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jugular

Sobre a Irlanda (ou como não fazer comparações)

João Miguel Tavares escreve hoje no “Público” uma crónica comparando o ajustamento na Irlanda e em Portugal:  

“A Irlanda reduziu o seu défice de 30,6% em 2010 para 7,3% (estimativa) em 2013 e quer atingir 5,1% em 2014. Estamos a falar de um esforço muitíssimo mais violento do que o português — uma queda de 25,5 pontos percentuais. Segundo o Financial Times, os cortes na despesa irlandesa desde 2008 já ascendem a 28 mil milhões de euros. O défice português em 2010 foi de 10,2%, e aquilo que se pretende é que ele venha a ser de 4% em 2014 — ou seja, uma diminuição de 6,2 pontos percentuais, quatro vezes menos do que a Irlanda.”

Imagino que o Joao Miguel Tavares tenha sido atraiçoado pelo jornal em causa,  mas estes números dificilmente fazem algum sentido.

Vamos por partes. Primeiro, o défice orçamental de 2010 na Irlanda só atingiu os 30,6% porque o Eurostat obrigou o país a registar o apoio extraordinário concedido ao setor financeiro nesse ano. Sem este efeito extraordinário, o défice teria sido de 10,6% do PIB. Isto pode ser visto em qualquer relatório do PAEF irlandês feito pelo FMI ou pela Comissão Europeia. 

 

Veja-se, já agora, como a redução do défice tem sido lenta na Irlanda. Por exemplo, entre 2012 e 2013 o défice – ainda a níveis altíssimos - praticamente não se moveu: passará de 7,6% para 7,5%, e isto num contexto que, não sendo de “crescimento” económico que se veja – cresceu 0,2% em 2012 e a Comissão Europeia estima que cresça apenas 0,3% em 2013 -, também não é de recessão como em Portugal (o que dificulta mais a consolidação). Isto não me parece um desempenho exemplar.

 

Quanto ao alegado corte de 28 mil milhões na despesa, a única explicação que encontro para este valor é um cálculo absurdo: o contabilizar o fim do efeito na despesa pública do apoio à banca – que causou o défice grotesco de 30,6% em 2010 -  como "redução de despesa". Em caso contrário, não vejo sinceramente onde está esse brutal corte de despesa. Vejamos o gráfico seguinte, que mostra a evolução da despesa nominal total na Irlanda: "despesa total", "despesa corrente", despesas com "investimento" e outra "despesa de capital". Podia ter reunido estas duas em "despesas de capital", mas deixo os itens separados para se perceber o que se passou. No que toca à despesa corrente, ela praticamente não se mexeu: era 64,3 mil milhões em 2008, no ano em que chega a crise, e será de 65 mil milhões no fim de 2013. Isto não quer dizer que não tenha havido cortes efetivos (ver abaixo). Quer dizer apenas que a Irlanda não teve uma queda da despesa nominal, e que é improvável que tenha havido cortes da ordem dos €28 mil milhões.

 

Em segundo lugar, para além do expectável corte de mais de €6,5 mil milhões na despesa com investimento, o comportamento atípico está na rubrica «outra despesa de capital», onde está contabilizado o apoio extraordinário ao setor financeiro. É esta a chave para perceber a ideia (falsa) de que a Irlanda «reduziu a 28 mil milhões de despesa» desde 2008.

 

Já que falamos de medidas de consolidação orçamental, vale a pena olhar para a composição destas nos anos que vão de 2011 a 2013, os do PAEF irlandês (o gráfico consta do relatório do FMI da 11ª revisão regular do programa, pode encontrá-lo aqui).

 

 

Repare-se que se é verdade que o programa previa uma maior redução de despesa do que aumento de receita, também é verdade que, no que toca à «despesa corrente» (a verde) – e quando se saliva por cortes na despesa, é da despesa corrente (i.e., de salários e pensões) que se fala -, ela vale precisamente o mesmo valor relativo ao aumento da receita (a amarelo): €5 mil milhões.

