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jugular

A troika no seu melhor

Tenho estado a ler o último relatório oficioso da troika sobre a Grécia, divulgado há dias no site do "Financial Times". Contém pormenores de análise deliciosos. Um deles é sobre o aumento do crédito malparado. O parágrafo 19 (pág.13) começa assim: 

"Greek banks continue to face the consequences of the recession and an unwillingness of some borrowers to service their debt obligations, while credit to the economy keeps shrinking."

Unwillingness: relutância, falta de vontade. No fundo, é isto que impede os gregos de pagar as suas dívidas. O facto de terem visto o seu rendimento disponível diminuir brutalmente nos últimos meses não é sequer uma hipótese explicativa.

Isto não é só má fé ou falta de empatia (que também é). É também a incapacidade de assumir que o ajustamento a que economia grega está submetida, ao reduzir o rendimento disponível num contexto de stock de dívida elevado, impede as pessoas e as empresas (e os países, naturalmente...) de fazer face às suas obrigações.

Michelle Perrot, em Portugal

Segunda, dia 26 de Novembro | 19h00 | Institut Français du Portugal,

Encontro

Michelle Perrot e Irène Pimentel : olhares cruzados sobre a História das Mulheres

No âmbito da vinda a Lisboa de Michelle Perrot para o lançamento do seu livro Histoire de chambres (dia 27 às 19h00 na Casa Fernando Pessoa), Irene Pimentel e a autora encontram-se uma primeira vez no Institut français du Portugal para nos falarem dos seus olhares sobre a História das Mulheres em França e em Portugal. Ambas testemunham de uma historiografia ainda recente nos dois países fruto, sem dúvida, das lutas das mulheres pelo reconhecimento dos seus direitos.

Terça, 27 de Novembro | 19h00 | Casa Fernando Pessoa

Lançamento do livro «História de quartos» de Michelle Perrot

Michele Perrot é historiadora e o seu trabalho incide sobre as mulheres e a vida privada. O livro lê-se como um romance e é um exercício fascinante de História, no sentido lato, de Antropologia e de História da Literatura. Irene Pimentel, também historiadora no domínio das mulheres e da história contemporânea, fará a apresentação de Michelle Perrot e do seu livro. Por seu lado a historiadora francesa abordará também a sua vivência da noite anterior no quarto, reconstituído, que foi de Fernando Pessoa.

 

o rio da minha aldeia é o mai'lindo do mundo

Hesito: não sei bem se é um convite para que nos dediquemos à pesca (à cana), se uma proposta de transformar Portugal num paquete turístico para os reformados alemães. Mas confesso as minhas urticárias quendo vejo ministros e ministras, ex ou no ativo, do mar, da terra do caderno de encargos ou da justiça, semear ao vento pedaços de prosa marmoreada sobre o mar, o mar, o nosso destino e o nosso caminho, rebéubéu pardais pardais ao ninho. Nem sei bem para que aderimos à UE. Há apenas uma resposta: não aderimos; a UE é que aderiu a Portugal, que é o centro do mundo, como fica provado abaixo. Mas podíamos ter feito como naquele filme do Peter Sellers em que um pequeno país europeu declara guerra aos EUA, a ver se tinham a sorte de ser invadidos? Assim já podíamos ser o Porto Rico ou o Havai da Europa, que bom que seria, os "tuguitas" da América, já podíamos ir ver o julgamento do Renato Seabra sem necessidade de visto ou visitar o Afeganistão e o Iraque com despesas pagas e tudo.

E enche-me de sacrossanta falta de paciência a forma como, sem uma pinga de pejo ou, ao menos, de conhecimento, continuam a debitar enormidades, como a de que, quiçá como Cristo, "caminhámos" (e porque não "pulámos" ou "saltámos ao pé-coxinho"?) sobre o mar porque "não estamos na periferia de nada, ao contrário daquilo que muitas pessoas dizem" (ignorantes, decerto). Não é evidente? "Estamos no centro do mundo", "se reparar bem, estamos no meio". Semelhante verdade cartesiana é difícil de refutar: basta olhar para um mapa para confirmar tal evidência. E se for um mapa de Portugal, então, nem vos digo nem conto. Ai, há lá terra mais linda que a minha aldeia?

E prossegue: "estamos encostados ao mar, estamos encostados à terra". Brilhante, não sei se dedução, se epifania. E lá avança para a inevitável bambochata dos "500 anos", mas que raio terá acontecido há 500 anos para estes gajos estarem sempre a bater na mesma tecla, pensaria um marciano que aterrasse aqui e agora. Ah pois, foi na tal altura em que começámos a caminhar sobre o mar. "Iniciámos os grandes caminhos da globalização", os "grandes caminhos do comércio, do conhecimento, da troca, entre pessoas, bens, mercadorias". Sabei, pois, oh pretos, monhés, brasucas e chinocas: antes dos portugueses, vós vivíeis em economia de subsistência e grunhíeis na ignorância e na superstição. "Desenvolvemos, de facto, o mundo, muito, com a nossa ação", apesar de poucos e pequeninos. Extraordinários beneméritos. E desses 500 anos não sobrou nada, nadica, nem um pinguinho desse génio peripatético que ilumine os nossos governantes? ou uma lágrima para ex-governantes, por exemplo, ex-ministras da justiça, que as leve a ler alguma coisa antes de dizer coisas constrangedoras? Podia começar por aqui: olhar para o mapa abaixo, para ver como Portugal fica no centro do mundo. Não? É tão correto como aquele a que estamos habituados. O resto são convenções, vícios e distorções. Coisas que fomos ganhando ao longo de 499 anos, decerto. 

