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A Troika está preocupada com os níveis de desemprego, e diz: são necessárias mais reformas estruturais no mercado de trabalho. Isto não surpreende, porque a Comissão Europeia, o BCE e o FMI praticam um tipo de economia que se convencionou chamar New Consensus Macroeconomics, onde:
A economia é tida como essencialmente estável, porque os mercados, desde que sigam o seu curso 'natural', são eficientes e garantem o pleno emprego e a justa remuneração dos factores produtivos. A política macroeconómica deve ter como único objectivo não perturbar esta ordem natural, e a política microeconómica (as famosas reformas estruturais) deve ter como objectivo criar as condições para que os mercados funcionem de forma 'flexível' e 'eficiente';
A actividade económica flutua em torno de um ponto de equilíbrio. O equilibrio de longo prazo depende da chamada taxa natural de desemprego, que é um equilíbrio real, determinado exclusivamente pelo funcionamento do mercado de trabalho. A taxa natural de desemprego será tanto menor quanto mais flexível for o mercado de trabalho. Na ausência de rigidezes (salário mínimo, subsídio de desemprego contratação colectiva, sindicatos, etc) o preço do trabalho ajusta-se de modo a garantir o pleno emprego. Nem a política fiscal nem a política monetária têm qualquer tipo de influência na determinação da taxa natural de desemprego. Só as chamadas reformas estruturais o podem fazer.
A Lei de Say é válida: o nível de procura agregada não tem qualquer papel na determinação do potencial de longo prazo de uma economia.
Para a Troika, o que explica o desemprego não é - não pode ser - a destruição de empregos e a austeridade – essa é a consequência inevitável e desejável do chamado ajustamento. O problema é não estarem a ser criados novos empregos. E isso só pode ter um tipo de explicação: o desemprego persiste, teimosamente, por causa das tais rigidezes no mercado laboral. Daí a insistência na redução dos salários (os salários de quem foi despedido ainda não baixaram o suficiente para estes serem contratados por outros sectores da economia), nos cortes do subsídio de desemprego (os subsídios são demasiado generosos e desincentivam a procura de emprego) e na conversa do empreendorismo e de como o desemprego deve ser encarado como uma oportunidade.
Para a Troika, só as reformas estruturais nos podem salvar, e se ainda não nos salvaram é, logicamente, porque ainda não foram suficientemente aplicadas. O que a Troika não aceita é que níveis de desemprego elevados possam persistir independentemente da flexibilidade do mercado de trabalho. Isso nunca. Admitir tal coisa implicaria abandonar a tese de que a economia tende (naturalmente) para o equilíbrío e para o pleno emprego, a lei de Say e todos os outros axiomas que sustentam a sua visão essencialmente mitológica da economia. Se tal viesse a suceder, a Troika seria obrigada a reconhecer a falência intelectual da sua ' ciência' económica. O custe o que custar faz, portanto, parte da sua própria identidade. Os seus falhanços não são defeitos, são feitio.
O Eurostat diz que a taxa de desemprego jovem em Portugal chegou aos 36,6%. Os jovens estão deprimidos?
Preocupados, com certeza, mas não diria deprimidos. Essa associação geral entre desemprego e um humor mais depressivo e mesmo depressão verifica-se com pessoas da meia-idade e por aí adiante. Os jovens não estão deprimidos, até porque têm o apoio das redes sociais e da família, e, por outro lado, o desemprego é tão comum, tão normativo entre eles que não o sentem como um estigma. Nas gerações mais velhas, sim, estar-se desempregado é estigmatizante e desqualificante.
O excerto acima faz parte da entrevista feita pelo Público a Joaquim Luís Coimbra, docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Como é que se podem fazer afirmações tão peremptórias e superficiais? Certamente existem jovens deprimidos e banalizar o desemprego desta maneira só porque é um evento comum parece-me completamente despropositado, para não dizer coisas piores e menos próprias.
Rogério da Costa Pereira
Rui Herbon
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The times they are a-changin’. Como sempre …
De facto vivemos tempos curiosos, onde supostament...
De acordo, muito bem escrito.
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aaaaaaaaaaaaAcho que para o bem ou para o mal o po...