 

Vale também a pena comparar o esforço feito pela Irlanda ao longo deste três anos – contabilizam-se €13 mil milhões em medidas de consolidação – com o realizado por Portugal no mesmo período. Recuperando um célebre gráfico usado por Vítor Gaspar em março passado…

 

 

…vemos que, em 3 anos, as medidas de consolidação em Portugal – um país onde o peso da procura interna no PIB é superior, sendo por isso mais vulnerável aos efeitos recessivos da redução de despesa - atingiram quase €24 mil milhões, não muito longe do dobro do esforço irlandês. Se o ajustamento foi "violentíssimo", não sei bem como qualificar o português.

É verdade que os irlandeses começaram a ajustar a meio de 2008, dois anos antes de Portugal (lembram-se do PECI?). Ainda estou a tentar contabilizar quanto valeram as medidas nesses 2 anos e meio que antecederam o PAEF irlandês, mas não vejo como possa ser possível chegar €28 mil milhões de cortes na despesa sem recorrer ao artifício jornalística e politicamente desonesto de contabilizar nestes cálculos o valor usado para recapitalizar a banca em 2010.

 

Ah, é verdade, os irlandeses cortaram salários aos funcionários públicos. Sobre isto, vale a pena dar três notas :

1) A Comissão Europeia publicou recentemente um estudo sobre as diferenças salariais entre o setor público e o setor privado, com dados para os anos de 2006 e 2010. Portugal faz parte do grupo de países onde o prémio salarial da função pública é mais elevado: 11,9% (atenção, isto são dados de 2010, antes do corte médio de 5% para salários a partir de €1500 inscritos no OE2011, e, claro, dos cortes subsequentes; curiosamente, a Alemanha também faz parte deste grupo: o prémio salarial da função pública era em 2010 de 10%). Ora, como se comporta a Irlanda nesta questão ? A Irlanda era em 2010 (e não sei se os cálculos já integram os cortes feitos nesse anoa os funcionários irlandeses) o país onde o prémio salarial da função pública era o mais elevado de toda a UE: 21,2%.

2) Entre os anos 2000 e 2008, antes da crise internacional virar as economias de pernas para o ar, as diferenças que existiam entre Portugal e Irlanda quanto ao peso percentual das «despesas com pessoal» no PIB foram anuladas. Enquanto em Portugal, o país onde alegadamente o Estado gastou como se não houvesse amanhã, as despesas com pessoal baixaram de 13,7% para 12% do PIB (uma redução de 12%) nesse período, na Irlanda, esse Estado prudente e poupado, as despesas com pessoal aumentaram 40% (de 8,4% para 11,8% do PIB).

  

3) Claro que podemos sempre dizer que a Irlanda tem funcionários públicos excecionalmente bem pagos porque ele são poucos. O que nos dizem sobre isto os dados do recente «Government at a Glance 2013» da OCDE ?

 

Três coisas: que Portugal baixou a percentagem de funcionários públicos na população ativa entre 2001 e 2011; que os valores para Portugal são nestes dois anos inferiores à média da OCDE (e da Irlanda); e que a Irlanda não só aumentou a percentagem de funcionários entre 2001 e 2011, como passou de uma posição em que estava abaixo da média da OCDE em 2001 para uma posição acima da média em 2011.

 

Para fazer uma comparação séria entre o ajustamento nos dois países, convém levar em linha de conta todos estes elementos.