Também com prata da casa

 

(...)O Dia Depois do FimMargin Call no original, foi o filme escolhido para a terceira sessão do ciclo de cinema americano, a realizar no próximo dia 21, pelas 17 horas, no Anfiteatro do Complexo Interdisciplinar.(...) Francisco Louçã, economista e antigo líder do Bloco de Esquerda, e José Pacheco Pereira, historiador e comentador político, são os convidados para mais um debate no IST, com moderação da professora Palmira F. Silva.

"Melo Antunes – Uma Biografia Política" | Maria Inácia Rezola

No próximo dia 22 Novembro é lançada a obra Melo Antunes – Uma Biografia Política. O livro, da autoria da historiadora Maria Inácia Rezola e com prefácio de António Lobo Antunes, é apresentado pelo Professor António Reis e conta com os testemunhos do General Ramalho Eanes, Coronel Vasco Lourenço e Dr. Vasco Vieira de Almeida. A sessão de lançamento tem início às 18h30 e decorre na Fundação Calouste Gulbenkian (Auditório 3), em Lisboa


Falhar compensa

Após mais uma revisão da programa de ajustamento, a pergunta que o país faz, para lá de qualquer (auto-)avaliação da troika, é se isto está a funcionar. Qualquer resposta é pouco útil se não pensarmos um pouco no que "funcionar" - ou "falhar" - significa.

Deixemos de lado a definição minimalista de que um programa de ajustamento tem sucesso enquanto os credores continuarem a receber o seu dinheiro. Para o país que é alvo do programa de ajustamento, "funcionar" é, como vimos este ano, alvo de uma definição dinâmica: em 2011, a meta do défice orçamental era sacrossanta; como a execução de 2012 foi (previsivelmente) desastrosa, a redução acelerada do défice externo passou a ser o grande sinal de sucesso.

Mas há um ponto mais fundamental nesta problematização de "sucesso". Um programa de ajustamento como este contempla um risco moral altíssimo, e tem na sua essência incentivos objetivos (repito: objetivos; não estou a falar da putativa perversidade individual de qualquer governante) para falhar, uma vez que falhar no momento t abre margem de manobra para radicalizar as medidas em t+1, talvez as mesmas que o pudor político (a que um ministro está obrigado, mas um assessor do governo não) impediu de defender e implementar em t.

Coloquemo-nos na posição de quem tem um programa político liberal radical para implementar. Daqui decorre que:

(i) as metas nominais interessam pouco. O que é fundamental é a concretização convicta e continuada da estratégia (por isso é que o impacto da concessão da ANA no défice de 2012 não interessa, mesmo que a possível não autorização pelo Eurostat leve ao incumprimento da meta do défice acordada). Uma vez que o programa é profundamente político, a hipótese de que a realidade possa funcionar como demonstração de que a estratégia não funciona está fora de causa. Se alguém tem dúvidas, só tem que esperar pelo "longo prazo" (que não é uma meta temporal, mas o momento em que as medidas trarão os efeitos pretendidos).

(ii) os aparentes falhanços são, na realidade, grandes oportunidades: 

- o desemprego explodiu? É dramático. Mas é também uma oportunidade fantástica para impor uma mais arrojada liberalização do mercado de trabalho (coisa que ninguém teria coragem de impor logo de início), porque a "realidade" mostra, afinal, que o mercado ainda não é flexível o suficiente.

- a receita fiscal afundou? É uma pena. Mas é também uma oportunidade imperdível para cortar a sério na administração pública, porque sem impostos não há como financiar as funções do Estado.

- o PIB caiu mais do que o previsto? É negativo. Mas tal é a prova de que é imperativo acelerar e aprofundar as reformas estruturais para "libertar" a economia e desmantelar os vested interests

Falhar só não compensaria se, por exemplo, um erro clamoroso nas previsões do desemprego obrigasse a um recuo na estratégia desenhada, com tradução em medidas fundamentais (e não ao refúgio em medidas compensatórias que cumprem o mesmo objetivo: por exemplo, as políticas ativas de emprego de pouco mais servem hoje do que obrigar a economia a baixar salários).

É por isso que, num certo sentido - e não pretendo ser cínico -, o plano está a correr bem. Aliás, melhor do que há um ano qualquer liberal podia pensar. Repare-se neste exemplo: enquanto o memorando prevê uma redução moderada de 2% de trabalhadores da Administração Pública por ano até 2014, é provável que, a manter-se o ritmo de saída de efetivos, entre 2011 e 2013 o Estado tenha sofrido, por alto, uma redução aproximada de 20%. E, atenção, não estou a contar com medidas que não estão ainda (oficialmente) previstas e que podem ser adicionadas ao OE2013 durante o próximo ano, no quadro do "plano de contingência" ou do debate da "refundação" do Estado - tudo pérolas que o memorando inicial não previa.

No fundo, a direita está a implementar um programa bem próximo daquele que teria negociado se estivesse no poder em abril de 2011. Não há problema que falhe metas e previsões. Falhar compensa.

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