1. A democracia portuguesa vive um momento delicado, com o esmagamento do espaço de soberania económica e o empobrecimento forçado que aprofunda a crise de confiança dos cidadãos nas instituições democráticas e nos seus representantes. Neste ambiente perigoso, são de evitar atos ou palavras que, gratuitamente, possam incendiar o populismo antidemocrático.
2. A nomeação de Franquelim Alves para secretário de Estado é um desses atos. De pouco vale o ministro da Economia queixar-se do "aproveitamento politico" da decisão, porque se ela não fosse sensível não teria sido omitido do currículo do atual Secretário de Estado a passagem pelo Conselho de Administração da SLN. Claro que Franquelim Alves "não é arguido nem alvo de nenhuma investigação" e tem "direito ao bom nome" (é bom ver alguém à direita a lembrá-lo, depois de nos últimos anos a calúnia se ter transformado numa arma política), mas esta decisão é muitíssimo imprudente, senão mesmo provocatória da opinião pública.
3. Vários comentadores vieram pedir ao Governo para explicar a sua escolha. Embora compreensível, esta reação subestima a dimensão e a natureza do problema: os níveis de cólera e cinismo gerados na opinião pública pelo caso BPN - pelos motivos certos ou errados, essa é outra discussão - são de tal forma elevados que anulam a disponibilidade do público para "compreender" qualquer tentativa de "explicação" (sobretudo quando ela se parece basear em julgamentos de "idoneidade pessoal"). Uma "explicação" que não tem hipótese de convencer o público corre o risco de parecer um exercício de cinismo, e não pode deixar de descredibilizar quem a avança. Numa situação que parece a todos os títulos incompreensível, o governo só dispunha de uma solução sensata: evitar colocar-se na posição de justificar o injustificável.
4. Talvez Franquelim Alves não esteja "diminuído civicamente" (como afirmou Passos Coelho), mas um executivo que o escolhe como governante não pode deixar de ficar diminuído politicamente. Vendo bem, este é o mesmo Governo que ainda mantém os serviços de Miguel Relvas. Mas convinha que alguém explicasse ao primeiro-ministro que há condições a respeitar para que um Governo possa ser respeitado pela população.
Atente-se em Nicolas Berggruen, que, embora dono de uma fortuna avaliada em 2,2 mil milhões de dólares, decidiu em 2002 vender o seu apartamento em Manhattan e a sua ilha na Florida, mantendo apenas o jacto pessoal Gulfstream e deslocando-se permanentemente de hotel em hotel. Nas suas frequentes entrevistas, exorta toda a gente a abraçar o seu projecto de libertação dos bens materiais e busca espiritual. Tecnicamente, trata-se sem dúvida de um "homeless". Entretanto, a Sociedade São Vicente de Paulo da Austrália convida desde 2006 os CEO do país a viverem a experiência dos sem-abrigo num "sleepout" que tem lugar em Junho de cada ano. O sucesso da iniciativa não decorre, é óbvio, de esses executivos recearem ver-se um dia, por infortúnio, despromovidos à condição de sem-abrigo, antes de um desejo reprimido de ensaiarem uma experiência que lhes tem sido vedada pelos preconceitos sociais dominantes. A constatação do fascínio que a vida dos sem-abrigo exerce sobre tantos altos executivos coloca às empresas que eles dirigem um angustioso dilema. Não é ético condicionar a liberdade de alguém, mais a mais quando está em causa a tentativa de dar significado espiritual à sua vida. Porém, a dificuldade que os aspirantes a sem-abrigo têm em assumir a sua vocação pode prejudicar o seu desempenho enquanto hesitam e, por isso, inibir a criação de valor para os accionistas. Eventualmente, a neurose (que é só um problema do próprio) pode evoluir para psicopatia (que ameaça os outros). Que fazer?
Disseram-me uma vez que o que distingue um português de um holandês é que, no país deste último, quando alguém conta ao vizinho que fugiu aos impostos, este denuncia-o ao fisco, porque percebe que está a pagar por ele; em Portugal, quando tal ocorre, o vizinho não só aprecia o relato como quer saber pormenores para poder fazer o mesmo. Isto é, evidentemente, uma anedota. Contudo, é uma historieta reveladora da falta de sentido coletivo e do individualismo com traços de infantilidade que está muito, mas muito incrustado nos nossos hábitos. O "Estado" não somos todos nós, é uma entidade que convém sugar porque nos esmifra e suga. Estou a falar em sentido geral, não estou, evidentemente, a particularizar o momento atual em que o sentido de injustiça, de desânimo e de absurdo é dominante. Por acaso, até estou, mas noutro sentido.
Há poucas horas ouvi num noticiário a informação de que o governo vai mesmo fazer cortes nos salários da TAP. Veio logo o representante do sindicato dos pilotos a lamentar a medida. Argumentos? Essencialmente, dois: a) é uma "medida populista"; b) irá levar à fuga dos quadros mais qualificados da empresa. Portanto, se queremos manter os nossos pilotos na transportadora nacional - porque as pessoas guiam-se pelo mercado - devemos abrir uma exceção. Muito bem. Aceito que uns milhões a mais ou a menos nao alargam nem saram os buracos orçamentais e que seria de todo importante evitar tal sangria de qualificações. A questão é: e podemos deixar fugir os músicos, os biólogos, os sociólogos, os canalizadores, os informáticos, os enfermeiros - há até quem diga que tudo não passa de "oportunidades" - ? fazem menos falta que os pilotos? têm menos dignidade, menos direitos, menos qualidades do que o escol da TAP? ah pois, não têm é a mesma capacidade de mobilização e de ameaça. Talvez por estarem desempregados, será?
Tendo em conta que uma das vossas funções é, e cito, "propor e executar a política de ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro", não sei se será muito boa ideia terem o Bing a fazer traduções automáticas na página oficial do Facebook, não vos parece? Pensem lá em mudar isso ou continuarão a fazer a triste figura mostrada na imagem acima (ah! a opção por "tongue" não é atribuível ao Instituto Camões, é citação da notícia da Euronews... mas zelar pela língua portuguesa é, também, respeitar as suas regras, e numa citação usam-se aspas, bolas).