção. A alteração abriu, então, as portas a gays e lésbicas. Apesar dos desenvolvimentos, naquela data o Reino Unido não tinha ainda regulamentado as uniões civis entre parceiros do mesmo sexo, o que só acabou por acontecer em 2005. Numa outra perspectiva do direito à adopção, países como a França, a Dinamarca e a Alemanha possibilitam que uma pessoa, ainda que não casada, possa adoptar os filhos, biológicos ou adoptados, do seu parceiro do mesmo sexo. Em França, a mudança data de 2006, por força de uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que deu razão a um casal lésbico em união civil quando a mãe biológica de uma criança quis partilhar a responsabilidade parental com a parceira. Foi a Holanda a inaugurar a tendência, em 2001. Na primeira vez em que os democratas-cristãos não ocupavam a cadeira do poder, o Governo liberal consegue a maioria parlamentar e aprova a lei do casamento para homossexuais e o direito à adopção. No último Eurobarómetro, de 2006, mais de 80% dos holandeses concordavam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 69% com a adopção. 2003 foi ano de a Bélgica dar o "sim" ao casamento para gays e lésbicas. Também sem rasto de conservadores no poder, o Governo de Guy Verhofstadt propôs o casamento e, três anos mais tarde, apesar da discordância da maioria da população (58%), a proposta de estender os direitos de adopção e de assistência na procriação passa o crivo do Parlamento belga. A lei espanhola de Zapatero surge em 2005, concedendo o direito ao casamento e à adopção. A última foi a da Noruega, com a entrada em vigor da nova lei a 1 de Janeiro de 2009. A Suécia será o país que se segue, com o apoio da maioria da população. A Agência dos Direitos Fundamentais da UE, criada em 2007, realizou a pedido do Parlamento Europeu um relatório sobre homofobia e discriminação com base na orientação sexual no qual sublinha a "necessidade de clarificar a situação" dos casais homossexuais "em conformidade com os direitos humanos internacionais, no que toca a direitos e benefícios dos cônjuges e parceiros". Em particular, o relatório foca as três directivas europeias que tratam os assuntos da discriminação: emprego, reunificação familiar e qualificações. Na sua análise, a agência critica a acção legislativa da UE na medida em que, "paradoxalmente, o direito comunitário cria uma hierarquia artificial para os vários tipos de discriminação, protegendo um dos tipos de discriminação (o da raça) de forma mais consistente do que outros". Para a agência especializada em direitos humanos na UE, é preciso que o mesmo grau de protecção seja oferecido a todos os tipos de discriminação. Em concreto, a agência que tem sede em Viena, na Áustria, recomenda à UE que dedique melhor regulamentação aos esforços anti-discriminação de indivíduos LGBT, em linha com os princípios consagrados na Carta dos Direitos Fundamentais da UE, onde, e pela primeira vez em todo o mundo, está proibida a discriminação com base na orientação sexual.
Inicio a semana bloguenta por estes lados republicando um texto que escrevi a 20 Setembro de 2006 sobre o tema que se adivinha .
