Este senhor, filho de poeta laureado, primeiro ser humano a ganhar três óscares de melhor actor e, sobretudo, genial,
estudou para ser actor. Pode dizer-se, grosseiramente, que tem o curso de actor.
Por acaso safou-se e tenho a certeza que os mercados gostam dele, a mão invisível acarinha-o.
Foi pena o Camilo não o ter apanhado a jeito, ali aos 18. Tinha feito dele um grande operário da reindustrialização e tinha-se poupado este mau exemplo: é que por cada Day-Lewis (leia-se bom actor, pois Day-Lewis é incomparável) há milhares de actores à procura de uma oportunidade. E Deus sabe como isso dificulta o trabalho missionário de Camilo.
Quem luta com monstros deve ver se, ao fazê-lo, não se torna também um monstro. E quando olhas durante muito tempo para um abismo, também o abismo olha para dentro de ti.
A objecção, a injúria, a alegre desconfiança, o gozo de troça são sinais de saúde; tudo o que é incondicionado releva da patologia.
A loucura é rara nos indivíduos, mas é a regra nos grupos, partidos, povos e épocas.
Não se odeia quando se considera alguém inferior, mas somente quando se o considera igual ou superior.
“Ele desagrada-me” “Porquê?” “Não estou à altura dele.” Já alguma vez alguém respondeu assim?
(Extraídos do Quarto Capítulo de Para Além do Bem e do Mal, Ed. Relógio d’Água)
Há dois anos, mais ou menos por esta altura, improváveis astros alinhavam-se para chumbar o PECIV no parlamento, criando assim uma crise política que resultaria no pedido de ajuda de Portugal à (entretanto denominada) troika. Com um discurso baseado em miríficos consumos intermédios (que podiam ser cortados sem grande dor) e que ignorava por completo o contexto de crise económica internacional, elegemos um novo governo que não aumentaria impostos, não cortaria subsídios, e tinha todas as soluções estudadas ao pormenor.
Mesmo dando o desconto merecido a propostas eleitorais, eram afirmações atrevidas. Não foi preciso esperarmos muito para descobrirmos na pele quão falsas eram. Doses sucessivas de austeridade, com proclamações orgulhosas da vontade de ir mais longe que a troika, transformaram o que era um mau plano de assistência financeira no actual desastre. Uma queda de actividade económica que não dá sinais de abrandar. Um nível de desemprego acima das piores expectativas e que ainda não parou de subir. Uma economia que simplesmente deixou de investir, atrasando assim cada vez mais qualquer hipótese de recuperação.
Como "sucessos", são referidos o reequilíbrio da balança comercial e a queda das taxas de juro, cujos máximos foram atingidos já com este governo. O primeiro deve-se cada vez mais à queda acentuada das importações e, como tal, à contracção da procura interna. As exportações, depois de uma forte subida em 2010 e 2011, foram crescendo cada vez mais lentamente até atingirem no final de 2012 um ponto de estagnação. Quanto à confiança dos investidores internacionais na dívida pública portuguesa, essa é real. No entanto, é devida ao assumir por parte do BCE do papel de salvador da zona euro, como é visível pelo comportamento semelhante da dívida de todos os países periféricos a partir de setembro de 2012. Qualquer análise em termos fundamentais à dinâmica da dívida pública portuguesa permite concluir que esta é menos sustentável em 2013 do que era em 2011, não apenas pelo muito maior stock existente, mas também pela cada vez menor capacidade da economia em gerar receitas. Estamos assim, perante um sucesso (balança comercial) pelas razões erradas e outro (queda das taxas de juro) que aconteceu apesar das políticas deste governo.
Chegados aqui, a equação tornou-se impossível de resolver. Insistir em cada vez mais austeridade deixou de ser um erro conceptual para passar a ser um erro demonstrado, bastando olhar para o exemplo português, grego, espanhol ou italiano. Reestruturar - a tal palavra que não fica bem dizer - é nesta altura a única solução. Dado que parte considerável do stock de dívida portuguesa está actualmente junto dos nossos parceiros internacionais, é possível fazê-lo sem que isso represente um evento de crédito, criando assim condições para uma política cuja diminuição da austeridade, e consequente menor pressão sobre a economia, permita realizar as tais necessárias reformas estuturais.
Negociar uma reestruturação é, nesta fase, apenas bom senso. Porque já não é uma questão de "se", tornou-se uma questão de "quando". A má notícia para o país é que, de acordo com o nosso governo, austeridade e reforma estrutural são dois conceitos equivalentes. Dado que a necessidade de reestruturar será demonstrada a bem ou a mal (é apenas uma questão de tempo), a urgência de mudar de política só se torna maior.
Éramos 220, nesse longínquo ano de 1985. 220 tristes almas a entrar na licenciatura em História, na Faculdade de Letras de Lisboa. Nessa altura, infelizmente, não havia ninguém suficientemente clarividente e perspicaz para nos dizer a verdade nua e crua, a de que "não servíamos para nada". Era algo insinuado, mas dito assim com todas as letras, não. Desconheço o destino de uns 210. Provavelmente são sem-abrigo hoje, ou então uns parasitas que vivem à custa do Erário Público e dos impostos de quem trabalha e faz algo de produtivo. Não vislumbro outra hipótese. E mesmo os restantes, onde me incluo eu próprio, são muito pouco úteis à sociedade. Não andaram na Faculdade de Direito nem escreveram no Correio da Manhã. E decerto não conhecem o sucesso mediático. Mas de uma coisa desconfio: não escrevem barbaridades, não passam atestados de estupidez e não insultam os seus conterrâneos na televisão.
Ao ler o texto de João Vieira Pereira no Expresso de hoje (imagem supra) lembrei-me de um outro dele, de Setembro de 2011, quando ainda era moda todos os jornalistas - económicos e não só - encherem a boca e a pena com verdadeiras hagiografias gasparianas. Um excerto:
"Está na altura de deixar os técnicos como Vítor Gaspar, Paulo Macedo, Álvaro Santos Pereira ou Nuno Crato tentarem remendar o que os políticos, como o senhor, estragaram durante anos.
Está em risco o Estado social como o conhecemos? Está! E, se me permite, tenho mais uma novidade. Esqueça o Estado social como o conhece. A escolha agora é entre um Estado social diferente ou nenhum Estado social.
O pior cego é aquele que não quer ver e durante anos a fio os políticos deste país não quiseram ver o que os técnicos diziam. Vítor Gaspar tem zero jeito para a política a começar logo pelo facto de dizer a verdade. "