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O rancor

É uma palavra feia. Rancor. Tem som de ódio, cor de desadoração. Cheira a aversão, o toque reage-lhe com repulsa, às vezes com (mera) embirração. Tem sabor de orgulho que cega. É uma palavra feia, pois. Ai de quem, coagido pelos sentidos reféns — dizem que são cinco nos homens, seis nas mulheres (o que as desculpa ainda menos) —, se aconselha por ela. O cheiro da sobranceria, o barulho do tijolo cru, a imagem do berro que ninguém compreende, a sensação da razão em fuligem. E tudo assim preferir, alimentando-se da altivez de quem prefere cair a agarrar-se.

Com rancor se faz e se desfaz. Países e paixões. Não sendo o rancor, o mapa dos homens seria talvez diferente, conceda-se. Estaríamos a falar inglês, alemão, castelhano. Latim? O rancor é também nosso, português e mais, e ai de quem nunca por ele se alumiou. Alucinou. Porque fomos rancor, somos (usem a desculpa com moderação).

Ao nascer, berramos raivosos. Ao morrer, gritamos vingativos. A causa é a mesma: rancor. A puta da luz que nos ensombra. Assombra?

Há, porém, quem pareça decidir viver assim, respirando só esse estar — certo da certeza de que a culpa não lhe pertence. Ainda que não haja culpa, ainda que as coisas sejam mesmo assim. Ainda que o delito seja das coisas que são. Só por serem.

Às vezes (quase sempre), o rancor serve apenas para roer a alma (a nossa e a dos outros), que os países já se inventaram e as paixões repousam na serenidade do que é ou do que foi. É também isto, o rancor: exculpação, projecção no outro do que correu menos bem.

Em suma, e do rancor: às vezes sim, outras vezes não.

(também neste arquivo de coisas)

as casas dos outros

vistas da minha janela -- aberta sobre elas como elas sobre a minha. ali em frente, as salas de luz confortável desvendam quadros e candeeiros, vultos às vezes. sentada a escrever, sou como eles para mim um quadro, talvez hopper. uma história -- todas as casas, vazias ou não, contam histórias. nada conta histórias como uma casa. excepto um corpo -- mas nenhuma casa deixa de ser um corpo, o rasto e a presença dele, o seu destino cifrado.

 

horror a não ter uma casa, horror a olhar estas janelas sem ter uma minha, horror a não ter onde entrar, onde voltar, de onde ver as paredes, os soalhos, os quadros, os candeeiros dos outros, de onde imaginar o cheiro e a temperatura e as vozes e as narrativas nessas salas. horror do eco sem paredes, do sono sem a vigília desta fronteira. horror de não poder ver-me, na minha janela, das janelas dos outros.

 

A Europa ainda existe?

Pode-se aceitar que o PEC apresentado pelo governo em Bruxelas seja uma necessidade imposta pela necessidade de impedir o drástico encarecimento do financiamento externo da dívida pública e, em geral, da economia portuguesa. Sendo os arranjos institucionais europeus o que são, a margem de manobra não é grande.

Mas é descabido acreditar-se que o PEC resolve o problema de fundo. Não só não o resolve, como complica a sua resolução.

A crise mundial determinou a quebra das exportações e do investimento, vazio em parte preenchido por políticas públicas dirigidas à sustentação da procura interna que provocaram directamente o crescimento do défice do Estado português.

Só poderiamos retirar confiantemente os estímulos públicos se as exportações e o investimento privado crescessem. Mas a política financeira e monetária europeia, obcecada com a inflação e os défices estatais, encarrega-se de garantir que, tão cedo, isso não acontecerá.

Paradoxalmente, quando mais se insistir na redução drástica e simultânea das necessidades de financiamento de todos os Estados europeus, menos provável é que isso venha a acontecer. Inclino-me, pois, a prever que a Europa não progredirá em 2010 nem no plano do crescimento, nem no do saneamento das finanças públicas.

A perigosa confusão entre política financeira e política económica acabará por ter que ser reconhecida, telvez tarde demais. Para já, impressiona a passividade do governo português ao nível de iniciativas internas destinadas a impulsionar o desenvolvimento. Tal como impressiona o silêncio do Parlamento Europeu no meio desta crise profunda.

A Europa ainda existe?

Parece mentira, mas não é (infelizmente)

A EMEL tem dias... Ou não entra ninguém em Alfama ou é " tudo ao molho e fé em deus". "Fé" bem precisa...pois este "parque de estacionamento" estava "completo" hoje, dia 1 de Abril de 2010 cerca das 15 horas. Fica mesmo em frente ao Palácio D.Rosa que no passado dia 22 de Março, ao final da tarde ardeu. (já agora se tivesse sido hoje teriam deixado entrar o vizinho?) Qualquer dia é "dia de santa maria" e isto arde que "nem um fósforo" (como se diz por aqui).

Os véus da democracia

Stephen Joseph Harper, 1º ministro do Canadá, parece considerar, desde que tomou posse em 2006, que os direitos das mulheres se restringem à sua condição de parideiras. Assim, não espanta que o governo canadiano só agora, depois de mais de dois anos de pressões, pareça disposto a fazer algo por uma das suas cidadãs, Nazia Quazi, retida na Arábia Saudita contra sua vontade desde Novembro de 2007. De acordo com as leis arcaicas em vigor na teocracia wahabita, as mulheres de todas as idades estão sujeitas a tutela masculina por um mahram ou guardião. O guardião de Nazia é o pai, que lhe confiscou todos os documentos e não lhe assina o visto de saída que lhe permitiria voltar para o Canadá.

 

Como escreveu em Fevereiro no The Nation a jornalista Katha Pollitt, «How far have women come if a democratic, secular country like Canada permits a father to imprison his adult daughter in the cage of Saudi laws?». No Canadá do partido Conservador, parece que esta caminhada dos direitos das mulheres conheceu um sério retrocesso nos últimos anos. Mas não apenas no Canadá e em particular no que respeita a mulheres muçulmanas ou de famílias muçulmanas. Há demasiadas pessoas que pensam que a defesa dos seus direitos se restringe, como aconteceu hoje na Bélgica, à proibição do uso do niqad e da burqa em democracias ocidentais. Pelo menos é o que depreendo do destaque, discussões acaloradas e prioridade que se dá à «defesa» dos direitos da meia dúzia de mulheres que os envergam e do silêncio e inacção em torno de casos como o de Nazia.

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