Muitos blogs têm citado um texto, publicado no Expresso da semana passada, escrito por Joaquim Manuel Magalhães*, que se apresentou como uma meditação sobre o livro Moi, Pierre Seel, déporté homosexuel. Apesar de não comprar o Expresso desde há 2 anos (e muito me custou abandonar o vício de duas décadas), acedi ao referido texto graças aos bons ofícios da net e esta frase "Do ponto de vista de um homossexual conservador, a solução, mas solidamente instituída, que se deseja é a do casamento."[neste momento já não se consegue aceder ao link, se conseguir descobri-lo noutro local actualizarei a ligação] fez tocar uma campainha no meu arquivo interno. Lembrei-me de ter lido, há uns anos, um artigo na Time, escrito pelo Andrew Sullivan que falava na dicotomia, que muitos se recusam a admitir, homossexual/conservador. Pus os neurónios a trabalhar para ver se me lembrava do título do artigo. "Hum, «we are all sodomites»? nã, não era esta, ai porra, qual era o título daquilo?". A minha massa cinzenta não estava a dar conta do recado e eu, buuuuurra, insistia em massacrá-la até que, aleluia!, me lembrei de ser esperta e, googlando uma amálgama de palavras que me parecia lógica, cheguei onde queria, "The Conservative Case of gay marriage", ao qual furto o último parágrafo:
Sendo eu avessa ao casamento ("Não sei se na minha família as pessoas se podem casar" disse a júnior um dia, na sala dos 4 anos da escola, quando o "cantinho da conversa" foi dedicado ao tema por um dos putos ter ido, no dia anterior, a um casamento. Tadinha da menina, ela só via ajuntados à volta dela, sabia lá que não era regra familiar obrigatória), é instituição que não me diz nada, poderia parecer estranho que defenda, e com unhas e dentes, o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas só pareceria a quem olhasse para as questões pela rama: apenas defendo o direito a que todas as pessoas tenham as mesmas opções que eu.
Quem leu o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago, ainda se lembra do relato de uma sociedade em colapso por causa de uma epidemia de cegueira branca. O filme baseado no livro estreou nos EUA na passada sexta-feira sob fogo cerrado da Federação de Cegos americana, que o caracterizou como “deplorável e revoltante”, por reforçar os estereótipos negativos acerca dos cegos. “A cegueira não transforma pessoas normais em monstros”, disseram. Perante esta reacção, felicito a posteriori a Associação Portuguesa de Geólogos por não ter protestado aquando da publicação de A Jangada de Pedra, livro em que a deriva de uma Península Ibérica destacada da Europa é uma “deplorável e revoltante” caricatura do modelo da Tectónica de Placas. Este caso não é um cúmulo do politicamente correcto, nem sequer uma tentativa de censura por incapacidade de transcender a interpretação literal. Admitindo que o filme é fiel ao livro (foi apadrinhado por Saramago), a sua interpretação literal não é a de que a cegueira transforma os homens em monstros, mas sim a de que estamos sempre a um fechar de olhos de nos tornarmos bestas. Mais: diz-nos que aqueles que são brutalmente mantidos num manicómio por terem cegado ou correrem esse risco não perderam a capacidade de praticar o mal. É difícil imaginar uma obra menos discriminatória para com os cegos, porque ao negar-lhes uma redenção vitalícia pela perda da visão afirma que uma incapacidade física não belisca o essencial da condição humana.
O politicamente correcto pressupõe uma colagem à realidade, mas não a recria. Os protestos nos EUA de associações de deficientes pelo uso do termo “atrasadinho” na comédia recente Tempestade Tropical são disso exemplo. Podemos pender para um ou outro lado, mas há um mínimo de entendimento comum sobre o objecto da discórdia. O caso presente é de uma outra natureza, porque assistimos à subversão da própria realidade. A cena em que um cego se insurge veementemente contra um filme tem algo de absurdo, mas também lembra um mito famoso. Penso num cego a entrar na sala de cinema acompanhado por alguém que depois lhe vai relatando o filme ao ouvido. Tais palavras são as sombras projectadas nas paredes da caverna onde viviam os prisioneiros que Platão imaginou, representações imperfeitas. Que solução tem o cego para se aproximar de uma reconstrução fidedigna do filme? Ir mais vezes ao cinema, mas variando a companhia, para construir um olhar a partir do olhar dos outros. É também o que nos resta fazer, de forma um pouco menos literal – e seguramente o que tento para entender a crise económica, a música de Stockhausen, a popularidade de Mafalda Veiga, as mulheres em sentido lato e tudo o que saia da minha minúscula esfera de conhecimento. Não nos livramos de poder ficar uns monstros, vamos apenas evitando algumas monstruosidades. Crónica do Vasco no Metro de hoje. Sobre o tema o autor sugere que se leiam os posts de Daniel Oliveira e de Pedro Picoito.