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jugular

Elevação, sentido de responsabilidade e outras lérias

 

Podendo, não perco um jogo de futebol na TV. Mas, desenganado pelos detractores, jamais me dera ao trabalho de sintonizar um desses programas em que comentadores adeptos dos três principais emblemas se esgadanham a propósito dos casos da última jornada.

Há dias, porém, manifestando o seu desagrado perante o nível reles a que desceram os debates políticos, um amigo comentou: “Isto está pior que as peixeiradas da bola!”

Estaria? Fui ver.

E tenho uma boa nova para vos dar. Ao lado do Bagão Félix, o Vieira é um cavalheiro. Comparado com o Miguel Relvas, o Rui Santos é um crâneo. Depois de se ouvir o Martim Avilez Figueiredo, o Fernando Seara revela-se um modelo de clarividência.

Nos debates futebolísticos, os cartões amarelos e os eventuais penalties são analisados à luz crua dos factos e com recurso a imagens não falseadas nem truncadas.

Os participantes procuram pelo menos simular as regras de uma controvérsia civilizada a partir de conflitos de uma tal gravidade que o modo mais natural de resolvê-los seria ao murro e a pontapé. Ao invés, estando em causa dissensões políticas, os arguentes esforçam-se por seguir o caminho oposto, caminhando da divergência intelectual para a agressão verbal, enquanto ansiosamente aguardamos o dia em que eles passarão a formas superiores de luta.

Os programas eleitorais dos candidatos à Presidência do Sporting são escrutinados ponto a ponto. A sua coerência é sistematicamente questionada. A credibilidade das promessas eleitorais é investigada. Tudo isto com recurso a argumentos lógicos laboriosamente testados que só não esclarecem os eleitores mentecaptos. Quase um modelo de democracia ateniense.

Outro exemplo. Os repórteres dos programas de informação política perguntam a Dilma Rousseff se vai enviar dinheiro para salvar Portugal e ao servente de pedreiro se deveríamos chamar o FMI. Têm razões para invejar o profissionalismo dos repórteres desportivos que, sensatamente, se limitam a interrogar os benfiquistas por quantos vai o seu clube vencer o Porto e quem marcará os golos.

Libertem-se de vez dos preconceitos dos intelectuais de pacotilha. Elevação, inteligência e sentido de responsabilidade, hoje em dia, só no futebol. Turn on, tune in, drop out.

A inevitável reestruturação da dívida

Ricardo Cabral em entrevista ao Expresso online conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues:

"Embora nos encontremos atualmente numa situação bem mais dramática e premente, pelas razões conhecidas, é um erro recorrer à ajuda externa neste momento e espero que o governo tenha a força para perseverar neste momento difícil do país, apesar dos sucessivos obstáculos de agências de ratings e instituições europeias (BCE) que quase parecem concertados. Não pretendo aqui entrar na discussão politico-partidária em que esta questão económica infelizmente se tornou, mas é minha firme convicção que recorrer ao atual pacote de ajuda externa do FEEF/FMI é contra o interesse nacional."

Se bem entendo, Ricardo Cabral, especialista em teoria dos jogos, pensa que não estamos a utilizar suficientemente a capacidade negocial de que dispomos. Tendo a concordar.

Convém ler também o post que assinou ontem no The Portuguese Economy.

A sinédoque

Acabo de ler um notável texto de Henrique Raposo, intitulado "Sócrates, o homem que não acreditava em nada" e apercebo-me que Henrique Raposo pode usar-se como sinédoque de um certo país. Um certo Raposo, o país que não acreditava em nada. O que Henrique Raposo exemplifica é, afinal, a teoria da projecção a que esse Portugal está votado. 

 

Esse país não tem nada para mostrar, só para derrubar tudo - PEC, avaliação de professores, e o mais que lhe dessem tempo. Este é o país de Raposo e de tantos outros, à esquerda e à direita, o tal país que não acredita em nada e por isso quer destruir tudo. Projectar em Sócrates é simultaneamente um sintoma e uma mania, que vai ficando crónica.

 

Voltar à realidade e pensar em resolver problemas é uma terapia, aparentemente, longe demais. E tão necessária.

o censos censor

Escrevo este texto no dia em que preenchi o questionário do Censos. Confesso que o achei estapafúrdio em alguns aspectos – por exemplo, perguntar às pessoas se alguém que não faz parte do agregado passou a meia noite do dia 21 de Março naquela morada e, caso afirmativo, qual o seu nome (como é natural e talvez até desejável, muita gente não responderá com verdade a tal questão); se têm garagem mas não se têm carro, e quantos por agregado; sobre a existência de uniões de facto de sexo diferente e do mesmo mas, no caso do casamento, ignorando a alteração existente desde Maio de 2010; solicitar a quem trabalha com falsos recibos verdes -- que foi contratado para trabalho dependente mas é tratado pelo empregador, para efeitos fiscais e de segurança social, como independente -- que se assuma como trabalhador dependente. 

