Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

jugular

deixa cá ver se assim, parte tu

No outono de 1985, Portugal estava em plena euforia cavaquítica. O velho governo de maioria PS-PSD tombara, abalado pela morte de Mota Pinto, sacudido pelo puxão no tapete dado pelo Homem da Figueira e desgastado por anos de erosão, de crise, de FMI. O PSD tinha responsabilidades governativas há quase 6 anos, mas conseguira - a amnésia lusa é um case study que nunca compreenderei - sacudir as culpas de erros, incompetência, instabilidade, barões à trolha e recessão para cima do PS e emergir como o salvador da pátria. Os Messias lusitos são sempre -e perdoem-me a palavra execrável- de direita. Cavaco, o nosso Sassá Mutema. O PSD governaria sozinho mais 10 anos, mas isso é outra história.

Nesse outono de 1985, dizia eu, o país exultava com o "novo Sá Carneiro" e havia esperança no ar. Ora, a vigarice, como outras tantas coisinhas que não escolhem dia nem hora, não prolifera apenas em tempos de crise. Uma das barretadas que os portugueses paparam nessa altura foi a televisão. A cores. Festivais RTP garridíssimos, verde alface e laranja, azul forte e vermelho vivo como cenário nos estúdios, Valentina Torres disfarçada de caixa de bombons, foram os loucos anos 80. A certa altura, uma nova emoção: 3D. "Televisão em relevo". No dia X, a RTP ia transmitir um filme em 3D. "O Monstro da Lagoa Negra". Uau! Mas para usufruir de tal maravilha, havia requisitos técnicos. Óculos especiais. Especialíssimos. Como, onde? Também quero. Calma, a RTP pensou em tudo. A preço módico, vendiam-se, em tudo o que era quiosque, pacotinhos de cartão com 3 pares da maravilhosa tecnologia americana. E para que as pessoas não se sentissem enganadas, ainda ficavam habilitadas a um fabuloso sorteio de um automóvel e 3 (três) televisões a cores.

O dia X chegou. Era preciso "saturar" a cor no aparelho, para se conseguir melhor "relevo". Durante semanas, não se tinha falado noutra coisa. Hold on to your potatoes, como diria Short Round. Ohh é isto? A deceção foi mais do que muita. Para além de o filme ser uma bosta pegada, o propalado "3D" era tecnologia fanhosa dos anos 50 (o filme era a preto e branco, e de 1954), talvez com algum efeito numa sala de cinema. Na televisão, não passava de uma vaga impressão de "relevo" em algumas cenas. Nada mais, além de uma sensação de vertigem e dor de cabeça. Tinha havido algumas experiências em salas de Lisboa (lembro-me deste filme em particular, que fez algum furor), mas sem grande sucesso. Houve muita gente que se sentiu enganada. A RTP enfiara um barrete monumental, alguém enchera os bolsos à conta. Os óculos não mais serviriam para coisa alguma.

Vigarice, escrevi acima? Não exatamente. Ninguém foi obrigado a comprar. A escolha foi livre. Mas houve grande deceção, porque as expectativas não corresponderam, de todo, ao esperado. Ontem, quando me lembrei de ir buscar os tais belos óculos para ver se conseguia ver melhor um panorama que me parece cada vez mais absurdo e surreal, não pude deixar de pensar que, de facto, há muitas formas de defraudar esperanças. Mas temo bem que, num futuro não muito longínquo, não bastem óculos coloridos para tentar perceber as obstrusidades governativas, antes sejam necessários uns pares diferentes para que alguma coisa faça sentido.

Falta de memória? Falta de noção? Ou...?

Há frases e expressões que se associam de imediato a um determinado acontecimento ou contexto histórico. Os exemplos são inúmeros, não vale a pena perder muito tempo com eles. Em Portugal há umas quantas que estão indissociavelmente ligada a um período muito particular, e de má memória, da nossa história. Penso, por exemplo, no "Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história... blá blá", ou no "Para áfrica rapidamente e em força". Contudo, a frase-mestra, aquela que foi eleita como lema do Estado Novo, é outra e qualquer português com mais de 15 anos deve conseguir identifica-la. Qual não é o meu espanto quando, abrindo a página da candidatura do PSD a uma das freguesias de Lisboa, dou de caras com ela na apresentação de um candidatos.

 

 

Se o facto deste senhor achar normal escolher o "Deus, Pátria e Família" para se apresentar já me parecer muito estranho, maior estranheza me causa que ninguém daquele partido tenha sentido necessidade de o advertir que o peso daquela expressão era politicamente questionável. Não estamos a falar de uma candidatura obscura, mas de gente ligada ao maior partido português. Para além de falta de memória histórica, isto é sinal de completa ausência de cultura política... ou não é nenhuma das duas coisas e torna-se muito mais grave, hum?

Deixa cá ver se assim

Um ministro que mentiu mas que afinal limitou-se a proferir uma "incorreção factual"; uma ministra que assinou e aprovou produtos financeiros antes de o ser mas que diz que não teve nada a ver com o assunto; um ministro que na semana passada disse e decretou que o inglês deixa de ser obrigatório nas atividades extracurriculares de 1º Ciclo (alegando que é adequado apenas ao 2º) e que hoje afirmou precisamente o contrário. Tudo isto no dia do anunciado "regresso aos mercados" onde, afinal, paira a sombra de um segundo resgate financeiro, dias após o vice-primeiro ministro dizer que Portugal está a sair da crise. Desculpem, devo estar a ver mal. Ou há uma qualquer dimensão que me escapa. Como diria Diogo Soares, chamado o galego, "que eu vou já de maneira que tudo me parece um sonho".

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media