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jugular

I bid you...

Venho anunciar a minha retirada da blogosfera. Desde há algum tempo que, por vários motivos, me é cada vez mais penoso escrever aqui. Agora, e devido a desenvolvimentos diversos e a pressões crescentes (e uma em particular), não me é possível prosseguir a minha colaboração, até uma certa data. Não está muito distante, mas até lá sou obrigado a manter-me inactivo. Do que resultar desse dia, se verá posteriormente o que fazer. Há incómodos diversos e um sentimento crescente de mal-estar e de sufoco que necessitam de urgente distensão. Após alguma reflexão, concluí que tanto eu como este blog ficarão a ganhar com o meu silêncio, a que me remeto voluntariamente. Talvez pudesse arriscar uma tirada à MacArthur, mas, como se costuma dizer, المستقبل ينتمي الى الله.

Noves fora nada

Conversa sobre o tunel do marquês

 

Santana Lopes: custou quinze milhões, já se pagaram 13

 

Ana Lourenço: Mas o empreiteiro diz que faltam 23 milhões

 

Santana: Sim...mas...claro...aquilo custou 30 milhões, mas....ui...ai

(...)

Santana: é preciso rigor e responsabilidade

 

Está visto: temos homem...outra vez. Deus nos acuda

As caixas de comentários estão infestadas de doutores

A minha catilinária da passada 2ª feira sobre os rumos do ensino da macroeconomia incluía a dada altura a seguinte passagem:

“[O lugar do keynesianismo] foi tomado pela teoria das "expectativas racionais", a qual sustenta que, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível.”
O Luís Aguiar-Conraria, um prof que às vezes faz o favor de corrigir os meus ensaios literários, comentou assim esta passagem:
Isto que escreve a respeito da teoria das expectativas racionais é um total disparate, factualmente errado e sem ponta por onde se lhe pegue. JPC, desculpe-me a franqueza.”
Confesso que não percebi logo onde o Luís queria chegar. Pedi-lhe que me esclarecesse, mas, entretanto, servi-me do argumento de autoridade que tinha à mão, citando uma entrevista recente do Paul Samuelson, de resto linkada no meu post, contendo um “total disparate” que não me parecia muito diferente do meu:
"But anyway. The craze that really succeeded the Keynesian policy craze was not the monetarist, Friedman view, but the [Robert] Lucas and [Thomas] Sargent new-classical view. And this particular group just said, in effect, that the system will self regulate because the market is all a big rational system."
Resposta do Luís:
O que ele diz é completamente diferente do que dizes. Ele fala de um determinado conjunto de modelos que usam expectativas racionais. E se tal é verdade para esses modelos a que se refere Samuelson (o que em si mesmo é discutível, mas já não direi que é um disparate), já não é verdade para um conjunto de outros modelos que também usam expectativas racionais. Portanto, quando escreves que de acordo com as expectativas racionais “o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível” é, factualmente, falso.”
Muito bem, julgo que percebi o ponto. O que o Luís me recorda é que certos modelos que incorporam expectativas racionais produzem os resultados que eu menciono, mas que isso não sucede com outros. Ora, embora eu não conhecesse os modelos que ele citou, não ignorava, por exemplo, que o John Taylor propôs há muito tempo um modelo keynesiano que incorpora expectativas racionais.
Isto deve ser do conhecimento de um punhado de pessoas em Portugal e logo uma delas havia de ler blogues, e ainda por cima o Jugular.
De maneira que, para corrigir a falha, talvez eu pudesse substituir a passagem controversa por algo do género:
“[O lugar do keynesianismo] foi tomado por certos modelos baseados em "expectativas racionais", segundo os quais, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível.”
Parece-te bem assim, Luís? Enfim, não te peço que concordes, mas apenas que não sintas aqui alguma ofensa às expectativas racionais.
Finalizemos, então, caso ainda esteja alguém acordado. E o que eu te digo, Luís, é que, embora te aprecie muito, quero que te vás lixar: porque isto não é uma prova de doutoramento, porque tu percebeste muito bem o que eu queria dizer e, finalmente, porque eu não sou um político.

Alguém que explique ao João Miranda o que é uma falha de mercado

que eu não tenho paciência. Parece que ele nunca ouviu falar de tal coisa. Só assim se percebe que escreva isto: No fundo, os 51 notáveis acreditam que, se gastarmos agora o dinheiro que a economia privada vai ter que pagar no futuro sob a forma de impostos, em projectos que inevitavelmente terão retorno muito baixo ou negativo, ganhamos mais do que se deixarmos a própria economia privada decidir em que projectos vale a pena apostar agora, se é que vale a pena apostar em alguma coisa agora. Deixar a economia privada decidir?! Mas a economia privada já está a decidir: está a cortar investimento e a contribuir para agravar a recessão.

