Recordo anos em que, no 25 de Abril, eramos brindados com um sol de luxo e as praias abarrotavem de gente.
Mas, agora, parece que estamos no Outono, e já dei por mim a pensar que, não tarda, será altura de começar a fazer as compras para o Natal.
É melhor assim. Em indo para a praia, os adultos bebem cerveja, as crianças lambem gelados e a austeridade sai irremediavelmente prejudicada. Se nos distraímos um pouco da nossa recomendável condição de indigência, lá dispara outra vez o défice externo.
Não podemos de forma alguma perder o foco, justamente agora que lá fora tanto se gaba a lusa mansidão.
Já basta o risco que corremos de as pessoas perderem o tino caso a seleção sobreviva à fase de grupos do europeu.
O tempo que por estes dias faz está em perfeita consonância com o clima político. Não, não é acaso, antes fruto de muita persistência e de um empenhado sentido estratégico.
Diziam ontem na tv que, nas previsões do FMI, só voltaremos a crescer em 2017, e, ainda assim, apenas 1,7% (creio que era isto).
Não ponho grande fé nesse oráculo. Primeiro, porque a adivinhação não é uma ciência; segundo, porque o FMI tem errado sistematicamente em relação a Portugal.
Mas quem acredita nessa perspectiva - ao que parece, a generalidade dos jornalistas e dos economistas profissionais, Banco de Portugal incluído - deveria preocupar-se mais do que aparenta, até porque estas profecias têm uma certa tendência para serem self-fulfilling.
Onde estará o desemprego com um desempenho assim nos próximos cinco anos? Vá, comecem a fazer as contas, e digam-me se será possível evitarmos ter daqui até lá um quarto da população activa desocupada.
Depois, comecem a pensar como será possível pagar subsídios de desemprego a toda a essa gente, manter os hospitais e as escolas em funcionamento e assistir os reformados. Mais concretamente, digam-me se imaginam que uma sociedade mergulhada na penúria como essa que se antevê terá condições para continuar a viver com alguma normalidade.
E supõem que as pessoas permanecerão atentas e venerandas a votar de quatro em quatro anos para a Assembleia da República e de cinco em cinco para o Presidente da República?
Está claramente na hora de começarmos a pensar noutra coisa.
Na 5 de Outubro, à hora do almoço, nota-se pouco movimento e muitos lugares de estacionamento vagos. Não é bem como se fosse domingo, mas tampouco parece aquilo a que se convencionou chamar dia de semana.
Escasseiam os transeuntes, restaurantes às moscas recuperam de canseiras passadas. Cansadas parecem de facto as poucas pessoas que olham as desoladas montras. Lojistas sem freguesia vêm até à porta ver em que páram as modas que, aliás, não páram.
Nalgumas ruas laterais reina por vezes durante demasiados segundos um silêncio estranho e ameaçador.