eles andem aí

Não há que enganar, é que andem mesmo. As campanhas de desinformação, os perfis falsos nas redes sociais, as estratégias de intoxicação planeadas e urdidas ao milímetro. Tudo para quê? Ora, que pergunta. Para perturbar a ordem social e obrigar a um segundo resgate? não. Para derrubar o governo e levar Portugal a sair do Euro e aderir à ASEAN? Nope. Para precipitar a chegada do Anticristo? Niet. Talvez para conseguir bilhetes para o Mundial 2014? Nem isso. Algo muito mais importante, prioritário e essencial: para denegrir o Colégio Militar, nem mais. É preciso não ter a mínima ideia do que é distinguir o fundamental do acessório para imaginar outra coisa. Se procurarmos bem, se puxarmos as pontas soltas do novelo, acabaremos por perceber que a crise mundial desencadeada em 2008, a bolha imobiliária americana, a falência do Lehman Brothers e a crise cipriota tiveram tudo a ver com o Colégio Militar, fizeram parte de uma estratégia montada para destruir esta instituição, por parte do tal "grupo que, para além de odiar e querer matar o Colégio, usa métodos repugnantes de acção". Quem pensar que os seus tentáculos se limitam ao ministro da Defesa e seus sequazes está muito enganado. A conspiração é global, total e mortal (e já me vão faltando adjetivos). Deve envolver a Maçonaria, a Trilateral, os Illuminati e Detritus, a Carbonária e os Templários. Quando for à Quinta da Regaleira hei-de procurar pistas, se alguém vir por aí o Dan Brown, perguntem-lhe o que pensa ele disto. Só ainda não consegui descobrir como é que o Sócrates estará envolvido. Mas deve estar, não duvido. Eu sempre suspeitei daquela demissão sem motivo algum. Fazia tudo parte da big picture. Finalmente, as motivações de tudo isto emergem, transparentes: denegrir o Colégio Militar, encerrar o Colégio Militar, destruir o Colégio Militar. Não sei como é que nunca ninguém deu por algo tão óbvio e transparente.

"Igreja Católica Portuguesa e Condicionamento das Respostas ao Inquérito do Papa Francisco"

Vou procurar ser breve: a Igreja Católica Apostólica Romana Portuguesa encontra-se empenhada em condicionar nalguns temas as respostas dos seus fiéis ao Inquérito aos Católicos lançado pelo Papa Francisco I.

Convido primeiro a consultar o documento original do Vaticano que lança o inquérito e as perguntas lá contidas, assim como convido, caso tenham vontade e possibilidade, a procurar online a versão do inquérito das respectivas igrejas noutros países:

http://pt.scribd.com/doc/180575701/Vatican-questionnaire-for-the-synod-on-the-family

Proponho de seguida que consultem a versão portuguesa desse mesmo inquérito:

Questionário para o Sínodo da Família


1) Encontramos muito poucas questões de resposta aberta e uma frequência elevada de opções fechadas nas hipóteses de resposta (ou seja, não existe hipótese de outra resposta), ao contrário do que acontece noutros países ou no documento original;
2) Encontramos entre as hipóteses de resposta apresentadas numa das questões o conceito original, mas negativo, de "ideologia de género", que abarca, claro, a defesa da interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e respectivos direitos parentais, a igualdade entre homens e mulheres e dos seus respectivos papéis sociais e familiares, etc.;
3) Onde se pergunta qual é a atitude das igrejas e dos locais ao casamento entre pessoas do mesmo sexo as opções de resposta são todas negativas (e.g. atitude proativa - exerce a sua influência antecipando-se às iniciativas civis), ou seja, não há nenhuma hipótese de saber se há reacções positivas ou não; 
4) Adicionalmente ficamos sem saber quais as reações aos casais do mesmo sexo que têm filhos ou a iniciativas que protejam os direitos destas famílias.

Se desejarem voltem às perguntas no documento do Vaticano, comparem de novo com inquéritos noutros países e verifiquem que a referência a tal conceito negativo ou a semelhantes é inexistente, verifiquem que as perguntas são colocadas permitindo mais opções ou respostas individualizadas. 

 

A confirmação de tentativa de condicionamento faz-se com as afirmações da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a referida "ideologia de género". Convido a ler o seguinte artigo na íntegra:
Para a Conferência Episcopal leis do aborto e do casamento homossexual não são irreversíveis

O meu apelo é que denunciem este comportamento e que as pessoa crentes o façam saber nas suas paróquias e, claro, nada menos importante, ao Vaticano. Do que se vai conhecendo do Papa Francisco quem acredita que é mesmo desta forma que ele deseja que o seu inquérito seja desenvolvido e promovido?