Não perceber a crise

"Ora a maioria das empresas, sobretudo PME, padece sobretudo de problemas de liquidez/tesouraria, que têm levado milhares a fechar as portas. Sócrates não percebeu isto. Passou-lhe ao lado o essencial desta crise. Nada fez para aliviar a pressão fiscal sobre as empresas. Manteve, por exemplo, o PEC e as regras de cobrança do IVA, não aceitando as propostas da oposição. Por exemplo, das 20 medidas para as PME propostas pelo PSD, quase nada foi aproveitado"

 

É óbvio que o sufoco financeiro das empresas é um problema. Mas está longe, muito longe de ser o principal problema desta crise. Acreditando naquilo que defende o Paulo Marcelo, a solução adequada passaria por resolver problemas de tesouraria das PME's; e estas, suponho, depois, tratariam do resto. É uma leitura possível desta crise. Mas não me parece de todo correcta, pois o Paulo não diz o que fariam as empresas com esse dinheiro. No contexto actual, uma coisa parece ser certa: as empresas não estão dispostas a investir e poupariam tudo ou quase tudo o que lhes fosse dado. Ou seja, o "combate à crise" é um bem público e que requer sobretudo por investimento..público. Num contexto de armadilha da liquidez — que é o nosso — a única entidade que parece disposta a invvestir é o estado e não as empresas, pelo que não se entende em que medida é que solucionar problemas de tesouraria é a grande solução para o nosso problema. Enfim, mistérios.

Resposta ao Miguel do Insurgente

Miguel,

 

Os méritos ou deméritos do investimento em energias renováveis não podem ser julgados pelos postos de trabalho que desapareceram no período, porque a verdadeira questão é saber se esses empregos teriam desaparecido, mesmo sem a aposta na tal "bolha verde". E mesmo que tal tenha acontecido, o desemprego friccional deve ser visto como um dos males inevitáveis da modernização de uma economia, e pensar a renovação das economias, um argumento central na defesa de um estado empreendedor. Quando desapareceu a indústria das carruagens, ninguém se lembrou de criticar o empreendedor que inventou o carro.

No entanto, por detrás da banalizada expressão bolha, está um sentido pejorativo que tenta subestimar a aposta em energias limpas. Discutir a importância desta tendência é, pois , muito relevante. 

Em tempos também se associou a palavra bolha à internet, muito por investimentos excessivos por parte de privados (sim, eles também cometem excessos e não só na crise financeira) e por uma desvalorização do risco associado a negócios suportados nesta tecnologia. No entanto, a internet é hoje uma aposta central em (quase) todas as propostas de investimento e em (quase) todas as políticas públicas. Quer isto dizer que todas as novidades têm o seu estágio de maturidade. E, por estarmos hoje a corrigir os incentivos dados à construção de capacidade em energias renováveis, não significa que estamos a desqualificar a aposta, apenas que a escala do mercado e o estágio de desenvolvimento dessa tecnologia já não exigem prémios de risco tão elevados.  

Debt is capitalism’s dirty little secret

Just why is there so much debt in the Anglo-Saxon world? Bankers and regulators know well that it is in nobody’s long-term interests to have allowed borrowing to escalate to a position where the US now owes far more, as a multiple of the economy, than at the start of the Great Depression.

The answer is capitalism’s dirty little secret: excessive lending was the only way to maintain the living standards of the vast bulk of the population at a time when wealth was being concentrated in the hands of an elite.

(...)

Put simply, the benefits of economic growth have gone into the pockets of plutocrats rather than the bulk of the population. So why has there been no revolution? Because there was a solution: debt. If you couldn’t earn it, you could borrow it. Cheap financing was made widely available

 

That said, income disparity at current levels is a political time-bomb that needs to be dealt with. Finally, we should all come to terms with the fact that these are structural issues needing structural solutions; they need to be enforced over a longer time period than any one government’s term.

