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jugular

Incompreensível

1. A democracia portuguesa vive um momento delicado, com o esmagamento do espaço de soberania económica e o empobrecimento forçado que aprofunda a crise de confiança dos cidadãos nas instituições democráticas e nos seus representantes. Neste ambiente perigoso, são de evitar atos ou palavras que, gratuitamente, possam incendiar o populismo antidemocrático.

2. A nomeação de Franquelim Alves para secretário de Estado é um desses atos. De pouco vale o ministro da Economia queixar-se do "aproveitamento politico" da decisão, porque se ela não fosse sensível não teria sido omitido do currículo do atual Secretário de Estado a passagem pelo Conselho de Administração da SLN. Claro que Franquelim Alves "não é arguido nem alvo de nenhuma investigação" e tem "direito ao bom nome" (é bom ver alguém à direita a lembrá-lo, depois de nos últimos anos a calúnia se ter transformado numa arma política), mas esta decisão é muitíssimo imprudente, senão mesmo provocatória da opinião pública.

3. Vários comentadores vieram pedir ao Governo para explicar a sua escolha. Embora compreensível, esta reação subestima a dimensão e a natureza do problema: os níveis de cólera e cinismo gerados na opinião pública pelo caso BPN - pelos motivos certos ou errados, essa é outra discussão - são de tal forma elevados que anulam a disponibilidade do público para "compreender" qualquer tentativa de "explicação" (sobretudo quando ela se parece basear em julgamentos de "idoneidade pessoal"). Uma "explicação" que não tem hipótese de convencer o público corre o risco de parecer um exercício de cinismo, e não pode deixar de descredibilizar quem a avança. Numa situação que parece a todos os títulos incompreensível, o governo só dispunha de uma solução sensata: evitar colocar-se na posição de justificar o injustificável.

4. Talvez Franquelim Alves não esteja "diminuído civicamente" (como afirmou Passos Coelho), mas um executivo que o escolhe como governante não pode deixar de ficar diminuído politicamente. Vendo bem, este é o mesmo Governo que ainda mantém os serviços de Miguel Relvas. Mas convinha que alguém explicasse ao primeiro-ministro que há condições a respeitar para que um Governo possa ser respeitado pela população.

(Publicado hoje no "Diário Económico")

6 de Fevereiro

The International Day of Zero Tolerance to Female Genital Mutilation is observed each year to raise awareness about this practice. Female genital mutilation of any type has been recognized as a harmful practice and violation of the human rights of girls and women. WHO is committed to the elimination of female genital mutilation within a generation and is focusing on advocacy, research and guidance for health professionals and health systems.


Como tornar-se um sem-abrigo de sucesso

Do meu artigo desta 3ª feira no Negócios:

Atente-se em Nicolas Berggruen, que, embora dono de uma fortuna avaliada em 2,2 mil milhões de dólares, decidiu em 2002 vender o seu apartamento em Manhattan e a sua ilha na Florida, mantendo apenas o jacto pessoal Gulfstream e deslocando-se permanentemente de hotel em hotel. Nas suas frequentes entrevistas, exorta toda a gente a abraçar o seu projecto de libertação dos bens materiais e busca espiritual. Tecnicamente, trata-se sem dúvida de um "homeless".
Entretanto, a Sociedade São Vicente de Paulo da Austrália convida desde 2006 os CEO do país a viverem a experiência dos sem-abrigo num "sleepout" que tem lugar em Junho de cada ano. O sucesso da iniciativa não decorre, é óbvio, de esses executivos recearem ver-se um dia, por infortúnio, despromovidos à condição de sem-abrigo, antes de um desejo reprimido de ensaiarem uma experiência que lhes tem sido vedada pelos preconceitos sociais dominantes.
A constatação do fascínio que a vida dos sem-abrigo exerce sobre tantos altos executivos coloca às empresas que eles dirigem um angustioso dilema. Não é ético condicionar a liberdade de alguém, mais a mais quando está em causa a tentativa de dar significado espiritual à sua vida. Porém, a dificuldade que os aspirantes a sem-abrigo têm em assumir a sua vocação pode prejudicar o seu desempenho enquanto hesitam e, por isso, inibir a criação de valor para os accionistas. Eventualmente, a neurose (que é só um problema do próprio) pode evoluir para psicopatia (que ameaça os outros). Que fazer?

Solidariedade e sentido coletivo

Disseram-me uma vez que o que distingue um português de um holandês é que, no país deste último, quando alguém conta ao vizinho que fugiu aos impostos, este denuncia-o ao fisco, porque percebe que está a pagar por ele; em Portugal, quando tal ocorre, o vizinho não só aprecia o relato como quer saber pormenores para poder fazer o mesmo. Isto é, evidentemente, uma anedota. Contudo, é uma historieta reveladora da falta de sentido coletivo e do individualismo com traços de infantilidade que está muito, mas muito incrustado nos nossos hábitos. O "Estado" não somos todos nós, é uma entidade que convém sugar porque nos esmifra e suga. Estou a falar em sentido geral, não estou, evidentemente, a particularizar o momento atual em que o sentido de injustiça, de desânimo e de absurdo é dominante. Por acaso, até estou, mas noutro sentido.

Há poucas horas ouvi num noticiário a informação de que o governo vai mesmo fazer cortes nos salários da TAP. Veio logo o representante do sindicato dos pilotos a lamentar a medida. Argumentos? Essencialmente, dois: a) é uma "medida populista"; b) irá levar à fuga dos quadros mais qualificados da empresa. Portanto, se queremos manter os nossos pilotos na transportadora nacional - porque as pessoas guiam-se pelo mercado - devemos abrir uma exceção. Muito bem. Aceito que uns milhões a mais ou a menos nao alargam nem saram os buracos orçamentais e que seria de todo importante evitar tal sangria de qualificações. A questão é: e podemos deixar fugir os músicos, os biólogos, os sociólogos, os canalizadores, os informáticos, os enfermeiros - há até quem diga que tudo não passa de "oportunidades" - ? fazem menos falta que os pilotos? têm menos dignidade, menos direitos, menos qualidades do que o escol da TAP? ah pois, não têm é a mesma capacidade de mobilização e de ameaça. Talvez por estarem desempregados, será? 

à atenção do Instituto Camões

 

Tendo em conta que uma das vossas funções é, e cito, "propor e executar a política de ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro", não sei se será muito boa ideia terem o Bing a fazer traduções automáticas na página oficial do Facebook, não vos parece? Pensem lá em mudar isso ou continuarão a fazer a triste figura mostrada na imagem acima (ah! a opção por "tongue" não é atribuível ao Instituto Camões, é citação da notícia da Euronews... mas zelar pela língua portuguesa é, também, respeitar as suas regras, e numa citação usam-se aspas, bolas).

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