Assim à laia de "antes da ordem do dia": se a homossexualidade não é (não deve nem pode ser) fonte de direitos também não pode ser, de per si, fonte de falta deles. A aprovação do casamento de pessoas do mesmo sexo é disso exemplo. Defendo que a ninguém pode ser negada a possibilidade de, tal como eu, poder decidir não querer casar, ora para que tal seja uma realidade é necessário que a possibilidade de casar exista.
Agora o tema. Com a legitimação legal da adopção por casais homossexuais não é o reconhecimento social da homossexualidade que está em causa. Nem a qualidade parental depende da orientação sexual nem a homossexualidade depende do reconhecimento social, existe, ponto. Casamento e parentalidade são coisas diferentes, como a lei portuguesa bem o prova, aliás, ao permitir a adopção de crianças por homossexuais solteiros, por exemplo.
Se, como de resto o Pedro afirma no texto, não é a orientação sexual que determina a qualidade parental, como baralha a defesa do interesse da criança com a orientação sexual dos progenitores? Mais, estas crianças, filhos biológicos e adoptados de pais homossexuais, já existem e a sua ética pessoal e a sua saúde mental não são de pior qualidade que a dos filhos de heterossexuais (aqui está alguma informação sobre o assunto mas há mais, bastante mais, espalhada pelo Jugular). A que preço se refere? Estigmatizante é uma lei obrigar uma criança a omitir uma realidade que é a dela.
E a cereja em cima do bolo é a dos "papéis masculino e feminino definidos". De que falará exactamente, será deste género de patacoadas? Mais, onde foi buscar a ideia de que a formação de uma personalidade se resume a um dever e um direito dos pais? Análise simplista, deixe-me dizer-lhe, patética e pouco informada. Imagine só que, sendo solteira, tenho um projecto de vida "estável e claro", para além de uma filha com uma personalidade sintónica criada numa família monoparental.
Adenda: Só para acrescentar mais este link e um pequeno comentário. Homossexuais conservadores é o que para aí não falta, Pedro, como muito bem sabe, sai-lhe furada, por isso, a ironia com que terminou a sua crónica.
"Há um Santos Silva banqueiro (Artur) e um Santos Silva ex-ministro (Augusto), e foi naturalmente a este que se passou cartão porque o assunto era achincalhar: "Cartões milionários na Defesa", titulou o Correio da Manhã. O Santos Silva não milionário, afinal, era-o... O ministro da Defesa do último Governo tinha dez mil euros de plafond!, gritou o jornal, tão alto quanto o teto do cartão bancário. O CM tem a mais apurada pituitária dos jornais, se fosse escaravelho haveria de se chamar rola-bosta, quem gosta fica bem servido. E assim lá houve mais um episódio de indignação esganiçada. Tudo normal, não fosse o tal Santos Silva não ser dos políticos que quando há suspeitas sobre as suas contas se negam a divulgá-las. A contracorrente do que é norma, o Silva do teto alto, em vez de deixar a suspeita assentar e esquecer, espevitou-a. É certo que começou por dizer, o que podia ser mero truque para protelar a explicação, que do cartão de serviço só gastara em serviço. Oh filho, os fãs do rola-bosta querem é saber se bebeste Petrus à custa do povo... Mas não, o Silva do cartão não estava a protelar coisa nenhuma, tirou a coisa a limpo e exigiu que o Ministério da Defesa tornasse público o que gastara. E ontem soube-se: nos 20 meses em que foi ministro, do seu cartão super-hiper de dez mil euros, Augusto Santos Silva gastou uma média de 147,72 euros mensais. Deixa-me fazer contas: dez mil, manchete; 147 euros, deve dar duas linhas" Ferreira Fernandes.
Cada um se compara com quem acha justo, Pedro, vexa lá saberá.
Os dados oficiais estão à distância de um clique, é procurar, já responder ao meu pedido de esclarecimento 'tá quieto.
Adenda: A Shyznogud é mais querida que eu e fez a papinha, pronto, só um dado (os sublinhados são meus): "Cerca de 15% (14/92) das mortes maternas ocorridas entre 2001 e 2007, associaram‐se a diferentes situações de aborto. Os grupos etários onde a percentagem de abortos com morte materna foi mais elevado foi o 15‐19 anos com 50% (2/4) e o dos 25‐29 anos de idade com 25% (4/16)." In: Mortes maternas em portugal 2001-2007, relatório da Direcção Geral de Saúde
Terrível, pandémico, galopante. O vírus CM alastra por todo o lado. Até a rádio pública já foi contaminada. Hoje dei um salto ao ouvir uma manchete-bomba na Antena 1: "Portugal é um dos países do mundo com maiores desigualdades sociais". O choque durou uns instantes, entre as headlines e o desenvolvimento. "Do mundo"? Pensei nas cleptocracias africanas, nos estados falhados, nos países de elites pornograficamente ricas e de populações indigentes, nos Mobutus, nos Eduardos dos Santos, nos Suhartos, nos Marcos. Como era possível? Ou vivo numa outra dimensão ou padeço de negação da realidade: nem vejo Passos Coelho a desviar milhões para a família, nem hordas de indigentes a viver de e nas lixeiras urbanas. Pouco depois, o desenvolvimento da notícia esclarecia tudo. Um pequeno pormenor é então revelado: "...entre os países da OCDE". Bom. A ONU tem 193 estados. A OCDE tem 34. Diferença pequena, não é? Não nos podemos orgulhar de grande coisa nestes últimos tempos, é verdade. E Portugal resvala para um empobrecimento geral e para o agravamento das desigualdades. Mas haja decência e um mínimo de bem senso.