 

Ben Funnel, Financial Times

 

Ao contrário do que defendem alguns liberais, a causa desta crise não reside nas baixas taxas de juros - artificialmente baixas, como eles gostam de dizer. O problema fundamental reside na legitimidade política (e democrática) de uma economia de mercado que gera desigualdades que só a dívida pode camuflar: excessiva ou não, a dívida foi o preço que o capitalismo teve de pagar para garantir a sua legitimidade. Por outras palavras, sustentável ou não, a dívida foi necessária. Enquanto os liberais não perceberem isto, não perceberam nada.  Acima de tudo, mostram que a sua filosofia - austríaca, neoclássica, ...- é redutoramente económica e nada nos diz sobre a dimensão política da vida em sociedade.

Pina (Philippine) Bausch, 1940-2009

Há 1 ano, empoleirada num banco alto do São Luiz, vi pela primeira vez Pina Bausch dançar. Achava que sabia tudo o que havia para saber sobre o Café Müller, coreografia de 1978 que ela por uma vez interpretava –   bailarina extraordinária, aluna mítica da Julliard, solista do Folkwang Ballet, Pina deixou de dançar em palco quando se tornou coreógrafa e directora do Tanztheater Wuppertal em 1973, dizia que não tinha tempo – , desde a resolução de convidar os bailarinos mais chegados para entrarem nela, à exigência deles de que ela dançasse também, à decisão de o continuar a fazer  mesmo depois de Rolf Borzik, cenógrafo com quem dividiu trabalho e vida e que também entrava em palco, morrer em 1980 (desde que Dominique Mercy, um dos bailarinos que a acompanha desde os anos 70, continuasse em palco também). Sabia da importância histórica desta peça na dança contemporânea (com as outras coreografias que criou nessa altura, mas muito com Café Müller, Bausch marcou um antes e um depois no que entendemos por dança hoje e para sempre. Houve que inventar uma nova classificação para  conseguir dar nome ao que ela fazia, ficou teatro-dança para esse trabalho que  continua e leva longe o tanztheater alemão, cruzando todas as artes), do furor que fez em Berlim e depois no mundo. Tinha visto registos artesanais (Pina não queria a peça filmada, há pouquissímas gravações) e a homenagem  de Almodovar em Fala com Ela, sabia do Purcell na banda sonora. Mas nada do que eu sabia ou julgava saber me tinha preparado para aquilo. Chorei do principio ao fim e saí de lá com a absoluta certeza de ter experimentado uma coisa extraordinária, comum, rara e universal.

Dizia ela (numa bela e rara entrevista a Vanessa Rato, no Público, há 1 ano) - “É difícil falar de certas coisas. Como é que se pode falar deste desamparo que temos no mundo? O que é que fazemos com isso? Carregamos isso, esses sentimentos tão presentes. E há uma grande necessidade de gastar emoções. Não é só felicidade. É também o oposto disso. (…) Eu também não sei. Há mais perguntas que respostas. Há muitas perguntas.”

 

O artigo definitivo sobre o casamento homossexual?

Não gosto da ideia de que existam opiniões definitivas sobre o que quer que seja, mas este artigo de Martha Nussbaum parece-me ser absolutamente definitivo no que diz respeito ao debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nussbaum vai a todas, sempre com enorme rigor argumentativo e evidente conhecimento da matéria; é equilibrada nas suas posições, sem nunca entrar em histeria; e desmonta, com mestria, os argumentos dos críticos, reduzindo-os a uma contradição ou então expondo aquilo que é afinal a sua verdadeira motivação, por vezes inconsciente: a intolerância (a palavra inglesa bigotry é mais adequada do que "intolerância", mas é o que temos). O artigo é longo, mas leiam-no até ao fim. Gostava mesmo de ler um comentário sobre este artigo de alguém como o Pedro Picoito.

 

Para aguçar o apetite, deixo-vos com o último parágrafo de Nussbaum:

 

The future of marriage looks, in one way, a lot like its past. People will continue to unite, form families, have children, and, sometimes, split up. What the Constitution dictates, however, is that whatever the state decides to do in this area will be done on a basis of equality. Government cannot exclude any group of citizens from the civil benefits or the expressive dignities of marriage without a compelling public interest. The full inclusion of same-sex couples is in one sense a large change, just as official recognition of interracial marriage was a large change, and just as the full inclusion of women and African Americans as voters and citizens was a large change. On the other hand, those changes are best seen as a true realization of the promise contained in our constitutional guarantees. We should view this change in the same way. The politics of humanity asks us to stop viewing same-sex marriage as a source of taint or defilement to traditional marriage but, instead, to understand the human purposes of those who seek marriage and the similarity of what they seek to that which straight people seek. When we think this way, the issue ought to look like the miscegenation issue: as an exclusion we can no longer tolerate in a society pursuing equal respect and justice for all.

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