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I love Lisbon, in the Spring

Eu gosto de Lisboa (ou o resto do país) na Primavera. Quando vi hoje o Tejo, a luz, o calor e as pessoas hoje, num domingo (que até não gosto), lembrei-me de uma frase do filme de Claude Chabrol, Violette Nozière, em que esta – a personagem principal, a última mulher que, no regime de Vichy e em França, foi guilhotinada, por ajudar mulheres a abortar – no caminho da cela, para o cadafalso, olha paro o sol e pensa que ele está a mais e que é um desperdício.

E se o que estivesse a mais era o facto de ela ser executada por um regime que erigia a família como o cume da sua ideologia, sem possibilitar a vida em família, para quem a desejasse? Parece-me que é isso. Hoje bem disse, ou disse bem, do sol de Lisboa, e pensei que era um desperdício aqueles que não deixam gozá-lo.

É também, já agora, um desperdício haver pessoas que têm aquilo que os alemães – reconheço o gosto pela língua alemã – chamam de «Schadenfreude». Não há como os alemães para inventar palavras, combinando-as, misturando verbos com substantivos. Neste caso, trata-se, numa tradução literal, do «prazer (Freude) de provocar dano (schaden) a alguém». Nunca percebi como se pode ter esse tipo de prazer, que não se confunde com a inveja, em cuja teia ninguém está imune de se envolver, mas que existe, existe.

Os últimos anos, em Portugal, para além da mentira e do pensamento único, há aqueles, e que têm voz, se deleitam com esse tipo de “sentimento”. São aqueles que dizem: «eles» (os portugueses), «os indígenas», ou «aquela gente», como tanto gosta de qualificar um conhecido indivíduo que perora na televisão (às segundas) e se vangloria de sempre ter dito que Portugal (e os portugueses) estavam condenados. Quando tanto se diz, num determinado momento, até se pode ter razão. Mas o que os move é precisamente (não há palavra em português) - «Schadenfreude».

Tudo isto para dizer que gosto, adoro Lisboa na Primavera, com sol e calor, e que nada disso é desperdício. Está aqui para que tenhamos prazer com ela Todos, cada um e cada uma à sua maneira, desde que isso seja (e se torne) possível.

 

 

 

portas: eu é outro

A 26 de abril, a publicação de uma sondagem no i dava o PP a subir. Na notícia correspondente, lia-se: "O CDS é o segundo partido da oposição que mais sobe." Entretanto corrigida, a frase é testemunho da fenomenal operação de acrobacia, derrisão e vampirismo que Portas e o seu PP têm vindo a desenvolver desde a formação do Governo.

 

Sustentar um Executivo que toma medidas brutais e mesmo assim pretender que se opõe, lágrima no olho, a cada malfeitoria. Plantar notícias nos jornais sobre supostos enfrentamentos homéricos em conselhos de ministros e largar venenos sortidos sobre colegas de Governo para surgir como o parceiro "bom" da coligação, o que está lá para garantir que as coisas não serão tão más como poderiam ser, numa espécie de imolação dos seus princípios para nos salvar. Afetar sentido de Estado, quando é exatamente o papel de vítima que lhe convém, perante sucessivas humilhações infligidas pelo PM - da certificação, numa entrevista televisiva pós-episódio da TSU, de que o seu número dois é Gaspar ao desprezo a que votou o líder parlamentar do CDS no último debate quinzenal, passando pelo facto de, perante o chumbo de várias medidas pelo Tribunal Constitucional, ter ido a Belém certificar a viabilidade do Governo acompanhado, não do líder do outro partido da maioria, mas do ministro das Finanças. Registar no anedotário nacional da provocação passiva-agressiva os silêncios, ausências, expressões faciais e pronunciamentos do líder, com o monólogo sobre a TSU no top. Exigir remodelações e alterações de política a várias vozes do partido - enquanto no Parlamento não só vota a favor de tudo como se ergue em êxtase ante o discurso presidencial que diz não haver alternativa.

 

É isto o PP: o partido que enche a boca com a família, os reformados e desfavorecidos mas tem um ministro da Segurança Social que cortou 6% ao subsídio de desemprego e 5% ao de doença (e veremos hoje às oito da noite o que lhes vai cortar mais), que esmifrou o complemento solidário dos idosos (a medida que mais contribuía para a redução da pobreza da terceira idade), que diminuiu o RSI das crianças e que tirou dinheiro ao subsídio de parentalidade. O partido que manda cartas aos militantes a jurar que "com ele" não se aumentarão mais impostos e a seguir vota o maior aumento fiscal da democracia portuguesa.

 

Se tinha ideário, deixou de o ter - à exceção do programa de sempre de Portas: sobreviver e acabar com o PSD para poder ser um dia PM. "Eu é outro", diz, como Rimbaud, o PP (Paulo e o partido): estou no Governo e fora, faço o mal e a caramunha, olhem como sou esperto. Estará a resultar? A última sondagem diz que sim. Mas hoje, ao ouvir Passos, não se esqueça que tudo o que ele anuncia tem a assinatura de Portas. Além de indecorosamente traiçoeiro (de molde a enojar até quem execre o PM), o jogo que joga com tão óbvio deleite tem o País - a nós - como bola de trapos. E se lhe perguntarem se sabe, ele sabe.

 

(publicado ontem no dn)

Não percebo, juro que não percebo

 

De cada vez que os jornais falam em salários de médicos na função pública vejo-me confrontada com valores surreais. E digo surreais porque tenho, quer no círculo de amigos quer na família, inúmeros médicos próximos que não ganham, nem de longe nem de perto aquilo que é afirmado. Hoje aconteceu mais uma vez, a imagem acima é tirada do Público. Para se ter uma noção do disparate pedi a uma médica-tipo que me enviasse o seu mais recente talão de vencimento (de Abril de 2013). Descrevo-a, tem 46 anos, médica há 21, é especialista, assistente graduada*, sem dedicação exclusiva (35h horário semanal) e nunca interrompeu funções públicas. Para efeitos fiscais - e para se perceberem bem todas as informações - adianto que é casada e tem 2 filhos. Mais médica-média que isto é difícil existir. Agora confrontem os 4010€ com o que os vossos olhos vão ver a seguir e expliquem-me, se conseguirem, onde diabo foi o Público buscar aqueles valores, sim?

 

 

* os assistentes graduados que tiveram a pouca sorte de atingir esse escalão nos últimos anos não são pagos em conformidade porque o grau está "congelado"

 

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