Rita Paulos 

o consultor, os crimes dele, o câmara corporativa, a calúnia e o pai dela

o fenómeno mais interessante nesta estória do consultor de comunicação que deu uma entrevista à visão a contar todo ufano como fez parte de um coio de malfeitores que criava perfis falsos para difundir calúnias e 'desinformação', que participava em foruns radiofónicos para boicotar os inimigos políticos com elogios exagerados e que de um modo geral se aplicava em fazer tudo o que uma pessoa que se crê de bem jamais fará, é sem dúvida o facto de praticamente toda a gente (desde o entrevistador) que se enoja publicamente com estas revelações e vitupera o tipo se apressar a reiterar uma única das coisas que ele diz: que pior, muito pior, eram os socialistas do sócras, nomeadamente esse pavor da bloga, o câmara corporativa, que, aliás, confessa o consultor, foi o 'modelo' das aleivosias confessadas.

 

vejamos: 'Através dos escritos deste blogue se ficava a saber o lado privado e obscuro da vida dos adversários políticos internos e externos do governo, as suas opiniões em matérias polémicas e se criavam personagens políticas. Ou seja, através de uma narrativa própria e por vezes dura, o Corporações explanava, provavelmente, aquilo que o governo e o seu líder queriam dizer mas não o podia fazer publicamente. Além disso, tinha acesso a fontes privilegiadas de informação e foi, inúmeras vezes, acusado de ter ao seu dispor meios e técnicas que só podiam existir fruto da utilização de ferramentas internas do governo – informação económica, clipping personalizado, dossiês técnicos de acesso reservado e até, segundo alguns dos seus detratores, informação vinda directamente dos Serviços de Informação do Estado.' (da dissertação de mestrado do consultor, sublinhados meus) 

 

não estou certa de qual terá sido o momento em que se começou a difundir a autorizadíssima teoria sobre os malefícios do cc e a sua 'utilização de fontes privilegiadas de informação' mais 'informação vinda directamente dos Serviços de Informação do Estado', mas creio não haver dúvidas sobre quem foi o seu principal difusor (e eventualmente criador): o nosso grande amigo pacheco.

 

aliás, o pacheco, que acorreu a saudar as revelações do consultor com aquela típica e humilde honestidade pachequiana do 'eu bem dizia, e como sempre eu era o único a dizer, e como sofri na minha solidão de arauto da verdade, etc', não perdeu tempo em sublinhar que 'O modelo foi a Câmara  Corporativa do PS de Sócrates.'

 

o cc e, naturalmente, os outros blogues da 'frente da calúnia', na qual incluia, num post de janeiro de 2010, o aspirina b e aqui o jugas (ao vosso serviço): 'Esses blogues, como o Câmara Corporativa, o Aspirina B, o Jugular, escritos muitas vezes sob o anonimato e onde pululam empregados do governo, e às vezes mais acima - o anonimato serve para ocultar os autores, mas o estilo denuncia-os –, representam um mundo aparte na blogosfera que revela as fontes do radicalismo que emana nos dias de hoje do centro do poder socialista à volta de Sócrates. Quem se mete com José Sócrates leva de imediato uma caterva de insultos, que inclui todos os clássicos e é sujeito a uma campanha ad hominem grosseira'. 

 

'um mundo aparte na blogosfera'. portanto parece que afinal não havia, em janeiro de 2010, quando o pacheco escreveu este belíssimo texto, nada que o distinto escriba identificasse como o supremo do mal na bloga (e no mundo mesmo), a não ser estes três blogues que apelida de 'socráticos': 'os blogues socráticos desenvolveram um estilo agressivo de insulto e calúnia pessoalizada, que não tem paralelo com qualquer outra área política.' 

 