 

Mas a questão que mais escândalo me suscitou – até por não ter dado conta de qualquer reacção institucional que se lhe referisse -- é a última do questionário individual, facultativa (por imperativo constitucional) e sobre religião. Nada tenho contra a pergunta sobre crenças, mas tenho tudo contra a forma como é formulada. E o tudo começa no título: “Indique qual é a sua religião”. Pressupõe-se assim que todos temos religião – incluindo os que a não têm, já que entre as respostas possíveis, se encontra, em último lugar (!), “Sem religião”. Era muito fácil evitar esta estultícia: bastava que o título do bloco fosse “situação face à religião”, ou mesmo só “religião”. Mas a forma como o bloco está elaborado é mais que estulta: é capciosa e completamente contraditória com a natureza laica do Estado português. Não só por pressupor a existência de uma afectação religiosa como norma – independentemente de poder ser essa a verdade estatística o Estado não pode impor esse princípio – mas pelo elenco das oito hipóteses possíveis, a saber, “Católica”; “Ortodoxa”; “Protestante”; “Outra Cristã”; “Judaica”; “Muçulmana”; “Outra não cristã”; “Sem religião”. Não é preciso ser uma águia para apreender a total arbitrariedade quer da enumeração quer da ordem (que, como se sabe, nunca é despicienda – basta lembrar que no caso dos boletins de voto é sujeita a sorteio, et pour cause – e que não é a alfabética, a única aceitável, nem sequer a da representatividade numérica, já que coloca os protestantes depois dos ortodoxos e os  muçulmanos depois dos judeus).

 

Numa matéria tão reconhecidamente sensível como esta – daí, desde logo, o carácter facultativo da pergunta – exigir-se-ia que não subsistisse a menor suspeita de discriminação; que quer os termos da pergunta quer as respostas possíveis respeitassem a ideia da igualdade constitucional entre a crença e a não crença e entre os variados credos. Nada disso, porém. Ao ponto de podermos – devermos – questionar qual o objectivo desta questão. É que se fosse perceber quantos residentes em território nacional se afirmam religiosos e quantos não, nunca podia partir do pressuposto de que todos o são; se a ideia é saber quantas crenças existem no território e qual a sua natureza, jamais se efectuaria uma lista que assume a existência de uma religião “ortodoxa” (existem várias seitas cristãs ortodoxas), deixa de fora hindus e budistas (por exemplo) mas inclui os judeus, escassas centenas, não tem a opção evangélicos (que de um modo geral não se assumem como protestantes -- por exemplo, no Censos de 2001, cujo questionário era nesta matéria igual, as respostas identificaram cerca de 47 mil cidadãos protestantes e quase o triplo como “outra cristã”, o que é esclarecedor) e – mais grave de tudo – não permite a possibilidade de as pessoas se inscreverem simplesmente como “cristãs”. Ao impedir essa inscrição, o que o Instituto Nacional de Estatística está a fazer é a distorcer, consciente ou inconscientemente – e a este nível não pode haver distorção inconsciente – a representatividade da religião católica no País, já que muitos dos que se assumiriam simplesmente como “cristãos” (numa definição sobretudo cultural) vão assinalar-se como “católicos”. Tal como está elaborada, a questão sobre religião censura – porque manipula e rasura -- a realidade. Não deve ser preciso dizer que isso é inaceitável e deveria merecer, de volta, a censura de todos. E levar-nos a exigir uma explicação sobre os critérios utilizados e as entidades consultadas para a elaboração da pergunta, sendo certo que a Comissão da Liberdade Religiosa não o foi. 

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 27 de março)

 

Ler os outros

A política portuguesa, no mínimo, está do avesso.

 

1- Agora que temos possibilidade de expressar pelo voto o que pensamos da situação de near-default  a que chegámos e de como sair dela, pressionam os sábios que façamos ANTES de eleições uma questão fundamental que marcará o país até 2013 e mesmo depois (atendendo aos mecanismos que foram colocados em funcionamento para os casos da Grécia e da Irlanda).

 

2- Um acordo com Bruxelas para um resgate exige um Memorando de Entendimento (MoU) que como se viu na Irlanda e na Grécia (neste caso com um governo recém-eleito do PASOK depois da derrota da Nova Democracia) não é consensual nos eleitorados nem entre os arcos políticos. Exige, também, um PEC adicionado ou incluso para apresentar no “semestre” preventivo agora exigido pela zona euro, mesmo que com atraso (deveria sê-lo até final deste mês).

 

(...)

 

3- Mesmo, no caso da Irlanda – e apesar da inteligência política de um acordo político pré-eleitoral para deixar passar o Orçamento de 2011 e convocar eleições depois -, pontos importantes do MoU assinado pelo Fiana Fáil (enquanto governo ainda com plenos poderes) estão hoje em impasse de discussão entre Bruxelas e o novo governo eleito de coligação do Fine Gael/Trabalhistas. Um impasse que enerva os mercados da dívida e que funciona como um garrote – a par da situação na Finlândia que vai a votos em Abril.

 

4- Querer, agora, com um parlamento dissolvido – onde nem um MoU (um travesti obrigatório de PEC V ou PEC IV-v2) pode ser discutido pelos eleitos – apresentar a Bruxelas um MoU, complexo, e que marcará a condução económica e financeira do país até 2013 no mínimo , é de uma falta de respeito para com o eleitorado sem classificação.

 

5- Se os advogados dessa vinda do resgate já! acham que a coisa é assim tão fácil ser agora resolvida em discussões de um arco político à porta fechada e na sombra e em just in time (continuando sem direito a foto de casamento), porque não o fizeram antes – porque não apresentaram, em termos sucintos, num powerpoint ou num A4, os pontos fundamentais de um PEC IV-v2, ou seja de um MoU com Bruxelas?Aliás, teria sido politicamente mais esclarecedor e obrigaria o governo, ainda com plenos poderes, a ter de lidar com essa questão previamente, mesmo que procurando ganhar tempo, como o fez, aproveitando as contradições no seio da União Europeia e da própria zona euro.

 

6- Se uma coligação negativa parlamentar apontou para eleições, ou se uma coligação alargada maquiavélica (entre o governo e as franjas do parlamento) entalou o partido alternante (a tal armadilha de que falam os nossos dois “príncipes” da Quadratura do Círculo) fez o mesmo serviço, é em eleições, agora, que se deve resolver o problema.

Jorge Nascimento Rodrigues, texto publicado no blog da SEDES

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