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Krugman e os salários portugueses

Não assisti à conferência de Paul Krugman, nem ouvi a entrevista que ontem passou num canal de televisão. Porém, durante o dia ouvi na TSF a extraordinária afirmação de que Krugman defendera a baixa dos salários como forma de aumentar a produtividade, um absoluto contra-senso.

Há pouco consegui finalmente ler no Negócios a excelente entrevista conduzida por Pedro Santos Guerreiro e Vítor Gonçalves, e eis o que encontrei sobre o assunto:

"No mínimo, os salários portugueses têm que crescer mais lentamente que no resto da Europa. Na prática, seria necessário algum abrandamento. De uma forma ou de outra, terá que haver um ajuste substancial."
"Considero que tem que ser feito um ajustamento. Obviamente, gostava de vê-lo pela parte da produtividade em vez de pelos salários. Mas não há forma de isso acontecer com garantias. Eu preferiria até que esse ajustamento fosse alcançado com os salários alemães a subirem em vez de serem os salários portugueses a caírem. É a análise relativa que interessa. Logo, se conseguirem persuadir a Frau Merkel a fazê-lo, seria óptimo. Caso contrário, tem de haver aqui um ajustamento."
"Gosto de fazer um pequeno exercício de aritmética. Se dissermos que cerca de 20 ou 30% de redução nos salários da Europa do sul em relação aos alemães terá de acontecer, faz toda a diferença saber se isso ocorre com uma redução de 3% anual nos salários do sul da Europa, com uma subida de alguns pontos percentuais na Alemanha, ou se acontece através da manutenção ou subida dos salários do sul da Europa, enquanto os salários alemães sobem 5 ou 6%. É uma enorme diferença a nível do desemprego que irá existir na Europa do sul, a nível de dinâmica da dívida..."

Noutro lugar do jornal, Eva Gaspar e Pedro Romano sintetizam corretamente: "O essencial da resposta deveria vir dos actores com mais capacidade para fazer a diferença, com salários mais altos para os trabalhadores alemães e uma política monetária mais inflacionista. Se assim fosse, o ajustamento necessário na periferia seria menos doloroso, mas essa via [sic] ainda menos provável."

Em sítio algum Krugman recomenda que os salários sejam baixados em Portugal. Porém, ele acredita que, na impossibilidade de uma desvalorização cambial, é necessário um reajustamento relativamente aos salários alemães e afirma taxativamente que a melhor solução seria a subida dos salários alemães (estagnados há vários anos) e alguma inflação na Europa.

Caso isso não aconteça, então poderá ser inevitável a redução nominal dos salários portugueses. É isto uma recomendação? De forma alguma.

Terá Krugman razão? A desvalorização interna não é, em minha opinião, uma alternativa à desvalorização externa. Por outro lado, não há futuro para Portugal na zona euro caso ela não sofra uma profunda reforma. Desvalorização interna sem reforma do euro será para nós um beco sem saída.

Do que não pode haver dúvida é que, com razão ou sem ela, o pobre Krugman tem direito à sua opinião. Não está certo que lhe atribuam coisas que não pensa.

Gestão para tótós

Ninguém sai gestor de uma escola. Em contrapartida, pode-se aprender em certos estabelecimentos universitários de elite conversa de gestor , paga a peso de ouro, para impressionar os pacóvios, jornalistas incluídos.

Nos últimos tempos, esse jargão parece também ter-se convertido num simulacro de programa político ao serviço das "reformas estruturais" e da subversão do estado social. Ouçam o Relvas, que é o exemplo acabado de burrice ambulante, e digam-me lá se não encontram semelhanças com este discurso.

Fundações: primeiras impressões da proposta de lei n.º 42/XII

(Shyznogud made me do it)
O Governo aprovou recentemente uma proposta de lei com o propósito de reformar o regime jurídico fundacional, que irá começar a ser discutida na Assembleia da República nos próximos dias. Importa, por isso, deixar alguns comentários tópicos sobre o tema e uma brevíssima nota prévia.

 

Nota prévia:

 

A proposta aprovada em Conselho de Ministros pretende conciliar dois percursos distintos.

 

Um, mais lento, destinado a levar à alteração global do regime jurídico fundacional em Portugal. É uma ideia velha de, pelo menos, uma década, se tomarmos como seu surgimento a apresentação dos projectos da Comissão Alarcão, em 2001, com três ante-projectos sobre o tema. Como qualquer reforma importante e complexa, o tempo desta reforma tem que ser um tempo de calma e reflexão. Uma década pode parecer muito tempo, mas para se ter uma ideia, talvez o exemplo alemão seja esclarecedor: o BGB (o código civil alemão) está em vigor desde 1900, a parte relativa às fundações só foi revista em 2001 e as primeiras discussões sobre a reforma começaram em 1962...

 

O segundo percurso é bem mais recente. Prende-se, tal como é logo adiantado na exposição de motivos da proposta de lei, com compromissos assumidos perante a UE, o FMI e o BCE. Em bom rigor e comparando o que se escreve na exposição de motivos com os dois pontos do Memorando de Entendimento alusivos às fundações (3.42 e 3.43), o que as contra-partes pretendem é alteração de dois aspectos muito específicos: o controlo dos gastos públicos e a melhoria do governance das fundações públicas ou sobre controlo público. Nada é dito sobre fundações privadas, sendo a exposição de motivos e as normas da proposta de lei que colocam tudo no mesmo saco, sem ulteriores esclarecimentos.

 

A confluência destes dois distintos percursos fundamentadores da proposta de lei leva a que tenhamos duas personalidades distintas nesta proposta de diploma, uma boa e uma má. No que toca aos aspectos directamente ligados com o Memorando, ie, controlo financeiro público e governance, a proposta é de saudar; no que toca aos aspectos de sistematização do regimes fundacionais a proposta fica muito aquém das expectativas.

 

 

Vejamos: )

 

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