claro que perante isto uma pessoa pensa, ah, caramba, e estamos a falar de quê? de que tipo de insultos, de que calúnias pessoalizadas? mas exemplos o pacheco não dá. o pacheco estava, como sempre esteve e estará, naturalmente isento de fazer prova do que diz. porque o que o pacheco diz é 'a verdade' e o termo calúnia, como é bom de ver, não se adequa a acusações infundamentadas do pacheco e apaniguados -- talvez seja oportuno lembrar aqui que janeiro de 2010 é depois de agosto de 2009, quando o público, a pouco mais de um mês das legislativas, noticiou que a presidência da república estava a ser escutada pelo governo, 'facto' que o pacheco e a sua amiga presidente do psd e candidata a pm manuela ferreira leite, mais o à época director do jornal, desfraldaram como prova comprovada da virulenta perigosidade anti-democrática do governo ps, acusando-o até, quando o dn publicou a evidência -- mails do público -- de que a 'notícia' partira do assessor de imprensa do pr, de usar o sis (ferreira leite disse-o mesmo num comício) para devassar a comunicação interna do jornal. será a este concluio criminoso de desinformação e propaganda entre jornalistas e interesses partidários que pacheco se refere quando escreve 'falta ir mais longe na relação com a comunicação social, embora haja já muitos jornalistas envolvidos directamente em operações de desinformação e combate político. Sem consequências, bem pelo contrário'? não deve ser, pois não?

 

pois. e portanto o pacheco corre agora a certificar, perante a entrevista do outro, que aquilo reitera tudo o que ele sempre disse, quando o que ele sempre disse, sem nunca apresentar qualquer prova disso, é que não havia nada na bloga como o horror dos 'blogues socráticos'? não faz mal. até porque, como comecei por constatar, não é só o pacheco. perante a prova (enfim, a imputação) de práticas de desinformação e calúnia reiterada por parte de bloggers do psd contra sócrates, o coro grego conclui, em guincho uníssono, que o pior de tudo foi mesmo o sócrates e o câmara corporativa.

 

provas? exemplos? não têm, não apresentam, não precisam. é a verdade, com maiúsculas. ainda e sempre. mas a calúnia, claro, mora, ontem, hoje e sempre, nos 'blogues socráticos'. é uma tautologia: se são socráticos são maus, se são maus são péssimos, se são péssimos são criminosos e têm de ser combatidos de todas as formas, inclusive as formas de combate criminosas que lhes imputamos, porque, claro, é pelo bem e eles são o mal.

 

claro que, escrevendo num dos blogues assim classificado, não sou fonte credível e devo ter, decerto, neste pequeno texto, caluniado a torto e a direito (é a minha natureza, com certeza). pelo que não deve servir de nada certificar que nunca li no cc um post que evidenciasse qualquer 'info privilegiada', quanto mais 'técnicas que só podiam existir fruto da utilização de ferramentas internas do governo – informação económica, clipping personalizado, dossiês técnicos de acesso reservado e até, segundo alguns dos seus detratores, informação vinda directamente dos Serviços de Informação do Estado'. mas admitindo que sou muito burra, além de horrivelmente tendenciosa, rogo a todos: apresentem lá uma prova, mesmo pequenina, daquilo que dão como certo. a não ser que queiram que, na minha capacidade de insultosa nojentinha ad hominem, tenha de concluir que toda a gente que repete isto é não só pouco séria como está a colaborar, sem pejo nem remorso, numa campanha de desinformação e calúnia que dura há anos e na qual o tal consultor que tanto aparentemente vos enoja é apenas vosso colega, e em muitos casos (sim, pacheco, é contigo, mas não só) apenas aprendiz. 

 

 

 

 

 

I wish I had a ukulele, oh lila oh lila

Calha a ligar a BBC News: atentado bombista junto à embaixada iraniana em Beirute, ciclone e inundações devastadoras na Sardenha, novidades sobre o tipo que andou aos tiros em Paris, os refugiados somalis que temem deixar os campos no Quénia e regressar ao seu país, a crise diplomática desencadeada pelas escutas dos serviços secretos australianos ao primeiro-ministro indonésio. There's a whole world out there. Mas por cá, nada disso interessa, RTP e TVI (que a SIC está ocupada com uma senhora a ler o futuro nas cartas) abrem noticiários e dedicam-se ao que verdadeiramente importa, a gente sabe bem o que é, logo à noite.

acima das possibilidades

ontem à noite, desci a avenida da liberdade a pé com uma amiga. vínhamos a conversar sobre umas chatices de trabalho, e a reparar, aqui e ali, nas montras, mais nas lojas, tantas, que estão para abrir. reparámos também nos sem abrigo -- mais do que o costume, pareceu-me, embrulhados em mantas, sacos-cama, sós ou em pequenos grupos, mais pungentes ainda à frente daquelas montras onde um par de peúgas pagaria uns meses largos das suas vidas.

