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jugular

O Zé Tó

Depois do adiamento por razões de estado (as in "estado" da megalomania habitual) da licença-para-disparatar, esperava no mínimo um golpe, em directo, ao dito das tais razões. Afinal, a montanha pariu um rato: foi mais uma espécie de confissão de sacrílego. Ouvido ontem de manhã na Comissão Parlamentar de Ética, o ex-Director do Expresso, ora chefe de um jornal angolano (olhó racismo, ó Cabrita) também vendido em Portugal, confessou que, na publicação das escutas (arremedo de, digo eu), usou de "uma certa noção de pudor".

Em rigor, afiançou que "temos uma certa noção de pudor" foram estas as palavras. Parece que a "certa" noção de pudor que buliu com o futuro Nobel terá tido a ver com uns caralhos e uns filhos-da-puta (conas da tia?) atirados pelos escutados e que o Zé Tó decidiu não afixar. Uma certa noção de vergonha levou o eterno filho e sobrinho a não publicar umas caralhadas, portanto. Pena que o rubor moral não tenha sido total. Por menos uns kwanzas, o Estado de Direito (o Português) teria sido menos metralhado. Não vá o diabo tecê-las, afianço que isto não é uma tentativa de intimidação. Portanto, chefe, se te voltarem a chamar à Estrada da Cartuxa, isso é, estou certo, pró teu bem.

Campanhas meritórias e os pica na merda

De vez em quando, aparecem campanhas em defesa de boas causas. Boas campanhas. Bem feitas. Campanhas às quais, muitas vezes, pessoas com visibilidade, se associam, com generosidade.

Já aconteceu em diversas ocasiões, como no combate à violência doméstica, na luta contra o cancro da mama ou, recentemente, na luta contra a discriminação dos seropositivos

Nesta última, políticos de todas as correntes surgem a dar a cara com frases como as seguintes: "se eu fosse seropositivo será que me ouvia?" (Francisco Louçã); "se eu fosse seropositivo, mudaria a sua opinião sobre mim como político?" (Paulo Portas); e "se eu fosse seropositivo, votaria em mim?" (Jerónimo de Sousa).

Qualquer pessoa que, com capacidade para se centrar no essencial e, sobretudo, com sensibilidade, quiser dizer alguma coisa sobre uma campanha como esta, terá de reconhecer, pelo menos se sabe alguma coisa sobre a discriminação a que os seropositivos ainda são sujeitos, o impacto fortíssimo que a imagem de cada um destes políticos associados às frases citadas pode ter na mentalização das pessoas.

Há quem prefira, no entanto, construir os chamados textos sobre textos. São os analistas de sofá, os pica na merda, que nada de inovador têm para dizer ao mundo.  Vivem de esperar que os textos alheios lhes caiam em cima para poderem fazer um exercício gramatical com palavras giras, às vezes com estrangeirismos que dão um toque chic à coisa. Então, em vez de dizerem o óbvio sobre qualquer coisa que é positivo, como esta campanha, referem-se apenas à pergunta de Jerónimo de Sousa, explicando que continuariam a não votar nele, claro, e que por isso a pergunta está mal feita. O génio tem, prontamente, uma pergunta alternativa a propôr. E isto dá-lhe um um post. Todo um texto de humorzinho e crítica a explicar que há perguntas que "aborrecem", estas que visam minorar o sofrimento de milhares de pessoas.

De resto, parece que o mesmo sa passa com a pergunta da tão falada campanha da ILGA. "Se a tua mãe fosse lésbica mudaria alguma coisa?". Tanta gente já falou sobre isto, mas há sempre os pica na merda que têm de dizer mais qualquer coisinha. Não o que toda a gente disse, a favor e contra, mas que a pergunta, a pergunta, pois, estava mal feita, seus mal pensantes, eu é que sei, porque claro que mudava muita coisa, então não mudava? O pica na merda, por definição, quando analisa o feito alheio acha estranho não ter sido consultado e pensa sempre que o outro não teve em conta o óbvio, o evidente. Ora, é difícil, por definição, não se ter em conta o evidente.

Aqui, o evidente é que o que se quer incutir com a campanha é, também, que o afecto não mudaria, em nada "se a tua mãe fosse lésbica". O pica na merda acha que para isso a pergunta tinha de ser outra, esquecendo-se que a pergunta que lá está vai acompanhada de uma imagem de, espera lá, espera lá. como é que se chama? Afecto, é isso. Pois é, os pica na merda esquecem-se de que os destinatários das campanhas não são acéfalos e que sabem interpretar uma frase acompanhada de uma imagem.

Mas enfim, há quem perca o tempo, perante campanhas meritórias, a explicar, nos meandros dos pormenores que não interessam a ninguém, que as faria melhor.

só um bocadinho, não esperava mais, 2

eis algo que não posso deixar de denunciar e deplorar, venha de quem vier e esteja em que blogue estiver e sirva que ironias servir -- mas mais ainda, se possível ser mais, num blogue em que se escreve sob pseudónimo e no qual, portanto, a generalidade das pessoas não está em condições de aferir de quaisquer 'proximidades', a existir. creio que já escrevi e disse o suficiente sobre questões de 'proximidade' e a sua relação com o jornalismo e a opinião para ter de me repetir, mas mesmo assim repito-me: considero este tipo de insinuações indignas e intoleráveis, e atentando à reserva da vida privada. e não vejo como se pode nuns casos defender incansavelmente a vida privada e noutros achar que é território de caça. 

