PAULO BRIGHENTI "Chama Dupla" | @Baginski Galeria/Projectos
(imagens de Jorge Catarino)
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(imagens de Jorge Catarino)
Yonamine (fotografia de José Fernandes/Jornal i)
Isto é fascinante. Todos estamos lembrados do já muito falado relatório do FMI pejado de erros (a propósito, se ainda não leram aconselho o novo trabalho sobre ele da Fernanda, publicado no DN há 2 dias). Também está na memória de todos que as evidentes incorreções e as afirmações falsas do dito relatório mereceram um inacreditável silêncio governamental. Afinal estavamos, citando Carlos Moedas, perante um "(...) relatório muito bem feito, muito bem trabalhado e muito completo" (afirmação confirmada e reafirmada por Passos Coelho).
Por tudo o que ficou dito acima espanta (quer dizer, espantar não espanta já, infelizmente) e diverte que outro relatório, este da OCDE, amplamente divulgado ontem e que dava conta da brutal diminuição da despesa com saúde em Portugal, tenha levado a uma tão lesta contestação do ministério da saúde.
Não querendo ser de intrigas, só faltava mesmo esta para se oficializar a triste saga do relatório do FMI como "relatório do governo que uns palhaços do fmi se prestaram a apresentar como seu" (e que, recordemos, tantos jornalistas económicos, num primeiro tempo, elogiaram efusivamente).
*Isto passado, quando me desponho.
e me quero afirmar se foi assim,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Não fossem os portugueses ainda com emprego ficar mesmerizados com os recibos do ordenado de janeiro, o PS encenou, esta terça-feira, um grandioso espetáculo no Rato. Coisa shakespeariana: um rei fraco rodeado de lugares-tenentes aos gritos de deslealdade e conspiração ante o anúncio de uma pretensão ao trono, uma reunião à porta fechada e um final em que o monarca, depois de chamar e deixar chamar tudo a quem possa pô-lo em causa, abraça o concorrente que não chega a sê-lo e assume o compromisso de com ele trabalhar em prol da união do reino.
Em Shakespeare, como em geral, o pano nunca cai depois de uma cena destas. É só o princípio da intriga e de sangrentas congeminações que inevitavelmente nos revelam a natureza das personagens e da sua relação com o poder. E que sabemos nós das personagens? Comecemos pelo rei. Há um ano e meio no trono, não só tarda em mostrar o seu projeto e valor no campo de batalha como se rodeia de uma corte apagada e sem chama que, na noite de terça, mostrou também (com raras exceções, como a de Zorrinho) ser vil. É um monarca que não hesita em recorrer ao insulto, à ameaça e a insinuações de conspiração - chama desleais aos que com ele não concordam e que o consideram inadequado, fala ou deixa que por ele falem de "limpar o partido e o grupo parlamentar" (atribuído pela SIC, na noite de terça, à direção socialista), acusa quem o defronta de "querer regressar ao passado", dando alento aos boatos que dizem ser o rei anterior a comandar, do exílio, a sublevação. Para, numa entrevista na noite seguinte, fazer de magnânimo e amnésico, cumulando de elogios o adversário da noite transata.
Quanto a este, alcaide valoroso e respeitado, com legítimas aspirações ao trono, renunciou a bater-se por ele quando ficou livre. Desde a coroação, porém, não perde uma ocasião de demonstrar o seu desagrado e até desprezo pelo ora rei. Era, pois, previsível que aglutinasse a esperança dos que consideram estar o reino mal dirigido e veem nele a esperança da vitória contra o inimigo e a salvação do povo. Como explicar, pois, que na famosa noite, quando todos esperavam que se perfilasse como candidato ao trono - o que só pode decorrer do facto de o ter confirmado aos próximos - se tenha ficado? Faltou-lhe a coragem, as ganas? Percebeu que não estava garantida a vitória e só quer arriscar não arriscando? Habituou-se ao conforto de criticar, na sua cátedra da SIC, sem correr o risco de provar que sabe e quer fazer melhor? Sentiu-se traído, na hora H, por aqueles de quem esperava apoio? Ou, como alguns aventam, recuou para tomar balanço, fazendo do recuo (o acordo da união) repto? Seja qual for a resposta certa (senão todas), sabemos, como sabem os protagonistas, isto: que na noite de terça algo se partiu no PS, e não há pantomina de união que o disfarce. O trono pode ter sido segurado, mas o reino está longe de seguro.
A actual direcção do PS está em funções há sensivelmente o mesmo tempo que o actual Governo. A sua principal missão é fazer oposição ao actual Governo e constituir-se como alternativa. Já passaram quase dois anos. Parece natural que dentro e fora do PS possa existir quem entenda que esta oposição não está a ser feita da melhor maneira.
Face isto impõe-se um cálculo consequencialista: (i) a oposição está a ser mal feita, mas mudar a direcção do PS, e pelo meio mobilizar o partido para uma luta eleitoral interna, é ainda pior para o país do que a oposição que está a ser feita; ou (ii) nada pode ser pior do que a má oposição que está a ser feita e, por isso, há que avançar para eleições internas.
Evidentemente que quem já lá está não quer sair. No seu entendimento o destino é o poder. O líder do partido há-de ser primeiro-ministro, mesmo que não saiba quando. Sendo perfeitamente legítimo este entendimento é totalmente compatível com um outro: quem não está na direcção e acha que pode fazer melhor deve avançar. Tudo isto é salutar.
Em face disto, as atitudes de António Costa nos últimos dias revelam-se de difícil leitura e compreensão. Ninguém parece acreditar que António Costa ache que Seguro está a fazer boa oposição. Pelo que restam as duas hipóteses que refiro acima: ou Costa nada faz porque acha que isso é um mal menor, comparado com o sobressalto no partido (e o modo como os militantes o iriam encarar por provocar tal sobressalto, pondo em perigo a sua vitória interna); ou Costa avança.
Costa não avançou. Mas também não ficou quieto. Costa preferiu tornar expressas as opções que apresento acima, sem escolher nenhuma delas. É duvidoso que isso seja bom para ele, para o partido e para o país.
Mais, é duvidoso que os custos políticos desta embrulhada (pouco característica de Costa) possam ainda ser evitados. Mas podendo emendar-se a mão - e Costa está em modo damage control - convém que se seja rápido e firme. O contrário do que os últimos dias mostraram. Dia 10 de Fevereiro é já ali.
Se Costa entende que a oposição actual é má e que pode fazer melhor, as eleições internas do PS são a batalha que faz sentido, mesmo que incerta. Costa deve mostrar que não dará apenas um grande Primeiro-Ministro, ele dá já um excelente líder da oposição. Cada vez mais necessária para acabar com o discurso enrolado e enganador do Governo.
Rogério da Costa Pereira
Rui Herbon
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