 

não sei se caso não tivesse lido, há muitos anos, o palácio da lua, de auster, olharia para sem abrigo como olho desde então: tentando perceber o que será não ter nunca um lugar só meu onde regressar, uma porta para fechar, paredes seguras, uma cama, luzes que se apagam. não ter coisas minhas, a familiaridade reconfortante, acariciadora, dos objectos escolhidos para viver comigo, em memória sólida do que sou, de quem sou. não poder dizer 'vou para casa'. cada dia assim, sem saber onde vou dormir, onde vou correr o risco da total desprotecção, sabendo que tudo me pode suceder quando fecho os olhos, sabendo que o melhor que me pode suceder é não existir para quem passa. sabendo que tenho de me habituar a isso que nunca pode ser um hábito, conformar-me como se não me lembrasse de outra vida, como quem nunca mais espera mais.

 

vínhamos a falar disso quando, a meio da avenida, sob uma escada exterior, nos deparámos com uma espécie de sala. havia um tapete, e sobre ele uma mesinha, ou banco, com um vaso de flores de plástico, e ao lado outro vaso também com flores. tudo, em volta de um corpo (ou dois, nem conseguimos perceber) adormecido, estava disposto com o cuidado de quem decora, faz bonito. de quem reclama um espaço como seu. 

 

parámos a olhar. não conseguimos fotografar, mesmo se era tão óbvio que estavamos perante algo de espantoso, de inusitado, um world press photo ali à nossa frente, resposta a tudo aquilo de que falávamos, a tudo aquilo em que vínhamos a pensar. alguém dispusera ali tudo o que tem, tudo o que lhe resta, para fazer daquele bocado de rua, por algumas horas, um lugar reconhecível, familiar, ordenado. não se tratava, como víramos mais acima, de, por exemplo, pôr a cabeça dentro de um caixote de papelão para a proteger do frio e da luz e dos olhares, pensar formas de tornar mais confortável, mais seguro, aquele pavor. ali era outra coisa, muito mais que expedientes. ali era resistência. 

 

pensámos, claro, que podia ser alguém que está na rua há muito pouco tempo e por isso ainda não se habitou a viver com o estritamente indispensável, seja lá isso o que for (dispensar tudo aquilo que foi e quis e sonhou?). pensámos que aquilo podia ser só outra forma de patologia, porque sabemos que a maioria dos sem abrigo endoidecem um bocadinho -- como não. e, durante um bocado, talvez não tenhamos pensado nada a não ser na irrealidade que advém de nos depararmos com a perfeita concretização de uma ideia. como se o que víramos fosse uma instalação artística, daquelas um bocado literais, a ilustrar a noção nietzschiana de que são as coisas inúteis que nos livram de morrer da verdade.

 

não sei porque é que aquela pessoa ou pessoas fizeram aquilo, se o fazem sempre ou se calhou ontem, vez sem exemplo. não sei se quero saber. como jornalista, devia, queria. perguntar o que era aquilo e porquê, e que significa para quem o faz. mas temo que a resposta não esteja à altura daquelas flores de plástico.  

 

os insurgentes

Se há coisa de que eu gosto mesmo, mas mesmo, nesta esquerda esquerda, canhota, verdadeira, sem cools nem frescuras, a esquerda que é mêmo esquerda e que se recusa a passar em qualquer Rua Direita e que cumpre a cartilha toda do Código da Estrada, exceto - isso mesmo, cumprir a regra da prioridade - esta esquerda mesmo tipo coiso bué de esquerda, com certificado de autenticidade e região demarcada, casta original e tradicional, suminho de uva vermelha verdadeira, não contaminada, não revisionada, não contemporizada nem rosada, nada nada, sabem o que é, sabem? é dos ads bannerzinhos de publicidade no final de cada post, tão revolucionário, tão No pasarán!, tão Hugo Chavez, tão mural operário, tão avante, caramba.

campanhas ao negro

Gaspar fazia reuniões em off com jornalistas para dizerem em conjunto mal do Executivo anterior e cantarem loas à austeridade. Passos foi eleito na campanha interna do partido graças a um punhado de bloggers "especializados em desinformação" coordenados por Relvas, que também orquestrou a das legislativas; não teve estado de graça porque mal ganhou compensou todos (menos um?) com sinecuras, destruindo "a rede".