Do baú a propósito de publicidade, sexualidade, sexismo e estereótipo

Algumas de nós estamos sempre a dizer o mesmo, é o que se comprova ao ler um texto já antigo da Inês. Eis um excerto (mas vão ler tudo, sff):

 

"(...)a ideia de que estas imagens ofendem a mulher, a “utilizam” e “degradam”, porque a “transformam em objecto sexual”. Perdão? Transformam? Eu julgava que éramos todos, homens e mulheres, sujeitos e objectos sexuais, graças a deus, muito obrigada. Como mulher e feminista, ofende-me o conceito de que tudo o que tem a ver com sexo é do interesse masculino, ergo mulheres retratadas em situações sexuais estarão apenas a ser usadas pelos homens. Mostrar o corpo feminino como algo de belo e desejável, só pode parecer mal a quem tem saudades de outros tempos, dos tempos do recato e do controlo público sobre as mulheres. Dos tempos em que mulheres que mostravam (ou usavam) o corpo não mereciam respeito. Em que uma mulher publicamente sexualizada era uma mulher, de alguma forma, menor. Este discurso parece-me errado, do ponto de vista feminista, em toda a linha. Em primeiro lugar, reproduz esta noção da mulher como objecto passivo e desinteressado da sexualidade. Depois, sustenta que a imagem pública do corpo feminino deve ser objecto de um controlo específico, deve ser limitada por outra coisa que não a livre vontade das próprias mulheres. Mantém a ideia de censura – e nenhum discurso que se queira ligado a valores de libertação, seja o feminismo ou outro qualquer, se pode basear num conceito próprio de quem se vê como regulador iluminado da vida dos outros. "

mataram zapata

Aminatu Haidar. Orlando Zapata. Ela, uma activista sarauí de 44 anos, fez greve de fome num aeroporto espanhol, depois de ver a sua entrada em Marrocos recusada pelas autoridades locais e conseguiu, graças à atenção e pressão internacionais, regressar à sua terra e aos seus filhos; ele, um activista cubano de 42 anos, morreu anteontem, após 85 dias de greve de fome na prisão.

 

Sim: Zapata morreu. Mas dele só soubemos o nome porque morreu. Para ele não houve petições a circular no Facebook e entre as "personalidades" portuguesas e estrangeiras, mesmo se houve cartas e apelos do Movimento Republicano Alternativo (a que pertencia) e da Amnistia Internacional a alertar para a sua greve de fome e para os maus tratos e espancamentos de que era alvo. Merecia menos que Aminatu? Cuba é menos cruel que Marrocos? Ou faltaram os directos e as entrevistas e as fotografias e os artigos inflamados?

 

Zapata foi preso em 2003 por "desobediência", "desrespeito" e "desordem pública" e condenado a 25 anos. Os seus "crimes" dizem tudo por ele. Tudo sobre a atrocidade da sua morte e tudo sobre o obsceno regime cubano - um regime que continua a merecer o beneplácito e a bonomia de tanta gente que não hesitou em pôr o seu nome na lista pela "libertação" de Aminatu mas que de Orlando não sabe "o suficiente".

 

Eu, pelo contrário, sei pouco sobre Aminatu e sobre o Sara e Marrocos (deveria saber mais, decerto) mas sei o que é preciso sobre um regime do qual tanta gente diz "não é assim tão mau". Um regime envolto na mitificação romântica dos heróis de uma esperança massacrada e nas suas imagens épicas, recortadas em multidões empolgadas e em frases grandiosas que só sabem a mágoa. Um regime horripilante de verdugos charmosos.

 

Um regime onde se usa sobre pessoas uma palavra que pensei, depois do fim da ditadura portuguesa, nunca mais ouvir ao vivo: "subversivo". "Esse indivíduo é um subversivo", disseram-me dois polícias a propósito de um rapaz de 19 ou 20 anos filho de um veterinário que tanto me seringara na rua que, inexperiente repórter por quatro dias na Havana de 1991, lhe oferecera um jantar na Bodeguita del Medio, o restaurante "de Hemingway", e que o prenderam (prenderam!) à saída porque "é proibido os cubanos falarem com turistas".

 

Um regime que fez de um país bonito de gente bonita, praias bonitas, calor, rum e charutos uma coisa única, uma espécie de museu-prisão das revoluções traídas da América do Sul, das utopias "generosas" das esquerdas europeias. Um cenário de inesgotável nostalgia e amargura, sim, bom para fotografias e documentários. Mas onde se morre por "desobediência". Cuba é uma ditadura, os Castro são criminosos e Zapata foi assassinado. Outra vez.

 

(publicado hoje no dn)

 

 

brinde: 2 posts antigos sobre cuba. aqui e aqui

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