 

A primeira revelação é de André Macedo na sua coluna de ontem no DN, close-up de um ministro pintado pelos media como "um técnico puro" que afinal se desvendava em 2011, mal pegou ao serviço, como propagandista politiqueiro. A segunda efabulação é de um consultor de comunicação entrevistado pela Visão a propósito de uma alegada tese sobre "a importância da comunicação política digital na ascensão de Passos" e que assume a existência de campanhas negras contra o Governo Sócrates, com criação de "perfis falsos" no Facebook e no Twitter: "Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num perfil falso e ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a fazer daquilo uma coisa do outro mundo."

 

Estes dois vislumbres sobre a génese e a natureza do Governo Passos têm, até pela credibilidade muito distinta dos emissores, valores diferentes. Do que o André conta anota--se não que um político quis trazer a si os media - qual o espanto? -, mas que os jornalistas lhe saltaram para o colo, entusiasmadíssimos com as "ideias" da troika/Gaspar. Daquilo que o consultor de comunicação diz, entre infrene autopromoção, falsidades e absurdos (como garantir que em 2009 os blogues políticos tinham 30 mil visitas/dia e que a net foi fundamental para as vitórias), ressalta a ironia de certificar que os apoiantes do atual PM, incluindo "jornalistas no ativo" que, aliás, nomeia, fizeram tudo aquilo que imputavam furiosamente aos do Governo PS. Vai ao ponto de asseverar que a sua "equipa de voluntários" tomou como modelo de atuação o blogue Câmara Corporativa, que acusavam (emulando Pacheco Pereira, autor da teoria) de ser feito e pago a partir do gabinete de Sócrates, "usando informação privilegiada sobre pessoas": "Não éramos anjinhos, sabíamos bem ao que íamos", diz, gabando-se de que o seu "grupo" recebia "filet mignon informativo" do PSD de Passos através de "um mail fechado".

 

Mas a ironia não fica por aqui. Ao mesmo tempo que clama ter participado em campanhas ínvias e negras para manipular os media e a opinião pública, o entrevistado da Visão repete a acusação de que o gabinete do anterior PM fornecia "informação privilegiada sobre pessoas" ao tal blogue, sem que a revista exija dessa gravíssima alegação qualquer prova ou sequer exemplo. Às tantas, o tipo é mesmo, como pretende convencer (ou recordar?), muito bom no que faz. Ou temos de concluir que, como afiança, vivemos num "caldinho jeitoso para isto."

 

(publicado sexta no dn)

Ensino de excelência e grandes valores, os exemplos são acarinhados

 

No Público de ontem contava-se que o diretor do Colégio Militar à data das agressões que estão neste momento a ser julgadas, elogiou em tribunal a "coragem dos agressores" e que um deles tinha tido o privilégio de se sentar em lugar de honra no jantar de fim de ano. Aparentemente a disposição dos lugares à mesa terá sido determinada pela Associação dos Antigos Alunos do colégio. Hoje, pelo DN (imagem supra),  fica a saber-se que essa mesma associação escolheu como uma das caras da sua lancinante campanha de há umas semanas ("Estão a matar o colégio militar! Porquê? Porquê?!") um outro arguido do mesmo processo. 

 

Com estas escolhas que mensagem querem fazer passar?

 

Como ontem me dizia uma amiga "Coragem por lá terem continuado??? Se o ambiente é este, devem ter-se sentido como peixes na água. E 80 processos são muitos processos e 17/22 já não são propriamente jovens em formação, já são jovens adultos, vs.10/13 piora muito as coisas. Livra, não fazia ideia!"... Pelo sinal que me deu há pouco, a notícia de hoje terá reforçado este comentário. Perante estas coisas dá vontade é de perguntar "Mas ainda não mataram o colégio militar porquê? Porquê?!"

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